Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Toa? ... Nã toa!

21.09.08 | João Manuel Maia Alves
Este interessante artigo de Josué Valente é dedicado à memória de Chico Valente, seu avô. Ele faz-nos recordar figuras típicas de Mouriscas que conhecemos ou que de ouvimos falar.

TOA?... NÃ TOA!

Francisco Lopes Valente, nasceu no Casal do Carril, entre 1870 e 1875. Era filho de Manoel Lopes Valente e Antónia Marques. Do casamento com Florinda Marques Batista nasceram oito filhos: Maria, Manuel, António, Joaquim, Severino, Isabel, Abílio e Emídio.
À época, considerado um médio agricultor, acumulando a qualidade de proprietário e rendeiro, chegou a ser um dos maiores produtores de figos do norte do Ribatejo.
Possuía um cavalito, um automóvel de luxo naquele tempo e também sinónimo de algum poder, com que percorria as propriedades e se deslocava nas Mouriscas e arredores.
Consta que era um homem muito interessante, vaidoso, elegante, bem falante e amigo do seu amigo.
Era também conhecido pela sua veia boémia, com alguma fama de mulherengo, bom guitarrista e cantador.
Por estes motivos era frequentemente convidado para a abertura das adegas de todo o concelho de Abrantes e para festas de sociedade, onde aparecia montado no seu cavalito, de guitarra a tiracolo.
Também era conhecido por, ao entrar nas adegas, percutir fortemente os tonéis com o punho fechado. Se estes estavam vazios dizia “este toa... nã toa!”
Se, pelo contrário, o som era cavo, com os olhos gaiatos a sorrir e adivinhando o néctar dos deuses nele contido, exclamava “este nã toa!...Toa.!”
Seguia-se o petisco ou repasto. Depois, fazia-se silêncio, e o Chico Valente exibia a sua linda voz de fadista acompanhada pelos trinados firmes da sua guitarra!
Famosas eram as décimas, obrigadas a mote, que também cantava!
Acabada a festa, o cavalo, bem ensinado, trazia-o de volta para casa, para os braços de Florinda, que, amiúde, o esperava chorosa e desgostosa, rodeada da uma ninhada de filhos pequeninos.
Às vezes também regressava com despesas que o orçamento familiar não comportava. Por isso a condição social esmoreceu e alguns dos bens esfumaram-se.
Morreu novo, muito novo, como nova também morreu Florinda, doente e desgostosa!
Dos oito filhos sobreviveram-lhes seis, alguns de tenra idade.Todos se criaram.
Que conste, nenhum tocou guitarra ou cantou o fado...!
Foi, estou certo disso, um bom homem que tenho pena de não ter conhecido e de, já velhinho, não me contado histórias de aventuras sentado nos seus joelhos!
Todavia, em miúdo, quando explorava o sótão da casa da minha tia Isabel, nas Casas Novas, descobri uma caixa de guitarra já sem cordas.
Longe de saber a sua origem e quem dela tinha extraído lindos sons de prazer e dor, a brincar, destruí-a.
Agora tenho pena! Muita pena!.
Era do Chico Valente, o meu avô paterno!
Ele já me desculpou.
Era um homem bom.
Toa?...nã toa!

Josué Carlos Marques Valente

Oeiras, 2008/08/12