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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Andando pelas Mouriscas

12.07.06 | João Manuel Maia Alves
Quem for às Mouriscas e alguém ou alguma coisa quiser encontrar vai ter de procurar, não por avenidas, nem por ruas, nem por palácios, mas tão só por "casais", por lugares.... E o que são? Não mais que pequenos locais, simplesmente sítios, que, no seu conjunto, formam o povoado singular de Mouriscas, fruto de povoamento disperso, de que se conhecem origens e vestígios pré-visigóticos, romanos e árabes.

Diversa, também foi a colonização posterior, ora dos serrenhos que desceram do interior montanhoso e pobre para junto do rio, ora dos avieiros do Tejo que se fixaram nas suas margens...ora, ainda, dos construtores do caminho de ferro que por aqui foram ficando.

Destes lugares, muitos não sei onde ficam. Outros por lá terei passado mas não os sei identificar. Muitos outros são e serão as referências de uma vida, a origem da minha história, os limites do meu horizonte durante bastantes anos. Foram, são e continuarão a ser pedaços de mim, que os anos e a vida longe não fizeram esquecer. A cada regresso voltam as familiares curvas do caminho, os cheiros peculiares de cada flor ou fruto, os aromas dos fenos e da palha, das canas em putrefacção ou do esterco a fermentar, os cantos dos grilos e dos pássaros... e que bem cantam os melros na primavera! E os recantos bucólicos do Tejo, as pesqueiras, as fontes de água fresca, os açudes e azenhas das ribeiras, o Pisão do Bruxo, o Poço e o Canto do Inferno ou a Senhora da Lapa, esta já nos limites com o Sardoal.

Quem se não lembra dos sons dos trincos das noras, no verão, que os burros, encaraçados, pachorrentamente faziam rolar, puxando a roda-aguadeira que arrastava os alcatruzes pendurados no calabre, escorrendo água para o tombadouro, que a manilha levava fresca até ao tanque...

E o comboio! O comboio que, a princípio, só levava os outros! De nós ... só levava o sonho! O comboio a vapor, máquinas pretas, com frisos vermelhos e gonzos amarelos de latão brilhante nas bielas e a chaminé, também negra, a vomitar fumo negro por entre os vales à beira-rio ... pouca-terra, pouca-terra! E, quando os silvos anunciavam a partida do cavalo de ferro, as mulheres ficavam na estação, de lenços de cachené na cabeça, a chorar na despedida dos que partiam ... para Lisboa, como se fossem morrer!... Mais tarde, também ele nos levou. Para longe, para outros sítios, bucólicos ou não. Foi pelo comboio que começámos a alargar a nossa dimensão do mundo. Mas, às vezes trazia-nos de regresso. Para matar saudades, ou tão só para levar os avios da semana... Por isso, a gente continua a voltar. Uns para sempre. Outros vão e voltam ... poucos esqueceram esta luz, estes sons e esta paz.

Parece-me que só há os que voltam e os que gostavam de voltar... Mas, nem tudo são rosas e, às vezes, sentimos pena pelo abandono de algum património, pela degradação das fontes, da ponte romana, dos açudes, dos lagares, dos moinhos e azenhas primitivos e por algum despovoamento. Todavia, apesar de tudo, grande parte do património particular edificado está um primor, harmonioso no conjunto, respeitando, na maioria, as cores da tradição norte ribatejana - branco e ocre - onde domina o bom gosto, a simplicidade e a singeleza das construções antigas. É por isso que nos sentimos bem andando por aqui. Continuamos mais ligados do que pensamos a estes sítios, a estas gentes e aos costumes que cedo nos moldaram, para sempre, os que aqui nascemos e aqueles que adoptaram a nossa terra como sua. Quando a visitar e se entranhar pelos caminhos e carreiros vai, decerto, ver que tenho razão! Há quem diga que a culpa é da água das fontes ... outros que é de uma moira encantada! E há uma lenda, a lenda do "Poço da Talha"... da grade de ouro que permanece lá no fundo, e que também nos prende...Para todos nós será um prazer convidar-vos a conhecer Mouriscas, encontrar alguém, descobrir os vestígios da romana "Villa Calva", a necrópole pré-visigótica, a mina romana na Ribeira da Arcês, o Poço da Talha, as Carreiras, as azenhas no Tejo e o Canto do Inferno.

Se vierdes, procurai por aqui, são estes os sítios, são estes os "casais": Albertiosa, Aldeias, Alto do Pina, Alvarinhais, Balsa, Barragem do Negrelinho, Barro, Bexiga, Bica da Pedra, Bogalhinha, Cabeço do Clérigo, Cabeço do Moinho, Cabrais, Camarrão, Canenhos, Cardal, Carocha, Carreira, Carril, Carvalhão, Casal da Eira, Casal do Enxamim, Casal da Figueira, Casal da Igreja, Casal da Milha, Casal da Murteira, Casal das Caldeiras, Casal das Freiras, Casal das Varandas, Casal de Vale Covo, Casal do Tejo, Casal dos Castanhos, Casal dos Cordeiros, Casal dos Lousos, Casal dos Vares, Casal da Venda, Casal Fundeiro, Casal Vale Moinho, Casalão, Casas Novas, Casas Pretas, Cascalhos, Castelo, Convento, Cotovelo, Cova do Madeiro, Cumeada, Engarnais Cimeiros, Engarnais Fundeiros, Entre Serras, Estação, Estalagem, Ferrarias, Ferrasteira, Fonte Branca, Fonte da Cré, Fonte de Ferro, Fonte da Gelfa, Fonte da Pedra, Fonte da Venda, Fonte de Sapo, Fonte dos Amieiros, Fonte dos Carvalheiros, Fonte dos Pinheiros, Forno Novo, Jogo da Bola, Lamareira, Lameira da Rainha, Lameira Redonda, Lercas, Lomba Cimeira, Lomba Fundeira, Maiorga, Meirinha, Mendavão, Milheira, Moinho, Moinho da Passalva, Monte Clérigo, Monte de S. Gabriel, Monte Novo, Morcegais, Motas, Mouriscas-gare, Murteira, Nossa Senhora dos Matos, Outeirinho, Outeiro Cimeiro, Outeiro Fundeiro, Outeiro do Gaio, Parício, Pinseiro, Pinheiro, Pisão do Bruxo, Poçarrão, Pombo, Portela das Eiras, Portela do Freixo, Rio Frio, Santo António, São Simão, Sentieiras, Sevado, Sourões, Surdo, Tojal, Vale do Esteio, Vargem do Ruivo, Várzea, Vimieiro e, decerto, mais alguns.

Se encontrardes, encontrar-nos-emos, será um prazer. Um grande prazer!

Oeiras, 2006/07/04

Josué Carlos Marques Valente