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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Ferradores

15.12.04 | João Manuel Maia Alves
Segundo uma edição referente aos anos de 1937 a 1940 do Boletim da Junta da Província do Ribatejo existiam 1125 famílias na freguesia de Mouriscas. Na quase totalidade dos lares mourisquenses havia pelo menos um animal de tracção ou carga, donde se conclui que em Mouriscas havia em décadas passadas muitos animais usados para puxar veículos ou para transportar cargas.

Estes animais precisavam de ser ferrados para que os seus cascos ficassem protegidos de choques contra os maus caminhos de antigamente e pudessem suportar elevadas pressões resultantes de cargas ou da tracção de veículos.

Os homens que ferravam os animais chamava-se ferradores. No seu local de trabalho havia uma estrutura muito sólida que chamava a atenção. Era o tronco; nele eram imobilizados animais para serem ferrados.

Mulas, cavalos e burros eram geralmente ferrados sem entrarem no tronco. O ferrador, de costas viradas para o animal, levantava-lhe a pasta a ferrar e segurava-a entre as suas pernas. Tirava-lhe a ferradura velha com uma grande turquês. Depois cortava com um formão um pouco de casco. Alisava o casco com uma grosa e aplicava-lhe, a seguir, com grandes marteladas numa bigorna, uma nova ferradura, ajustada ao tamanho da unha do animal. Agora com um martelo espetava os cravos – uns pregos que eram enfiados em buracos da ferradura. Os cravos eram espetados de modo oblíquo relativamente à pata. Depois o ferrador cortava e limava com uma grosa as pontas dos cravos que saíam do casco.

Existe uma expressão relacionada com o ofício de ferrador – “dar uma no cravo e outra na ferradura”, que significa dar um golpe certo e outro não, dizer duas coisas contraditórias, acertar numas respostas e noutras não, responder atabalhoadamente, não dizer toda a verdade.

Existiam “bestas velhacas” ou “bestas brabas”, curiosas expressões que designavam animais pouco ou nada mansos. Para serem ferradas eram imobilizadas no tronco. Se necessário, punha-se-lhes uma coisa na boca, chamada aziel, para evitar que mordessem.

Os bois eram ferrados no tronco por serem animais pesados. A pata a ferrar repousava num suporte.

Toda a gente conhece a forma das ferraduras de burros, mulas e cavalos. Menos conhecidas são as ferraduras dos bois. Um boi tem duas unhas em cada pata; cada uma precisava duma ferradura. A ferradura dum boi, chamada canelo, cobre a parte da pata que assenta no chão e tem uma espécie de asa que envolve a unha pelo lado de dentro.

Os ferradores também tosquiavam burros, mulas e cavalos, aproveitando a ocasião para os alindar. Muita gente ainda recordará os artísticos enfeites na parte superior da cauda destes animais.

Nas décadas que podemos recordar houve dois troncos de ferrador em Mouriscas – o de Augusto Serras, na Estalagem, que tinha recebido o negócio do pai, Manuel Serras e o de Armando Santareno, nos Engarnais Cimeiros. Ambos tiveram empregados. António de Matos Frade, falecido no mês passado, trabalhou nos dois troncos. Era provavelmente o único ferrador mourisquense vivo.

Augusto Serras também percorria grande parte de Mouriscas para capar porcos.

Em tempos passados, acorriam tantos fregueses aos ferradores que muitas vezes tinham de aguardar bastante tempo pela sua vez de atendimento. Havia por perto tabernas onde podiam esperar pela sua vez enquanto tomavam umas bebidas e conversavam. Também podiam ficar por perto do tronco conversando entre si e com outras pessoas. Aliás, os troncos dos ferradores eram locais de convívio aonde acorria muita gente para contar e ouvir histórias e novidades.

Em toda a parte os ferradores percebiam muito de doenças de animais. Em Mouriscas acontecia o mesmo. Os ferradores eram muito procurados quando algum animal adoecia. Eram uma espécie de veterinários formados na escola da vida, aconselhando sobre cuidados a ter com os animais ou preparando mesmo produtos para lhes administrar. Isto faz-nos recordar uns versos que constavam dum livro da instrução primária de há muito tempo e que, com possíveis lapsos, aqui reproduzimos

Certo médico afamado,
Tendo doente um jerico,
Mandou chamar um ferrador
Para curar-lhe o burrico.

Pronto o bicho, quanto devo?
Pergunta o Dr. Fabrício.
Nada, que nós não levamos dinheiro
Aos que são do mesmo ofício.

Ferradores de antigamente! Foi bom recordar e homenagear essas figuras populares que “calçaram” e cuidaram dos nossos animais!



Este artigo teve a preciosa colaboração, que muito se agradece, de Arnaldo Cordeiro (Espadeira) e de Quintino de Matos Caldo Pardal. Ambos foram vizinhos durante muito tempo do tronco de Armando Santareno.