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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Emílio - um homem que lançava foguetes

23.02.09 | João Manuel Maia Alves

Emilio Patacas.jpg

 

Há interessantes e invulgares ocupações que desconhecemos. Foi o caso do trabalho de Emílio dos Santos Costa, que toda a gente conhece por Emílio Patacas, nascido em 6 de Janeiro de 1930, nos Engarnais Cimeiros, em Mouriscas. ”Patacas” é alcunha que herdou do pai, Vicente dos Santos Costa. A mãe chamava-se Francisca Lopes Grilo. Emílio casou com Maria do Rosário Canha, conhecida por Maria Barroca.

Emílio frequentou a escola primária de Mouriscas. Guardou gado para várias pessoas e também trabalhou com o pai como serrador. Foi a ceifas e trabalhou em lagares de azeite.

Por volta de 1950 começou a trabalhar no lugar da Cumeada, na oficina de pirotecnia de José Fernandes Duarte, recentemente falecido. Assim começou Emílio uma actividade que o iria ocupar durante dezenas de anos, até se reformar. Na época da azeitona fazia uma interrupção nos trabalhos de pirotecnia para trabalhar em lagares de azeite.

Na oficia de pirotecnia participava no fabrico de fogo-de-artifício, ofício algo sujo e muito perigoso. Em Mouriscas ocorreram pavorosos desastres em oficinas de pirotecnia. Um deles atirou Mouriscas para a primeira página de pelo menos um jornal diário de Lisboa, mas na oficina onde Emílio trabalhou nunca houve acidentes.

A partir da primavera e até ao fim de Setembro Emílio abandonava nos fins-de-semana Mouriscas e a família para ir lançar fogo em festas de outras localidades. Assim conheceu terras tão a norte como Almeida e Gouveia, no distrito da Guarda, ou tão a sul como Albufeira e Silves, no Algarve. Lançou fogo-de-artifício fabricado em Mouriscas em inúmeras localidades das Beiras, do Ribatejo, do Alentejo e do Algarve. Temos de concordar que era uma ocupação algo invulgar. Eram tempos em que festa popular não dispensava o seu fogo-de-artifício. Não havia preocupações com incêndios, mesmo em localidades fortemente arborizadas.

Vejamos o que poderia ter sido um fim-de-semana de Emílio Patacas.

No sábado partia de Mouriscas num veículo que transportava fogo para várias festas e os homens que o iriam lançar. Chegado à terra destinada a Emílio, alguém da organização da festa era contactado e o fogo descarregado. Emílio e outro homem ou homens que se iriam encarregar do fogo naquela terra ficariam hospedados em casa dalgum organizador da festa - em Mouriscas chamava-se festeiro, chamava-se mordomo noutras. Em terras mais importantes ficavam hospedados em pensões.

Vamos supor que a festa constava de dois dias, tendo o primeiro uma celebração religiosa que incluía uma procissão. No dia seguinte, um domingo, era preciso cuidar da alvorada, ou seja do lançamento prolongado, aí pelas oito horas, de foguetes que iriam de certo modo anunciar o início da festa. À frente das procissões seguiam homens que lançavam foguetes. Lá ia Emílio Patacas nessa função. Era queimado fogo preso, lá pelas tantas da madrugada. Emílio e quem o tinha acompanhado de Mouriscas montavam as peças durante o dia e na altura própria deitavam-lhes fogo. Quem não se lembra de ver nas festas de Mouriscas o fogo preso, com aquelas rodas girando, com luzes de várias cores? No dia seguinte Emílio teria que cuidar do respectivo fogo e de descansar um pouco porque se tinha deitado tarde. Nalgumas festas realizavam-se peditórios porta a porta com a presença duma banda filarmónica e de alguém que ia lançando foguetes. Muitas vezes Emílio participou nestes peditórios. Acabadas as festas, Emílio regressava a casa, viajando, em geral, em transportes públicos.

Algumas festas duravam vários dias. Era o caso da Queima das Fitas, em Coimbra, e da Festa dos Tabuleiros, em Tomar. Nesses casos era mais prolongada a ausência.

Não foi só em festas populares ou académicas que Emílio participou. Por exemplo, atirou fogo no Jardim da Estrela, em Lisboa.

Emílio esteve presente num acontecimento verdadeiramente histórico quando, em 1966, com a presença das figuras gradas do regime político de então, foi inaugurada a obra que seria chamada “Ponte Salazar” até 1974. O fogo – de ar e de água – foi lançado de barcos no Rio Tejo.

Como era de esperar, Emílio aproveitava as suas deslocações para apreciar um pouco das terras que visitava e das suas festas.

Em linha gerais falámos desta actividade de Emílio Patacas. Tinha com certeza os seus sacrifícios, mas não lhe deviam faltar encantos. Com o fogo causava alegria e emprestava animação às festas. Ajudou a levar longe o nome de Mouriscas. E quem não gostaria de ter conhecido tantas terras ou de ficar em Coimbra durante os várias dias de festa permanente da Queima das Fitas e ver um pouco dessa linda cidade e das suas tradicionais festividades académicas?