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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

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Francisco Dias - mérito que atingiu a excelência

20.12.09 | João Manuel Maia Alves
Este artigo foi publicado em 23-11-2009. Por erro, foi apagado quando foi introduzido novo artigo sobre Francisco Dias. Teve de ser gravado outra vez, surgindo com nova data de publicação.

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(Escrito de harmonia com o Acordo Ortográfico)

O autor deste artigo recorda o entusiasmo com que no fim dos anos 50 o saudoso Dr. João Santana Maia comentou a notícia de um jovem mourisquense ter obtido um prémio em Espanha. Quem era este jovem mourisquense? Que proeza tinha cometido para ser premiado no estrangeiro? É o que vamos ver.

Com pouco mais de vinte anos, Francisco Dias, aprendiz de carpintaria de moldes da Fábrica Militar de Braço de Prata, venceu o Concurso Internacional de Formação Profissional na especialidade de Moldes e Modelos. O concurso realizou-se em Madri no ano de 1957. O prémio foi uma taça de prata, entregue no Palácio do Prado nada mais nada menos do que pelo Chefe de Estado espanhol, o todo poderoso Generalíssimo Francisco Franco, vencedor da sangrenta guerra civil espanhola de 1936-1939.

Francisco de Matos Dias nasceu em 4 de julho de 1936, no lugar do Cardal, em Mouriscas. filho de Luís Dias, trabalhador rural, e de Maria de Matos, doméstica. Geralmente conhecido em Mouriscas por Francisco Dias, assim será referido neste artigo.

Concluída a instrução primária, Francisco Dias ocupou-se durante algum tempo de trabalhos agrícolas. Depois, por influência do seu tio José Pedro, entrou em 1949, com treze anos, para a Fábrica Militar de Braço de Prata – ainda antes da idade legal de catorze anos.

Em 1950 iniciou o Curso Industrial na Escola Industrial Afonso Domingues, no horário da noite, das 19 às 23. Como o horário da fábrica era das 8 às 17, não lhe restava tempo para estudar ou para se divertir. Nesta escola Francisco Dias viria a completar o 5° Ano do Curso de Serralheiro na Área da Metalurgia. Da sua formação académica faz também parte o Curso Industrial na Área das Madeiras (Curso de Marcenaria).

A Mocidade Portuguesa era a organização de juventude do Estado Novo. Política aparte, teve alguma atividades interessantes. Como funcionário do estado, Francisco Dias estava obrigado a frequentar a pertencer ao seu Centro Extraescolar. Foi em 1954 que através da Mocidade Portuguesa se inscreveu no 4.º Concurso de Trabalho, obtendo o segundo lugar, vindo a saber mais tarde que não lhe atribuiram o primeiro por uma questão de idade. Voltou a concorrer e obteve o primeiro lugar no Concurso Nacional. Entretanto, o estudo e a carreira profissional iam decorrendo com êxito.

Em 1957 surge o serviço militar, prestado em Vendas Novas, de que passaria à disponibilidade como furriel e com um louvor na caderneta.</p>

Trabalhando na fábrica numas férias do serviço militar, Francisco Dias recebe da Mocidade Portuguesa um convite para representar em Madri a fábrica no 6.º Concurso de Trabalho. O resultado já o conhecem – o primeiro lugar. Estávamos em outubro de 1957.

O prémio conquistado abriu-lhe uma data de portas. O aprendiz Francisco Dias foi louvado em ordem de serviço e promovido a operário. Com apenas 25 anos chegou a chefe de secção. Em 1963 iria sair da Fábrica Militar de Braço de Prata, onde tinha atingido o importante lugar de Chefe de Grupo e onde deixou amizades, de que é prova a festa de homenagem e a salva de prata com que foi brindado. Tinha 27 anos. Francisco Dias deixou a Fábrica Militar de Braço de Prata para embarcar noutros voos – os de técnico de formação profissional. E que voos! </p>

Através de concurso, em que participaram 38 candidatos, Francisco Dias foi aprovado para monitor de Carpintaria no IEFP (Instituto de Emprego e Formação Profissional). Mais tarde foi convidado para responsável da especialidade de Carpintaria de Moldes. Elaborou para esta especialidade todo o programa, planos de equipamento e implantação e coordenou a montagem da secção de Ramalde (perto do Porto), onde ainda hoje se faz formação profissional de Técnicos de Moldes e Modelos. Ramalde é o único local do país onde esta profissão é ensinada com reconhecimento oficial. Esta secção foi integrada no CINFU, Centro Protocolar da Indústria de Fundição, tendo sido considerada uma das melhores montagens a nível mundial por um técnico alemão. Nesta secção Francisco Dias deu aulas a finalistas da área de metalurgia da Universidade do Porto.

No ano de 1964 foi convidado para dar apoio ao júri do Concurso Internacional de Trabalho, realizado em Portugal. Um industrial belga membro do júri pediu a Francisco Dias para o substituir, o que veio a acontecer, rompendo-se assim com a tradição portuguesa de reservar a engenheiros e agentes técnicos a participação nos júris de tais concursos. Nos anos seguintes, até 1974, fez parte dos júris de Carpintaria de Moldes, Desenho de Máquinas, Fundição e até ... Culinária.

Francisco Dias tem o seu nome ligado à linda cidade de Inhambane, também chamada a “Terra da Boa Gente”, situada na costa de Moçambique. Esta designação é atribuída a Vasco da Gama e ouve-a com muita frequência quem visita Moçambique. Em 1970 Francisco Dias foi convidado pelo então Secretário de Estado dos Transportes de Moçambique, para elaborar o plano de implementação do Centro de Inhambane para a Formação Profissional dos caminhos-de-ferro naquela região, o que veio originar a criação do seu Centro de Formação Profissional. Em 1973 Francisco Dias voltaria a Moçambique para o que considera ser dois dos anos mais produtivos da sua vida profissional. Colaborou então na montagem em vários locais de centros de Formação Profissional, preparação de monitores e Técnicos de Formação e na adaptação de programas às realidades técnicas de Moçambique, país que viria a ascender à independência política em 25 de junho de 1975.

A extinção da Mocidade Portuguesa foi uma das primeiras medidas tomadas pelo poder revolucionário que conquistou o poder em 1975. Era através da Mocidade Portuguesa que Portugal participava nos concursos internacionais de Formação Profissional. Com a extinção da organização Portugal deixou de participar nos concursos. Depois de peripécias que encheriam páginas, Portugal voltou a participar nos anos 80, tendo Francisco Dias sido Delegado Oficial de Portugal e ajudado a integrar nos concursos outros países e territórios de língua oficial portuguesa. Francisco Dias manteve-se durante quinze anos como Delegado Oficial de Portugal, ou seja até à aposentação, ocorrida em 1994. Foi então eleito por unanimidade Membro Honorário da Organização Internacional dos Concursos de Formação, numa reunião que teve lugar em Gibraltar.

No ano da aposentação voltou pela segunda vez para uma importante ação em S. Tomé e Príncipe, outro dos países surgidos da descolonização portuguesa. Fez o estudo para um projecto de apoio a duas Secções de Formação Profissional (Carpintaria/Marcenaria/Sapataria). Voltaria no ano seguinte para a inauguração com a presença de altas individualidades e da televisão local. Muitos falam de cooperação com as antigas colónias, mas a cooperação faz-se com ações concretas como as que Francisco Dias realizou.

Após a aposentação prestou apoio à Formação Profissional na Área dos Concursos de Formação Profissional ao Centro de Formação Profissional da Madeira onde se deslocou mensalmente nos anos de 1994 e 1995.

Muito mais haveria para dizer de Matos Dias – nome mítico por que era conhecido nos meios ligados à Formação Profissional. Muitas dificuldades teve de vencer. Outros cursos teve de frequentar. Muitas capacidades teve de adquirir além das referidas. Outras importantes ações desenvolveu. Este artigo dá somente uma ideia pálida da sua brilhante carreira profissional, que lhe proporcionou viajar pelos cinco continentes, privar com muita gente e conhecer muitas

Poder-se-ia dizer que Francisco Dias teve a sorte de lhe aparecerem oportunidades que soube aproveitar, mas a sorte sorri a quem a procura. Os romanos tinham o provérbio “Industriam adjuvat Deus”, que quer dizer ”A quem trabalha Deus ajuda”. Realmente, a sorte não cai do céu. Outro provérbio, este em inglês, diz “God helps those who help themselves”, ou seja ”Deus ajuda aqueles que se ajudam a si próprios”. Estes provérbios e outros semelhantes bem se podem aplicar com propriedade à carreira de Francisco Dias. Teve uma carreira de muito mérito porque fez por merecer esse mérito. Mouriscas deve estar orgulhosa deste seu filho.

Autor deste artigo: João Manuel Maia Alves, que agradece as informações prestadas por Francisco de Matos Dias

Palavras do texto resultantes do Acordo Ortográfico
  • Madri em vez de Madrid; tanto Madri como Madrid são aceitáveis, correspondendo a duas pronúncias diferentes que existem em português para o nome da capital de Espanha
  • abril, junho, julho e outubro em vez de Abril, Junho, Julho e Outubro, porque os nomes dos meses, como os das estações do ano e os nomes dos dias da semana se escrevem com minúscula
  • extraescolar em vez de extra-escolar, como antes já se escrevia extraordinário
  • atividades, ação e ações em vez de actividades, acção e acções, com a eliminação dum cê que não se pronuncia