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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

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Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

António Alves Bento (2)

19.12.10 | João Manuel Maia Alves
Por José Carlos Rodrigues

Fui quase conterrâneo (nasci em Mação, na típica Rua de S. Bento) e grande amigo do mourisquense António Alves Bento e, como ele, um ferrenho praticante de Aeromodelismo, a modalidade desportiva a que, na altura, chamávamos “desporto-ciência”.

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O autor, de joelhos, e António Bento. de pé, junto duma Fortaleza B29

Hoje, já não é tão ciência como isso, porque os aeromodelistas deixaram de desenhar e construir os seus próprios modelos, de raiz, e passaram a comprá-los nas lojas da especialidade já prontinhos a voar.

Eu já conhecia a “demonstração” que o António Bento fez nas Festas de Mouriscas, quando subiu ao dancing para mostrar como funcionava um pequeno motor de explosão, desenhado e construído por si, e que deixou toda a gente admirada por verem aquele pequeno engenho a atingir mais de dez mil rotações por minuto.

Foi por causa desse “grande êxito” obtido em Mouriscas que o António Bento me propôs que levássemos a nossa equipa de aeromodelismo ao novo campo de futebol do Mação para aí fazermos uma demonstração das nossas habilidades.

Foi um sucesso! À volta do campo, que ainda não estava relvado e nem tinha bancadas, longe disso, estaria com certeza muita gente das Mouriscas, porque a multidão era mais que muita. A demonstração foi assim como que uma coisa de circo, com detalhadas explicações sobre o que se estava a passar, saídas de potentes altifalantes que a Câmara Municipal mandou colocar expressamente para o acto.

Foram demonstradas várias modalidades de Voo Circular: velocidade (modelos voando a mais de 150 kms. por hora), acrobacia, combate e corridas de equipa e até houve voos com motores a jacto. O Voo Circular é assim: o aeromodelista está no meio do terreno e maneja um punho especial do qual saem dois fios de aço muito finos que mal se vêem (cerca de 2 décimos de mm de diâmetro) com 16 metros de comprimento e que entram por uma asa do modelo. São esses fios que, através de alavancas no interior do aparelho, vão comandar os lemes de profundidade que fazem subir ou descer o pequeno avião na trajectória circular que descreve.

Hoje, o Voo Circular cedeu o seu lugar ao Voo Radiocontrolado, que não necessita de terreno adequado e é muito mais espectacular.

Mas, além do Voo Circular e apesar de estarmos rodeados por uma enorme mata de pinheiros, o António Bento fez questão de lançar um modelo de Voo Livre, que rapidamente voou para longe e só meses depois foi encontrado num pinhal para os lados do Monte Penedo.

No dia seguinte, a brincadeira dos miúdos do Mação era fazerem corridas, Rua da Ladeira abaixo, com pequenos “aviões” que eram, simplesmente, duas pequenas canas cruzadas e nós, todos os 5 da equipa, éramos profusamente cumprimentados no Café Central como “heróis do momento”.

Isto lembrava-nos o hábito que, na altura, os pilotos de Aviação tinham de, sempre que podiam, irem sobrevoar as suas aldeias, fazendo umas acrobacias que punham toda a gente a olharem embasbacados para cima e, assim, provavam que eram os maiores!

Mas, ainda sobre António Bento e esgaravatando no caixote de antigas fotografias das lides aeromodelísticas, vieram-me à lembrança aquelas alvoradas no Aeródromo de Alverca, quando chegávamos com os nossos aeromodelos no comboio das 7 da manhã. Nós todos encasacados, arrepiados com o frio cortante da madrugada, e o António Bento, casaco para o chão, a arregaçar as mangas da camisa para pôr a trabalhar todos os nossos motores, um a um, pois nós não tínhamos ainda sabedoria suficiente para o fazer. Só depois de nos ter despachado a “aquecer motores” e nos ter ajudado nos nossos treinos é que ele ia tratar dos seus aeromodelos.

Mas não era só no campo que prestava apoio a todos que necessitavam. Quando algum aeromodelista precisava de uma peça metálica para o nariz de um hélice, para um escape de motor, para umas jantes de um avião à escala, lá estava ele manuseando com a maior maestria o seu torno de precisão para satisfazer o amigo.

Ao remexer estas lembranças fui-me emocionando com a recordação destes momentos felizes e da imagem do grande amigo que foi o António Bento, que nos deixou a maior saudade quando partiu para sempre.

António Alves Bento, um homem raro!

* O administrador deste blogue sente-me extremamente honrado com a publicação deste eloquente testemunho sobre António Alves Bento. Muito obrigado, José Carlos Rodrigues.