Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Mouriscas em meados do século XX (3)

11.11.04 | João Manuel Maia Alves
Os filhos, de ambos os sexos, desde os três anos ajudavam os pais de diversas maneiras. Fazer pequenas compras, dar recados, guiar animais em diversas situações de trabalho, vigiar as bestas presas à nora, realizar pequenos trabalho agrícolas. No tempo da Escola, menos frequentada pelas raparigas, após a vinda das aulas a ajuda não parava.

Depois dos 12/13 anos os rapazes continuavam a trabalhar com os pais até casar ou iam aprender um arte. As raparigas mais afortunadas iam para a mestra aprender costura e permaneciam na casa paterna até ao casamento que tinha lugar, geralmente, entre os 18 e 22 anos. A maioria delas não frequentava a escola.

Os filhos das famílias mais pobres, mais numerosos, apenas com uma pequena horta, própria ou arrendada, tinham um futuro mais incerto e penoso. Os moços a partir dos 12 anos, com a 4ª classe ou sem ela, eram integrados nas companhas de ceifeiros que, anualmente, se dirigiam para o Alto Alentejo e Espanha. No tempo da azeitona integravam os ranchos ou ajudavam os pais na sua sua colheita. Quase todos iam à tropa e poucos eram os que aprendiam uma arte e conseguiam libertar-se da suja, árdua e cansativa profissão de trabalhador rural. Os mais corajosos e aventureiros procuravam ocupação em Lisboa, nas colónias portuguesas de África, no Brasil, em França, na Alemanha e na Suíça, para minorar a sua pobreza. As moças trabalhavam no campo e já, no século XX, algumas, nas oficinas de espartaria e de pirotecnia existentes na freguesia.

O trabalho do dia-a-dia, tempo cheio múltiplas carências e dificuldades e de constantes canseiras e sofrimento, era atenuado pelos tempos sociais, retemperadores de energias, em que o contentamento e a alegria eram a regra e em que o convívio alargado, a solidariedade, a coesão e a identidade sociais locais saíam reforçadas. De recordar os baptizados, os casamentos, a matança do porco, (que reuniam familiares e amigos) as festas religiosas e profanas, os descantes, os bailes, as tabernas, as feiras e os mercados, o dia das sortes ou de tirar o número, as descamisadas, o fim da safra da apanha da azeitona e dos lagares de azeite, onde se saboreavam as tibornas. Os velórios e os funerais, tempos de passagem, de perda e tristeza tinham, também, grande significado simbólico para as famílias e para a comunidade.

Será pertinente recordar que os mourisquenses estavam privados de água canalizada, de electricidade, de rede de esgotos, esta ainda actualmente por concretizar, sendo poucas as habitações que dispunham de casas de banho. A luz era a da candeia a azeite e do candeeiro a petróleo.

O rádio, o telefone, o jornal e o livro/revista e, já na década de 1950, a TV eram bens sociais na posse de meia dúzia de famílias.

Todos os estreitos caminhos municipais eram de terra batida, lamacentos e quase intransitáveis no tempo das chuvas e poeirentos no tempo seco.

As escolas primárias, que separavam rapazes e raparigas, ofereciam poucas condições aos estudantes. No Inverno geladas por falta de aquecimento, e no tempo do calor insuportáveis pela ausência de equipamento adequado. A oferta de refeições e de transportes públicos para alunos nem do imaginário faziam parte. Havia alunos que para chegar à escola tinham, diariamente, de percorrer, a pé, quer chovesse ou fizesse sol, mais de 10 quilómetros, carregando a sacola de pano com livros e cadernos e ainda o lanche e o almoço.

Relacionadas, directa ou indirectamente, com o mundo agro-pecuário então dominante, operava um conjunto de artes, destacando-se, entre elas, as de: ferreiro, serralheiro, carpinteiro, marceneiro, ferrador, capador, tosquiador, albardeiro, correeiro, latoeiro, caldeireiro, amolador, moleiro, lagareiro, mestre de lagar, podador, roçador de mato, serrador, madeireiro, carroceiro, tecedeira, oveira, boleira, ... .

A estes ofícios havia a juntar mais os seguintes: parteira, barqueiro, pescador, sardinheira, barbeiro, ceifeiro, negociante de animais, ervanário, pedreiro, sapateiro, alfaiate, costureira, chamada mestra de costura (a minha mãe, Elisa Benta (1897-1980), ensinou a sua arte a dezenas de raparigas mourisquenses), cozinheira, parteira, comerciante, empregado comercial, vendedor ambulante/tendeiro, merceeiro, taberneiro, benzilhoa-vidente, ... .

A indústria, com caracter de artesanal, então a laborar, distribuía-se pela: olaria, espartaria, cerâmica, pirotécnica, serralharia, carpintaria, destilaria de aguardente de figo, moagem de cereais (moinhos de água e de vento e azenhas), lagares de azeite, ... . Nas ribeiras da Arcês e do Rio Frio laboravam mais de uma dezena de engenhos de farinação e de moer azeitona. Menor era o número de moinhos de vento que não chegava a uma dezena. Também no rio Tejo funcionavam três ou quatro azenhas.

A empresa agrícola predominante, como já foi realçado, era e continua a ser a pequena e média, com realce para a primeira. Então havia excesso de trabalhadores rurais que tinham sérias dificuldades em arranjar emprego certo e continuado na freguesia. Geralmente, dispunham de pequenas e modestas habitações, que abrigavam numerosos filhos - a sua única riqueza. Um ou outro possuía alguns metros quadrados de terreno em cujo o amanho ocupava apenas algumas horas de trabalho por ano. Também os pequenos agricultores, para sobreviver, tinham de trabalhar, como assalariados, por conta de alheia.

Não será pois de estranhar que estes trabalhadores, uma parte do ano sem actividade e a outra na incerteza de a ter, os baixos salários praticados na agricultura- recorda-se que, em 1945, um trabalhador rural, mourejando de sol-a-sol, ganhava entre os 18$00 e 20$00 por dia, - metade para uma trabalhadora -, tanto quanto custava um litro de azeite ou meio alqueire de pão - e muitos artesãos, como pedreiros, sapateiros, carpinteiros,... -, a quem a vida não sorria, tivessem de recorrer às migrações temporárias. Para amealharem alguns escudos e minorarem o estado permanente de penúria em que nasceram e viviam, viram-se obrigados a deixar a sua terra natal e integrados em companhas, e procurar, nas grandes empresas agrícolas do Alto Alentejo e de Espanha, meios de sustento para mitigar a fome do seu agregado familiar, quase sempre, constituído por numerosos filhos - conhecidos muitos com oito e mais. Também foram muitas as raparigas e as mulheres que deixaram os seus lares para ir ceifar para o Alentejo e mondar arroz para o Ribatejo, donde, por vezes regressavam carregadas de sezões. Era uma das poucas oportunidades de juntarem algum dinheiro, nessa época, um bem tão escasso para a maioria dos mourisquenses, uma esperança nunca perdida de equilibrar o orçamento familiar sempre em débito para com as lojas e mercearias da freguesia. Para os mais novos, ainda solteiros, era esperança de se tornarem "adultos" ou de amealharem, sacrificadamente, uns tostões para os preparativos de um casamento já nos horizontes das expectativas futuras.

Embora as jornas diárias auferidas durante a safra também fossem de pequena monta, as vantagens eram notórias: poupança da alimentação; utilização de vestuário velho, muitas vezes, já fora de uso; trabalho aos Sábados e aos Domingos; despesas nulas na taberna; e pagamento no final do contrato que permitia receber a soldada toda junta.

De referir a importância de mais de uma dezena de empresas de espartaria no emprego de mão de obra feminina local, que manufacturavam seiras e capachos, que saíam pela estação de Mouriscas, para todo o País.

(Continua)

Este texto foi escrito por Carlos Bento