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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Casamentos à moda antiga (2)

31.05.09 | João Manuel Maia Alves
(Artigo escrito de harmonia com o Acordo Ortográfico de 1990)
Vamos imaginar como se poderia ter desenrolado um casamento em Mouriscas há umas décadas.É voz corrente que os noivos têm um “bom arranjo”. Em linguagem mourisquense tal significa que os pais tem muitos bens - muitos à escala mourisquense. São terras de cultivo. Os noivos vão continuar a tradição familiar do amanho da terra, numa localidade que já conta com muita gente com empregos de colarinho branco, como se há de dizer daqui a uns anos - fatores do caminho de ferro, empregados de escritório, professores primários e pessoas com cursos superiores.Foi construída uma casa para os noivos, não longe da casa dos pais dela, que é filha única.Em casa dos pais dos noivos desde manhã cedo se trabalha para que tudo corra bem. O noivo foi ao barbeiro. Voltou bem escanhoado. O barbeiro esmerou-se no seu trabalho e não poupou na brilhantina e na água-de-cheiro. A meio da manhã começam a chegar às casas dos pais os convidados. Muitos tiveram de andar muitos quilómetros a pé nesta terra com um povoamento tão disperso. Um comentário se ouve da boca de muitas donas de casa – é-lhes difícil comparecer a festas porque é preciso deixar tudo tratado e os “vivos” dão muito trabalho. Os “vivos” são os animais domésticos. Os convidados são quase todos pessoas do campo. Muitos envergam fatos novos. Alfaiates e costureiras têm tido muito trabalho. Pais, noivos e padrinhos é obrigatório estrearem fatos novos. Muitos convidados também trajam galas novas. Aos muitos sapateiros de Mouriscas não tem faltado serviço por causa de casamentos.A elegância desta gente é a que é de esperar da época, dos gostos pessoais e do ambiente campestre. Pessoas da cidade talvez não considerem elegantes por aí além os participantes desta festa. Os rudes trabalhos do campo também não contribuem para elegâncias – os corpos são fortes mas de aspeto algo pesado. Quase todos os homens vestem fatos a pender para o escuro, usam colete, em muitos casos com uma corrente de oiro e cobrem as cabeças com chapéus. Nas mulheres também as cores escuras imperam. Algumas ostentam cordões de oiro.Um casamento é uma festa para a miudagem. Muitos não cabem em si de contentes pela festa e pela farpela e sapatos novos. Começam a juntar-se e a fazer traquinices ou, como é comum ouvir em Mouriscas nestes tempos, a fazer “judiarias”, o que origina um curioso comentário: moços, nem o diabo quis nada com eles.Os convidados entretêm-se à conversa uns com os outros enquanto se servem de bolos e bebidas que cobrem longas mesas. Daí a bocado abancam para o almoço. O noivo almoça em casa dos pais entre os padrinhos, a noiva na casa que tem sido a sua, isto é, em casa dos pais, entre as suas duas madrinhas.Alguns dos convidados já assistiram a casamentos em Lisboa e ficaram muito mal impressionados. Na sua opinião, os casamentos de gente fina não têm graça nenhuma com o que chamam copo-de-água, onde comem em pé e à mão umas coisas sem sabor nenhum, ficando no fim todos cheios de fome. Além disso, havia mulheres todas pintadas e - vergonha das vergonhas – a fumar como homens. As pessoas que vêm a este casamento não querem nada parecido. Esperam um casamento bem à moda de Mouriscas, com muito comer e alegria.Cozinheiras especializadas em casamentos foram contratadas. Não vai faltar comida em abundância. Esta gente, quase vegetariana, nestes dois dias de festa vai consumir muita carne. Muito vinho e muita fruta, principalmente melão e melancia, não faltarão.Acabado o alegre e abundante almoço, forma-se um cortejo, que se vai dirigir à casa dos pais da noiva, a dois quilómetros de distância, por caminhos poeirentos. O noivo vai à frente, entre os dois padrinhos. A mãe ficou em casa, cuidando das operações domésticas. À porta da casa dos pais da noiva, muito senhor do seu papel, está o dono da casa, fazendo um esforço para conter tanta alegria. Viva lá, compadre! diz para o pai do noivo. Um casamento dá origem em Mouriscas a uma complexa rede de compadres e comadres. Os pais e avós de cada um dos noivos vão tornar-se compadres dos pais e avôs do outro e dos padrinhos e madrinhas. Também os casais de padrinhos e madrinhas se tornam compadres e comadres entre si.Os convidados do noivo entram brevemente em casa dos pais da noiva. Há muita alegria e troca de cumprimentos e comem-se mais uns bolos e engolem-se mais umas bebidas.Agora forma-se um cortejo conjunto, que se dirige à igreja. À frente vai a noiva, ladeada pelas madrinhas, a seguir o noivo, entre os padrinhos. A noiva veste um vestido branco. Na mão leva um ramo de flores. O cortejo terá de percorrer uns três quilómetros, com algumas subidas acentuadas, até atingir a igreja. Atrás, enchendo o caminho de lado a lado, vão os convidados, com muitas mulheres separadas dos maridos. A caminho da igreja as pessoas falam do que veem e do que lhes interessa mais – aquela horta bem cuidada, as colheitas do ano, etc. Ao fim de longo caminhar nesta tarde quente, lá chegam à igreja, um pouco atrasados, o que não deixa satisfeito o padre, que tem outros serviços marcados para o resto do dia.Os noivos ficam lado a lado em frente do altar, ladeados pelas duas madrinhas. O sacristão pede um voluntário. Este e os padrinhos dirigem-se à sacristia. Passados alguns instantes, surgem os três, vestindo opas (capas sem manga) encarnadas. Vão colocar-se do lado direito do altar, os padrinhos segurando castiçais com velas acesas e o terceiro homem, no meio, empunhando um grande crucifixo. Quase todos sentem a solenidade do momento. Imagens de santos, que parecem pessoas vivas a olhar para os assistentes, adensam o ambiente.Passados uns momentos surge o padre, um homem de aspecto maciço nos seus sessenta anos bem conservados. Enverga uma curta capa branca por cima de vestes negras. O sacristão veste uma opa vermelha. Virado para os assistentes e com voz forte o pároco diz, ao mesmo tempo que se benze, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Começou a cerimónia. Autor do artigo: João Manuel Maia Alves
= Palavras do texto com a ortografia alterada por causa do Acordo Ortográfico =
- Há de em vez de há-de- Fatores em vez de factores porque o cê não se pronuncia- Aspeto em vez de aspecto porque o cê não é pronunciado- Veem em vez de vêem.