Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Padre Severino Ferreira Sant’Anna (2)

03.05.06 | João Manuel Maia Alves
Padre Severino.jpgContinuemos a transcrição do artigo publicado pelo jornal “Echo do Tejo” aquando da morte, em Alvega, em 26 de Outubro de 1903, do ilustre mourisquense que foi o Pe. Severino Ferreira Sant’Anna. Vejamos o resto do artigo do “Echo do Tejo”, na ortografia em que foi escrito.Era homem d’um trato lhano e folgasão, e por isso todos disputavam o seu convivio.Vem a proposito contar um facto que prova a sympathia que a todos inspirava o nosso biographado. Ha annos um lavrador d'uma villa do Alemtejo, e um dos maiores amigos d'aquelle que mais de uma vez tambem nos deu provas da sua estima, casou uma filha com um medico.Fazia ao genro taes elogios do cura seu amigo que em breve o medico se poz a caminho d'Alvega para o conhecer.Algum tempo depois, estivemos na Ponte do Sor com esse medico, que nos disse que dera os seus passos por bem empregados e que em nada achou exagerados os elogios que o sogro fazia ao parocho d'Alvega.Nunca se envolveu em luctas politicas. Desdenhava-as e assistia-lhes como um mero comparsa. Apesar das rijas pelejas que n'este campo se deram no circulo de Abrantes, nunca ninguem conseguiu conquistar-lhe mais do qne o proprio voto, nem mesmo o seu particularissimo amigo D. Miguel Pereira Coutinho.Foi sempre adverso a honrarias e exterioridades, seguindo praticamente a maxima de que o habito não faz o monge.Ainda não ha muito tempo que alguem lhe disse que se pensava em conceder-lhe as honras de Monsenhor.Respondeu qne era tempo perdido porque as não acceitaria embora com ellas não fizesse a minima despesa.Honras já tinha mais do que merecia, dizia elle, porque tinha o seu sacerdocio.Foi assim que viveu o honrado cidadão e o bom padre.Passou uma viva de humildade, sem que deixasse de merecer a sympathia aos que occupavam altos cargos sociaes.Comprehendedor do espirito do Evangelho, não apertava a mão com menos carinho aos pobres do que aos grandes do mundo. Nas suas ultimas disposições determinou que queria ir no esquife á maneira dos seus parochianos mais humildes.Na sua numerosa familia, gosava d’uma autoridade patriarchal. Todos lhe tributavam o maior respeito e estima e todos hão-de sentir-lhe a falta como a de um auxiliar econselheiro insubstituivel.Auxiliou muitos parentes, alguns dos quaes hoje occupam boas posições na sociedade.Quando lhe diziam que não fosse tão dadivoso porque poderia juntar bom pecunio se moderasse a sua generosidade, respondia que havia de morrer e ainda cá havia de ficar dinheiro.Assim succedeu na verdade. Falleceu o parocho d’Alvega pelas 3 horas da manhã, e ainda deixou não muitos bens mas os sufficientes para gosar uma velhice tranquilla se a providencia não decretasse chamal-o por uma vez ás mysteriosas regiões d'alem-campa.Respeitamos as insondaveis determinações da providencia e offereçamos ao Padre Severino as nossas preces de amigos gratos.O funeralÁs 11 horas da manhã do dia em que falleceu foi o cadaver transportado para a Egreja parochial e em seguida celebrada uma missa pelo presbytero Martinho Lopes Maia, sobrinho do fallecido, a que assistiram muitas pessoas da familia.De noite estiveram vários parentes do finado velando o cadaver.As cerimonias do funeral começaram na terça feira de manhã. Celebraram-se três missas de requiem e em seguida começou o officio de corpo presente. Assistiram os redos. commendador Polo, servindo de parocho o arcipreste dr. Martins, Conego Alexandrino Nunes, padres Cruz Curado, Henrique Neves, Annibal de Figueiredo e diacono Leitão.A missa foi celebrada pelo revdo. arcipreste, acolytado pelo Pe. Annibal e diacono Leitão.Antes que o cortejo funebre se puzesse em movimento subiu ao pulpito o revdo. dr. Martins, que produziu uma curta mas eloquente oração.Disse que o padre d'hoje é geralmente escarnecido, mas que o Pe. Severino teve sempre uma multidão de admiradores e deixou na alma dos que o conheceram uma saudade infinda.Fallou do simples padre e do bom padre. Ser bom padre, disse o orador n'um enthusiasmado rasgo d'eloquencia, é ser Padre Severino. Fallou depois da sua obra toda caridade, do seu amor pelos pequenos e da sua paixão pelo Evangelho de Jesus.O brilhante discurso do orador provocou profunda emoção no auditorio que derramava lagrimas copiosas e elle mesmo se comoveu a ponto de interromper o discurso mais depressa que desejava.Poz-se emfim o cortejo funebre em andamento, no meio duma compacta multidão de povo, apesar de o tempo estar chuvoso.Ás 2 horas da tarde tinham terminado todas as cerimonias.NotasA sepultura ficou em frente da porta do cemiterio e na extremidade opposta, onde nos dizem que o sr. dr. José Ferreira de Sant’Anna vai mandar construir uma capella.— O corpo ia revestido com os paramentos da missa.— Foi confessado pelo seu particular amigo José Alexandrino Nunes e ungido pelo sr. commendador Polo. Não tomou a Sagrada Eucharistia, porque a cada passo o affligiam os vomitos.—Instituiu herdeiro universal seu unico irmão, dr. José Ferreira de Sant’Anna.— O revdo. Pe. Severino ainda no dia 11 disse a missa parochial e celebrou todas as cerimonias que antes e depois costumava.Mas era tal o seu estado que muitos parochiano choraram ao verem-no. Despediu-se de todos e aconselhou-os e aconselhou-os á obediencia ao novo pastor.D’ali foi para a cama, donde já não se levantou.Morreu no seu posto como muitas vezes disse que havia de morrer.