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MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

MOURISCAS - TERRAS E GENTES

Criado em 2004 para falar de Mouriscas e das suas gentes. Muitos artigos foram transferidos doutro espaço. Podem ter desaparecido parágrafos ou espaços entre palavras, mas, em geral, os conteúdos serão legíveis e compreensíveis.

Relatos de futebol

14.06.05 | João Manuel Maia Alves

Já perto do ano de 1960, chegou-nos o rádio de transístores, a pilhas ou a corrente, uma invenção que haveria de revolucionar o nosso viver. Por essa altura chegou também a Mouriscas o fornecimento de luz elétrica e a televisão, ambas igualmente de grandes consequências.

Até aí os rádios que havia em Mouriscas eram uns grandes caixotes que funcionavam a baterias, que se tinham de carregar no Tiago Faria, ou Farias, como era mais conhecido. Os rádios eram caros. Não admira que, antes da chegada dos rádios de transístores, pequenos, baratos e podendo funcionar a pilhas, houvesse pouca gente em Mouriscas que tivesse telefonia, um termo hoje quase esquecido. Bom número dos rádios que havia estavam em sítios públicos, como cafés ou tabernas.

Nos anos 40 e 50 do século XX havia em Mouriscas muito miúdo e graúdo que gostava de futebol e que ao domingo ansiava pela hora, quase sagrada, em que os rádios davam início aos relatos de futebol. A grande maioria só o podia fazer nalguns dos estabelecimentos que dispunham da “bendita” telefonia.

Era quase em estado de êxtase que muitos adultos e adolescentes ouviam no rádio, pouco antes das três ou das quatro da tarde, consoante a época do ano, palavras que poderiam ser mais ou menos as do parágrafo seguinte.

Estúdios em Lisboa da Emissora Nacional a transmitir com Lisboa 1, Porto 1, Coimbra, Faro, Guarda e ondas curtas em quarenta e sete metros. Vamos transmitir do Estádio da Tapadinha, em Lisboa, o relato integral e direto do desafio de futebol entre o Atlético Clube de Portugal e o Futebol Clube do Porto, a contar para a décima jornada da segunda volta da primeira divisão do campeonato de futebol da presente época de 1952-53. Atenção Estádio da Tapadinha, atenção Artur Agostinho. Nesta fotografia vê-se Artur Agostinho fazendo um relato. Foi dos mais populares relatores de futebol; aliás foi popular e competente em muitos papéis diferentes.

 

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Seguiam-se quarenta e cinco minutos em que se bebiam as palavras do repórter narrando as peripécias do jogo, por vezes com expressões exageradas como “atirou a bola para as nuvens”. Não havia informações de outros jogos, nem comentadores complementando o trabalho do relator. De modo mais ou menos contido, os ouvintes seguiam interessadamente a descrição do jogo. Seguia-se um intervalo com música popular portuguesa. Era o tempo de Max, de Júlia Barroso e tantas outras magníficas e hoje quase esquecidas vozes. Depois lá vinha a segunda parte, com mais sofrimento para uns e alegria para outros.

Recordemos os donos de alguns dos estabelecimentos onde em tempos passados se podiam ouvir em Mouriscas os relatos de futebol: Miguel “da Joana” nas Ferrarias, Afonso Filipe no Carril, Jorge Baptista de Matos (Jorge do Café) na Estalagem, Fernando Sebastião (Ceifão) na Estalagem, António Pires Silvestre (“Tonho Século”) nos Engarnais Cimeiros, Manuel Sebastião (Ceifão) nos Engarnais Cimeiros, que foi para Angola e vendeu o estabelecimento a João Bolas, e Ramiro Esparteiro, a filha, Carina Esparteiro, e o genro, Alexandre Dinis, na Bagaceira.

 

Nesta foto vê-se Carina Esparteiro e Alexandre Dinis. Na sua loja muito miúdo e graúdo comparecia ao domingo para o ritual de seguir pela rádio as peripécias de jogos de futebol.

 

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Estabelecimentos com telefonia eram antigamente chão quase sagrado onde se podia mergulhar na magia dos relatos de futebol. Merecem ser recordados -– eles e os seus donos. Também merecem um grande agradecimento pelos momentos mágicos que proporcionaram!

Artigo escrito por João Manuel Maia Alves