Terça-feira, 24 de Maio de 2016

Casamentos à moda antiga (2)

Publicado inicialmente em 31 de maio de 2009

Vamos imaginar como se poderia ter desenrolado um casamento em Mouriscas há umas décadas.

É voz corrente que os noivos têm um bom arranjo. Em linguagem mourisquense tal significa que os pais tem muitos bens - muitos à escala mourisquense. São terras de cultivo. Os noivos vão continuar a tradição familiar do amanho da terra, numa localidade que já conta com muita gente com empregos de colarinho branco, como se há de dizer daqui a uns anos - fatores do caminho de ferro, empregados de escritório, professores primários e pessoas com cursos superiores.

Foi construída uma casa para os noivos, não longe da casa dos pais dela, que é filha única.

Em casa dos pais dos noivos desde manhã cedo se trabalha para que tudo corra bem. O noivo foi ao barbeiro. Voltou bem escanhoado. O barbeiro esmerou-se no seu trabalho e não poupou na brilhantina e na água-de-cheiro.

A meio da manhã começam a chegar às casas dos pais os convidados. Muitos tiveram de andar muitos quilómetros a pé nesta terra com um povoamento tão disperso. Um comentário se ouve da boca de muitas donas de casa – é-lhes difícil comparecer a festas porque é preciso deixar tudo tratado e os vivos dão muito trabalho. Os vivos são os animais domésticos.

Os convidados são quase todos pessoas do campo. Muitos envergam fatos novos. Alfaiates e costureiras têm tido muito trabalho. Pais, noivos e padrinhos é obrigatório estrearem fatos novos. Muitos convidados também trajam galas novas. Aos muitos sapateiros de Mouriscas não tem faltado serviço por causa de casamentos.

A elegância desta gente é a que é de esperar da época, dos gostos pessoais e do ambiente campestre. Pessoas da cidade talvez não considerem elegantes por aí além os participantes desta festa. Os rudes trabalhos do campo também não contribuem para elegâncias – os corpos são fortes mas de aspeto algo pesado. Quase todos os homens vestem fatos a pender para o escuro, usam colete, em muitos casos com uma corrente de oiro e cobrem as cabeças com chapéus. Nas mulheres também as cores escuras imperam. Algumas ostentam cordões de oiro.

Um casamento é uma festa para a miudagem. Muitos não cabem em si de contentes pela festa e pela farpela e sapatos novos. Começam a juntar-se e a fazer traquinices ou, como é comum ouvir em Mouriscas nestes tempos, a fazer judiarias, o que origina um curioso comentário: moços, nem o diabo quis nada com eles. Os convidados entretêm-se à conversa uns com os outros enquanto se servem de bolos e bebidas que cobrem longas mesas. Daí a bocado abancam para o almoço. O noivo almoça em casa dos pais entre os padrinhos, a noiva na casa que tem sido a sua, isto é, em casa dos pais, entre as suas duas madrinhas.

Alguns dos convidados já assistiram a casamentos em Lisboa e ficaram muito mal impressionados. Na sua opinião, os casamentos de gente fina não têm graça nenhuma com o que chamam copo-de-água, onde comem em pé e à mão umas coisas sem sabor nenhum, ficando no fim todos cheios de fome. Além disso, havia mulheres todas pintadas e - vergonha das vergonhas – a fumar como homens. As pessoas que vêm a este casamento não querem nada parecido. Esperam um casamento bem à moda de Mouriscas, com muito comer e alegria.

Cozinheiras especializadas em casamentos foram contratadas. Não vai faltar comida em abundância. Esta gente, quase vegetariana, nestes dois dias de festa vai consumir muita carne. Muito vinho e muita fruta, principalmente melão e melancia, não faltarão.

Acabado o alegre e abundante almoço em casa dos pais do noivo, forma-se um cortejo, que se vai dirigir à casa dos pais da noiva, a dois quilómetros de distância, por caminhos poeirentos. O noivo vai à frente, entre os dois padrinhos. A mãe ficou em casa, cuidando das operações domésticas.

À porta da casa dos pais da noiva, muito senhor do seu papel, está o dono da casa, fazendo um esforço para conter tanta alegria. Viva lá, compadre! diz para o pai do noivo. Um casamento dá origem em Mouriscas a uma complexa rede de compadres e comadres. Os pais e avós de cada um dos noivos vão tornar-se compadres dos pais e avôs do outro e dos padrinhos e madrinhas. Também os casais de padrinhos e madrinhas se tornam compadres e comadres entre si.

Os convidados do noivo entram brevemente em casa dos pais da noiva. Há muita alegria e troca de cumprimentos e comem-se mais uns bolos e engolem-se mais umas bebidas.

Agora forma-se um cortejo conjunto, que se dirige à igreja. À frente vai a noiva, ladeada pelas madrinhas, a seguir o noivo, entre os padrinhos. A noiva veste um vestido branco. Na mão leva um ramo de flores. O cortejo terá de percorrer uns três quilómetros, com algumas subidas acentuadas, até atingir a igreja. Atrás, enchendo o caminho de lado a lado, vão os convidados, com muitas mulheres separadas dos maridos. A caminho da igreja as pessoas falam do que veem e do que lhes interessa mais – aquela horta bem cuidada, as colheitas do ano, etc.

Ao fim de longo caminhar nesta tarde quente, lá chegam à igreja, um pouco atrasados, o que não deixa satisfeito o padre, que tem outros serviços marcados para o resto do dia.

Os noivos ficam lado a lado em frente do altar, ladeados pelas duas madrinhas. O sacristão pede um voluntário. Este e os padrinhos dirigem-se à sacristia. Passados alguns instantes, surgem os três, vestindo opas (capas sem manga) encarnadas. Vão colocar-se do lado direito do altar, os padrinhos segurando castiçais com velas acesas e o terceiro homem, no meio, empunhando um grande crucifixo. Quase todos sentem a solenidade do momento. Imagens de santos, que parecem pessoas vivas a olhar para os assistentes, adensam o ambiente.

Passados uns momentos surge o padre, um homem de aspeto maciço nos seus sessenta anos bem conservados. Enverga uma curta capa branca por cima de vestes negras. O sacristão veste uma opa vermelha. Virado para os assistentes e com voz forte o pároco diz, ao mesmo tempo que se benze: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Começou a cerimónia.

(Continua)

Autor do artigo: João Manuel Maia Alves

publicado por João Manuel Maia Alves às 17:07
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2016

Casamentos à moda antiga

(Artigo publicado inicialmente em 17 de abril de 2009)

Noutros tempos os casamentos em Mouriscas realizavam-se segundo um interessante ritual que se perdeu. Muitos não o conheceram. Outros recordam-no já como algo longínquo. A pensar nuns e noutros foi escrito este artigo.

Antes do mais, o que é que se pode dizer, em termos gerais, dos casamentos à moda antiga? Nos antigos casamentos havia duas festas, uma em casa dos pais do noivo, outra em casa dos pais da noiva. Cada uma dessas festas estendia-se por dois dias, com um total de dois almoços e dois jantares. A noiva tinha duas madrinhas e o noivo dois padrinhos. Na véspera do casamento os pais da noiva enviavam às madrinhas da filha tabuleiros com coisas boas para o paladar; as madrinhas retribuíam com prendas para os noivos, transportadas nos mesmos tabuleiros. Por sua vez, os pais do noivo mandavam acepipes aos padrinhos do filho, em tabuleiros que voltavam com prendas para os noivos. A amigos que não se tinha convidado mandava-se um bolo. Para a cerimónia religiosa os convidados dos pais do noivo dirigiam-se à casa dos da noiva. Depois formava-se um cortejo com todos os convidados, o qual se dirigia à igreja. Uns dias depois do casamento realizava-se um jantar para a família mais chegada. Chamava-se noivado. Tempos depois era o dia do “pagamento do bolo”. Uma pessoa que tinha recebido um bolo visitava os noivos na sua casa, desejava-lhes todas as felicidades deste mundo, via os aposentos e deixava uma prenda.

Gostariam certamente de saber ou recordar com mais pormenores como eram os casamentos à moda antiga, bem diferentes dos de agora. Então, vamos desenvolver o assunto um pouco; talvez encontremos coisas interessantes. Infelizmente, por ignorância ou falhas de memória ou simplesmente por falta de talento narrativo do autor, alguns aspetos interessantes não serão mencionados ou não receberão a atenção devida. Vamos imaginar como poderia ser um casamento em Mouriscas há umas décadas.

Hoje é um calmoso dia de agosto. Em casa dos pais dos noivos vai uma grande azáfama, ou estrefuga para usar um termo mourisquense, por causa do casamento, que se realizará amanhã. As casas foram caiadas. Os pátios estão cobertos de junça. Já se fizeram muitos bolos, grandes e pequenos, muito arroz-doce e outras coisas agradáveis ao paladar.

Alguns animais foram sacrificados para celebrar o feliz acontecimento. Quando se lhe casa um filho, qualquer família, pobre ou rica, quer realizar um casamento que não a deixe envergonhada perante a comunidade. Não pode faltar boa comida para um bom número de convidados.

A noiva será acompanhada à igreja por duas madrinhas. Uma é a do batismo. A outra foi convidada para ser madrinha do casamento. Pode acontecer que esta e a madrinha se tratem por tu. Nesse caso, a madrinha continuará a tratar a noiva por tu. Quanto à noiva, deixará de tratar a madrinha por tu. O marido desta madrinha passará a ser tratado por padrinho pelos noivos.

Também o noivo terá no casamento dois padrinhos – o do batismo e um outro convidado para o efeito. A mulher deste será tratada por madrinha pelos noivos. O noivo deixará de tratar por tu o novo padrinho se o fazia antes.

Ao fim da tarde desta véspera do casamento, saem da casa dos pais dos noivos umas mulheres com uns longos tabuleiros, chamados fretes, à cabeça. Dirigem-se às casas dos padrinhos e madrinhas. Cobertos de panos brancos, os tabuleiros levam bolos e outros doces, peças de carne e outras coisas agradáveis ao paladar. Os tabuleiros são a seguir transportados para a casa dos noivos com prendas dos padrinhos.

Muita gente foi convidada – parentes chegados dos pais e pessoas muito amigas. Há amigos que não foram convidados, devido a limitação do número de pessoas a convidar ou porque é menor o grau de proximidade. A esses foi enviado um bolo.

O casamento realiza-se amanhã às quatro. É o que foi combinado com o pároco, que pediu pontualidade.

No próximo artigo veremos como vai decorrer este casório

Autor do artigo: João Manuel Maia Alves

 

publicado por João Manuel Maia Alves às 00:29
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