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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Lembranças do meu tempo de escola

06.09.06 | João Manuel Maia Alves

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A presente foto, com o professor primário Manuel Alves Bento e seus alunos da 4ª classe, traz-me à memória vicissitudes da escola primária do meu tempo (1940-1944) e do tempo em que: os pais não iam todos os dias levar e buscar os filhos/as à escola. Apenas aqui se deslocavam, quando as crianças entravam para a 1ª classe, no dia da abertura das aulas, que começavam na primeira semana de Outubro ou quando tinham algum assunto a tratar com o sr. Professor ou por este eram chamados para resolver algum assunto relacionado com o aproveitamento ou comportamento dos jovens;

O edifício onde, em Mouriscas, funcionava a principal Escola Primária era geminado, destinando-se uma parte a salas de aula dos rapazes e a outra parte a salas de aulas das raparigas. O contacto e o convívio entre os dois sexos apenas de fazia de modo virtual.

Quanto aos alunos recordo-me que:

Faziam, diariamente, a pé, o percurso casa/escola/casa, quer morassem perto ou longe, chovesse, nevasse ou fizesse sol. Os apertados caminhos carreteiros que tinham de percorrer, normalmente de piso irregular, eram no tempo das chuvas lamacentos ou cheios de água e no tempo seco estavam cobertos de pó. Quando chegavam à escola molhados ou com frio esperava-os uma pequena braseira, que de pouco servia, condenando-os a passar várias horas molhados e com frio;

- Um ou outro caminhava descalço uma vez que os pais não tinham dinheiro para lhe comprar umas botas, ainda que grosseiras;

- Os que moravam mais distanciados da escola levavam o almoço consigo, muitas vezes uma sardinha albardada, umas passas fritas ou um pedacito de queijo e um bocado de pão de milho, tanta vez, endurecido. Nesse tempo não só não havia cantinas com leite, refeições de graça, como também dinheiro para comprar sandes, bolos, chupas, gasosas ou pirolitos... ;

- Levavam os seus livros, cadernos e o restante material escolar, como a pedra de ardósia, o lápis, a borracha, a caneta de tinta não permanente,... em pequenas sacolas, a maioria, confeccionadas de pano;

- Brincavam e jogavam, durante o recreio e hora de almoço, ao pião, ao berlinde, à bilharda, ao botão, à bola (de trapos), ao eixo, às escondidas, ... ;

- Iam fazer exame da 4ª classe à cidade de Abrantes, sede do concelho. Uns a cavalo em bestas, outros de carroça e, se calhar, alguns deslocavam-se a pé. Recordo-me que, em 1944, fiz o percurso numa carroça, puxada por uma mula, pertença do pai do colega Chico Martins, já falecido;

- Depois da escola, além de fazerem os deveres de cada dia, brincavam e ajudavam os pais, fazendo-lhes recados, pequenas compras e pequenas tarefas ligadas à vida do campo;

- Meia dúzia deles, por dificuldades de natureza pessoal e/ou material, embora o esforço dos seus professores, não atingiram a meta então tão ambicionada por todos os jovens: o sonhado diploma da 4ª classe, que lhes abria muitas portas, permitindo-lhe seguir os estudos ou iniciar uma arte e fugir ao fatigante e pouco limpo trabalho do campo, às ceifas do Alentejo ou à apanha da azeitona.

No que respeita aos professores:

- Os nossos professores, embora muito mal remunerados, eram muitos respeitados por toda a gente da freguesia, disciplinadores e muitos exigentes nas matérias que ensinavam, com especial relevo para a língua portuguesa e para a aritmética;

- Eles ensinavam a ler logo nos primeiros dois anos e a partir da 3ª classe os seus alunos faziam ditados e todos caprichavam em não dar erros de ortografia. Quando os davam eram obrigados escrever a palavra errada uma boa meia dúzia vezes;

- A tabuada e o abecedário ( do A a Z e do Z a A) decoravam-se (memorização mecânica para a fixação) a partir da 1ª classe e não mais se esqueciam durante a vida e a partir da 3ª classe aprendia-se a resolver complicados problemas de aritmética;

- Marcavam todos os dias trabalhos para fazer em casa. A sua não concretização, má execução ou uma chamada oral mal sucedida, ou até um comportamento desviante, constituíam motivos suficientes para se levar uns puxões de orelhas, umas bofetadas, chibatadas ou palmatoadas;

- Os pais dos alunos tinham absoluta confiança nos professores dos seus filhos e era, prática corrente, ouvirem-se incitações como esta: “senhor professor sempre que o meu filho descarrilhar puxe-lhe as orelhas, castigue-o, pois, quero que ele seja um homem e não um analfabeto ou um ignorante como eu”.

- Não facilitavam nada a vida dos alunos e só passando de classe quem sabia, e ao sair-se da escola, com a 4ª classe, era sinal de se tinha competências para saber ler, compreender e interpretar correctamente as mensagens do dia-a-dia, orais ou escritas, e resolver e lidar com os números a que a vida real, familiar e social, obrigava.

Termino com alguns dados biográficos do Professor Manuel Alves Bento, meu tio materno.

Nasceu em Mouriscas, no casal de Pinheiro, em 2/7/1895 e faleceu em 27/11/1941. Era casado com a Professora primária Estrela Barbosa, natural de Portagem, Marvão. O casal não teve filhos.

Foi combatente da 1ª Grande Guerra, em França, cujas sequelas terão antecipado a sua morte, que o levou aos 46 anos.

Era filho de Luís Alves Bento e Narcisa Alves, moradores no casal do Pinheiro e irmão de: Maria Alves Bento (24.1.1894-20.1.1948), casada com Manuel Gomes; Elisa Alves Bento (6.6.1897-20.4.1980), casada com David Lopes Mestre; Augusto Alves Bento (19.12.1899-6.6.1960), casado com Inácia e, depois de viúvo, com Maria Pimenta; António Alves Bento (5.5.1901-20.6.1954), casado com Maria Gomes; Abílio Alves Bento, (14.3.1904-), casado com Maria Antónia; e Carlos Alves Bento (2.6.1908-20.8.1976), casado com Rosa Pimenta.

Aproveito esta ocasião para prestar homenagem a todos os professores primários que leccionaram em Mouriscas, em particular, aos meus mestres, a D. Maria Amélia Raposo, minha professora da 1ª classe, e a Matias Lopes Raposo, meu professor nas classes seguintes.

A todos eles, como aos mestres de escola, os mourisquenses, de ontem e de hoje, muito devem.

A imagem acima inserida foi gentilmente cedida pelo meu irmão Fernando Lopes Bento, ainda entre nós e um dos alunos do grupo. Para ele um abraço reconhecido.

Escreveu o texto: Carlos Bento, Etnógrafo e Prof. Universitário.