Domingo, 21 de Setembro de 2008

Toa? ... Nã toa!

Este interessante artigo de Josué Valente é dedicado à memória de Chico Valente, seu avô. Ele faz-nos recordar figuras típicas de Mouriscas que conhecemos ou que de ouvimos falar.

TOA?... NÃ TOA!

Francisco Lopes Valente, nasceu no Casal do Carril, entre 1870 e 1875. Era filho de Manoel Lopes Valente e Antónia Marques. Do casamento com Florinda Marques Batista nasceram oito filhos: Maria, Manuel, António, Joaquim, Severino, Isabel, Abílio e Emídio.
À época, considerado um médio agricultor, acumulando a qualidade de proprietário e rendeiro, chegou a ser um dos maiores produtores de figos do norte do Ribatejo.
Possuía um cavalito, um automóvel de luxo naquele tempo e também sinónimo de algum poder, com que percorria as propriedades e se deslocava nas Mouriscas e arredores.
Consta que era um homem muito interessante, vaidoso, elegante, bem falante e amigo do seu amigo.
Era também conhecido pela sua veia boémia, com alguma fama de mulherengo, bom guitarrista e cantador.
Por estes motivos era frequentemente convidado para a abertura das adegas de todo o concelho de Abrantes e para festas de sociedade, onde aparecia montado no seu cavalito, de guitarra a tiracolo.
Também era conhecido por, ao entrar nas adegas, percutir fortemente os tonéis com o punho fechado. Se estes estavam vazios dizia “este toa... nã toa!”
Se, pelo contrário, o som era cavo, com os olhos gaiatos a sorrir e adivinhando o néctar dos deuses nele contido, exclamava “este nã toa!...Toa.!”
Seguia-se o petisco ou repasto. Depois, fazia-se silêncio, e o Chico Valente exibia a sua linda voz de fadista acompanhada pelos trinados firmes da sua guitarra!
Famosas eram as décimas, obrigadas a mote, que também cantava!
Acabada a festa, o cavalo, bem ensinado, trazia-o de volta para casa, para os braços de Florinda, que, amiúde, o esperava chorosa e desgostosa, rodeada da uma ninhada de filhos pequeninos.
Às vezes também regressava com despesas que o orçamento familiar não comportava. Por isso a condição social esmoreceu e alguns dos bens esfumaram-se.
Morreu novo, muito novo, como nova também morreu Florinda, doente e desgostosa!
Dos oito filhos sobreviveram-lhes seis, alguns de tenra idade.Todos se criaram.
Que conste, nenhum tocou guitarra ou cantou o fado...!
Foi, estou certo disso, um bom homem que tenho pena de não ter conhecido e de, já velhinho, não me contado histórias de aventuras sentado nos seus joelhos!
Todavia, em miúdo, quando explorava o sótão da casa da minha tia Isabel, nas Casas Novas, descobri uma caixa de guitarra já sem cordas.
Longe de saber a sua origem e quem dela tinha extraído lindos sons de prazer e dor, a brincar, destruí-a.
Agora tenho pena! Muita pena!.
Era do Chico Valente, o meu avô paterno!
Ele já me desculpou.
Era um homem bom.
Toa?...nã toa!

Josué Carlos Marques Valente

Oeiras, 2008/08/12
publicado por João Manuel Maia Alves às 18:32
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Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008

Falar mourisquense (17)

ORDEM – Autorização. (Hoje não tens ordem de sair daqui. Quem é que te ordem de usares o meu relógio?)

ATAR UM CALDEIRO AO RABO – Receber com hostilidade, afugentar. Esta expressão provém do cruel costume de se atar um caldeiro à cauda dum cão para o afugentar de modo a não voltar a um lugar. (Que é que ele cá veio fazer? Deviam era ter-lhe atado um caldeiro ao rabo.)

APRECIAR – Observar com curiosidade. (Quando há uma briga junta-se sempre muita gente para apreciar. No casamento ela deve ter apreciado bem tudo na casa dos noivos.)

ESTAR DE VOLTA DE – Estar ocupado com. (Ele tem estado toda a manhã de volta do motor, mas ainda não conseguiu pô-lo a tirar água

FALAR PARA – Namorar. (Ele fala para a prima. Os pais não gostam do namoro, porque queriam que o filho casasse com uma mulher rica.)

EM ACÇÃO DE – Pronto para (matar para alimentação, semear, colher, etc.) (O porco está quase em acção de matar. A azeitona já está em acção de apanhar.)

JÁ NÃO OUVIR CANTAR O CUCO – Viver pouco mais tempo. Não durar até ao fim do inverno. (O canto do cuco, repetitivo e agudo – cucu, cucu, .... - ouve-se no fim do inverno, começo da primavera. Há um provérbio que diz “Dia de S. José e o cuco sem vir, ou ele é morto ou está para vir.”) (Ele está muito doente. Já não deve ouvir cantar o cuco.)

ATIRAR FOGO – Gabar-se. (Tem-se fartado de atirar fogo com a nomeação do filho para um cargo importante.)

GABAR – Achar que se deveria fazer. (O que eu gabava era obrigá-lo a trabalhar para pagar o que roubou.)

VIANDA – Comida dos porcos. (Este porco come um tigelão de vianda enquanto o diabo esfrega um olho.)

UNTAR AS UNHAS – Gratificar para obter favor. (Viu-se atrapalhado para conseguir os documentos. Só quando untou as unhas a um funcionário é que o pedido começou a andar.)

AI EU – Usa-se esta expressão para indicar algum tipo de desconforto. Às vezes indica surpresa. (Ai eu, ai eu. Dei um jeito à mão e dói-me um pouco. Ele comprou um carro de 50.000 contos. Ai eu!)

TACHO DE ARAME – Tacho de interior amarelo, em geral de enormes dimensões e que hoje só serve para adorno. Arame é o nome do material, mas não é arame, é latão.

NINGUÉM CUSPA PARA O AR – Ninguém diga que não lhe pode acontecer o mesmo, ninguém diga desta água não beberei. (Hoje é uma desgraça ter um filho drogado, mas ninguém cuspa para o ar.)

ACORDAR MOSCAS QUE DORMEM – Trazer à conversa assuntos que não devem ser recordados ou discutidos. (Não lhe fales das zangas que ele teve com a família. Não acordes moscas que dormem.)

TALOCA – Buraco. (Há pássaros que fazem o ninho em talocas de árvores. Este comer mete ele na taloca dum dente.)
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:14
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Citação no Ciberdúvidas

Ciberdúvidas da Língua Portuguesa é o nome duma utilíssima página da Internet. O seu endereço é http://ciberduvidas.sapo.pt/

Em Março de 2006 saiu neste blogue o artigo “Falar mourisquense (4)”, que mereceu a honra de ser citado no Ciberdúvidas. Ora leiam.

[Pergunta | Resposta]

A palavra corrécio

[Pergunta] A palavra que gostaria de ver esclarecida, se possível, "corréccios", aparece no romance de Mário de Carvalho entitulado Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina. Procurei em vários dicionários, inclusive no da Academia, e não encontro o vocábulo. Imagino que o seu sentido passe por «indivíduos em correcção (são soldados apelidados por um oficial superior de corréccios)» ou «alvos de acções correctivas, que estiveram numa casa de correcção ou que estão em correcção».

Seria possível confirmar?

Obrigado.

Horácio Silva :: Professor :: Vila Nova de Santo André, Portugal

[Resposta] Corrécio está atestado no Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, de Guilherme Augusto Simões, com o significado de «militar que se porta mal, que tem muitos castigos, indisciplinado». Numa página da Internet, intitulada Mouriscas - Terras e Gentes e dedicada ao falar de Mouriscas (Abrantes, Portugal), também se regista corrécio, na acepção de «vadio», acompanhado das seguintes atestações: «Quando ele era novo, era um corrécio; ia a todos os bailes e festas das terras à volta.» Repare-se que a palavra não dobra a letra c.

Sandra Duarte Tavares :: 05/06/2008
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:13
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