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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Formas de tratamento (2)

31.08.05 | João Manuel Maia Alves
Vimos no artigo anterior que em Mouriscas, as palavras “tio” e “tia” se usavam informalmente – e usam ainda – com um significado semelhante ao de “senhor” e “senhora”.

Quando os tios propriamente ditos mereciam um respeito especial, tal podia reflectir-se no modo como os sobrinhos os tratatavam ou se referiam a eles – “sim, meu tio”, “bom dia, meu tio”, “o meu tio padre”, “o meu tio doutor”, etc.

Pais, avós, bisavós, trisavós, tios – verdadeiros ou não – podiam ser tratados por “vomecê” como, por exemplo, na frase “faço como vomecê quiser”.

“Vomecê” era – e é ainda - uma palavra muito usada em Mouriscas. No Brasil usam uma palavra sememelhante – “vosmecê”. “Vomecê” e “vosmecê” são contracções de “vossemecê”, que é, por sua vez, uma contracção de “vossa mercê”.

Como as palavras “tio” e “tia”, “vomecê” tinha que ser usada atendendo às circunstâncias. Alguém que tratava outra habitualmente por “vomecê”, se calhar tinha que mudar para “senhor” ao se lhe dirigir em certos meios.

Quando se falava com alguém com uma melhor posição social, não era comum o tratamento por “vomecê”. Não se tratava por “vomecê” o farmacêutico ou um professor. Dizia-se “Sr. Navarro” para o farmacêutico ou “senhor professor” para o docente, mas não se pode estabelecer uma regra fixa. Dependia das circunstâncias e também um pouco do grau de instrução da pessoa – algumas eram descuidadas com as formas de tratamento, mas, devido às suas limitações, eram mais facilmente perdoadas de qualquer incorrecção.

Não ficaria bem a certas pessoas, com um maior grau de instrução ou dum meio social superior, usar a palavra “vomecê”. Um médico não trataria outra pessoa por “vomecê”. “Vossemecê” ou “o senhor” ou “a senhora” a seriam mais adequados, mas talvez mesmo o médico, numa festa de família, num meio muito informal, pudesse sem admiração de ninguém tratar outra pessoa por “vomecê”.

“Dona” e “Senhora Dona” era o tratamento atribuído às professoras primárias e, em geral, às senhoras finas, como as mulheres de homens com curso superior ou senhoras de modo mais refinado no vestir e no falar.

Às vezes uma pessoa passava a ser tratada mais respeitosamente por um filho seu ter acabado um curso superior. Uma mãe podia, por exemplo, passar de “Tia Elisa” para “Senhora Elisa” ou “Dona Elisa”. O pai podia passar a ser tratado por “senhor”.

(Continua)

Autor do artigo: João Manuel Maia Alves, com a colaboração de Carlos Lopes Bento