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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Matias Lopes Raposo - a paixão de ensinar

26.02.12 | João Manuel Maia Alves

 

 

O Prof. Matias Lopes Raposo é uma figura que se agiganta na história de Mouriscas. Da sua ação educativa beneficiaram largamente muitos mourisquenses e não mourisquenses. Poucos naturais de Mouriscas contribuíram tanto para a melhoria de vida dos seus semelhantes. Sem ele, teria sido diferente a história da terra que o viu nascer. Por tudo o que fez por Mouriscas e pelos outros merece ser recordado.

Matias Lopes Raposo nasceu nos Engarnais Cimeiros, em 8 de novembro de 1891. Era filho de João Lopes Raposo e de Francisca Marques. Faleceu em 5 de maio de 1961. 

Em 15 de julho de 1911 concluiu na Escola de Ensino Normal de Portalegre, com a classificação de 19,5 valores, o curso de professor do ensino primário.

Matias Raposo começou a sua carreira em março de 1912, no Rossio ao Sul do Tejo, onde lecionou durante um ano. Fixa-se no ano seguinte em Mouriscas, onde iria exercer uma autêntica cruzada pela educação. Aposentou-se  no decorrer do ano letivo de 1947-48.

Em julho de 1936 foi nomeado para uma comissão colaboradora da reforma do ensino primário, tendo sido louvado em março de 1938 pela dedicação e competência de que deu provas durante os respetivos trabalhos.

Em fevereiro de 1936 foi nomeado Delegado Escolar do Concelho de Abrantes, cargo que desempenhou até junho de 1947.

Matias Lopes Raposo, um homem muito culto e excelente e exigente professor, começou ainda nos anos 30 a preparar rapazes para os concursos para empregados do correios e do caminho de ferro. Teve tanto êxito que as suas aulas se tornaram muito conhecidas e atraíram a Mouriscas rapazes de terras próximas como Belver e Alferrarede, outras menos próximas como o Gavião e outras bem afastadas como Alcains, a Sertã, Marvão ou localidades do Oeste.

A atividade atingiu grandes proporções e o Prof. Raposo, que também estava encarregado do Registo Civil e tinha de dar as suas aulas de professor do ensino primário, teve de dividir tarefas com a esposa, D. Maria Amélia Moreira, natural de Vila Fernando, perto de Elvas, a filha, D. Cremilde e o genro, Dr. João Santana Maia, médico, que tinha em Coimbra adquirido formação noutras áreas.

 

 Prof. Raposo, D. Cremilde, Dr. Santana Maia e D. Maria Amélia

 

Estes cursos foram extremamente importantes para muitos mourisquenses. Permitiu-lhes, sem terem que se deslocar para outras terras e sem terem que interromper as suas atividades normais, o acesso a uma formação que lhes abriu a oportunidade de trabalharem em estações dos comboios, como revisores ou nos escritórios da CP, com as correspondentes vantagens dum trabalho mais limpo, com melhores remunerações e com melhores possibilidades de educação dos filhos. Alguns que não tiveram nota suficiente nos exames para serem chamados para o caminho de ferro foram admitidos noutras empresas. Todos ficaram mais instruídos e subiu o nível cultural de Mouriscas.  

Sobre o que foi chamada a Universidade Ferroviária de Mouriscas, podem ler um artigo deste blogue clicando em http://motg.blogs.sapo.pt/51612.html.

A dinâmica gerada pelos curso de preparação para os exames da CP levou à criação do Colégio Infante de Sagres, uma instituição que muito prestígio deu a Mouriscas e em grande medida beneficiou muitos dos seus filhos.

No dia de 5 de Maio de 1968, sete anos decorridos sobre o seu falecimento, foi prestada uma homenagem ao Prof. Matias Raposo. Foi o seu nome dado a uma das ruas de Mouriscas, tendo feito uma alocução o presidente da Junta de Freguesia, Francisco Lourenço Grossinho. Foi inaugurado, junto ao então Colégio Infante de Sagres,  o monumento alegórico "à memória da sua pessoa e obra, erigido por subscrição pública entre os seus alunos, amigos e conterrâneos”. Neste ato foi encarregado o Professor Doutor Fernando Dias Agudo de falar pela Comissão de homenagem. Refira-se que o Professor Doutor Fernando Dias Agudo, professor catedrático de Matemática que, além de desempenhar outros altos cargos, foi Diretor da Faculdade de Ciências, da Universidade de Lisboa, guardou as melhores recordações do Prof. Raposo, de quem foi aluno na 4.ª classe, afirmando “o que então aprendi deu-me uma preparação extraordinária para a entrada no liceu”. Em nome da família falou o Dr. Carlos Alberto Raposo Santana Maia, neto do homenageado.

Na foto seguinte podemos ver o monumento ao Prof. Raposo, em frente do colégio que fundou.

 

 

Depois de um almoço de confraternização, realizou-se uma sessão solene em que usaram da palavra, pelos alunos da altura, Joaquim Augusto Martins Rodrigues e, pelos antigos, o Prof. António Marques Heitor. Encerrou a sessão o Diretor do Colégio e genro do homenageado, Dr. Santana Maia.

O Professor Doutor Fernando Dias Agudo teve a gentileza de fornecer as notas preparatórias da alocução que na altura proferiu. São essas notas que, com autorização do autor, a seguir se transcrevem em itálico.

O orador começa por referir a contribuição que Mouriscas tem dado para o desenvolvimento do país através da valorização intelectual dos seus próprios filhos, entre os quais se contam algumas dezenas com cursos superiores e muitos exercendo altos cargos nos mais variados lugares de todo o espaço português. Observando depois que os problemas educacionais se devem resolver com grande antecedência, que o ensino é campo onde os frutos se colhem muitos anos após a sementeira, realça a obra realizada pelos professores que há meio século levaram o povo de Mouriscas a antever na educação um dos maiores fatores do progresso. Presta assim uma primeira homenagem ao Professor M. Lopes Raposo, professor primário competentíssimo, mas neste aspeto associa-lhe toda a plêiade de educadores que o precederam ou que com ele colaboraram nesta obra de valorização intelectual dos habitantes de Mouriscas.

É hoje corrente falar de cursos de formação, da necessidade de preparar gente para as novas profissões que vão surgindo, para as modernas exigências da sociedade industrial; e também não constitui novidade afirmar que nos países progressivos não irá além de uns 10% a percentagem da população ativa que se ocupa nos trabalhos agrícolas. Recuando uma vez mais no tempo, o orador cita os cursos iniciados há muitos anos pelo Prof. Raposo para preparar os seus jovens conterrâneos para os Caminhos de Ferro e Correios, dando assim a oportunidade a muitos deles de uma promoção social que não conseguiriam se continuassem ligados ao setor primário. E hoje, enquanto os elementos mais válidos de muitas aldeias do país tiveram que procurar além fronteiras um melhor nível de vida (nem sempre conseguido!), os naturais de Mouriscas encontram-se na sua quase totalidade a trabalhar no espaço português nos mais variados sectores, mas contribuindo todos eles para o progresso do país em que nasceram.

Ficou assim focado um segundo aspeto pelo qual Mouriscas muito deve ao Prof. M. Lopes Raposo.

Mas avançando um pouco mais, o orador lembra que também hoje se diz e escreve por toda a parte que um país é tanto mais progressivo  mesmo materialmente!  quanto maior for o número de anos de estudo da sua população. Mas pergunta quantas freguesias rurais de Portugal possuíam há 20 anos um colégio onde os seus jovens habitantes pudessem prosseguir cinco anos de estudo além da escolaridade obrigatória? Quantos filhos e netos de trabalhadores agrícolas estariam em condições de poder tirar na sua própria terra  o curso geral dos liceus?

E ao citar esta obra extraordinária do Prof. M. Lopes Raposo, criando o Externato Infante de Sagres em Mouriscas (coadjuvado agora pelo seu genro, o Dr. Santana Maia), o orador realça novo aspeto da ação notável deste educador de eleição.

Professor distintíssimo das primeiras letras, entusiasta pelos cursos de formação, criador de um dos primeiros colégios que existiram em aldeias de Portugal, o Prof. Raposo não descurou os aspetos materiais da terra que tanto amava  e o orador terminou a sua alocução por referir a ação do homenageado com Presidente ilustre que foi da Junta de Freguesia de Mouriscas.

Por altura da sua morte, escreveu-se no jornal Nova Aliança, de Abrantes, o que se segue:

“Muita gente em Mouriscas lhe deve as asas de instrução em que se ergueu nos vários sectores da vida nacional: médicos, advogados, sacerdotes, professores, funcionários públicos, etc., iniciaram com o Prof. Raposo o desenvolvimento da sua capacidade intelectual e se revelaram capazes de prosseguir em voos intelectuais de maior importância.”

Excelente retrato dum homem de grande caráter, personalidade e determinação! Mouriscas o viu nascer e muito lhe deve. É uma figura de quem se pode orgulhar!

 

Agradecimentos ao Professor Doutor Fernando Dias Agudo pela sua preciosa ajuda para redação deste artigo. Agradecimentos também a Fernando Bento pela fotografia do monumento.