Sexta-feira, 6 de Maio de 2016

Casamentos à moda antiga

(Artigo publicado inicialmente em 17 de abril de 2009)

Noutros tempos os casamentos em Mouriscas realizavam-se segundo um interessante ritual que se perdeu. Muitos não o conheceram. Outros recordam-no já como algo longínquo. A pensar nuns e noutros foi escrito este artigo.

Antes do mais, o que é que se pode dizer, em termos gerais, dos casamentos à moda antiga? Nos antigos casamentos havia duas festas, uma em casa dos pais do noivo, outra em casa dos pais da noiva. Cada uma dessas festas estendia-se por dois dias, com um total de dois almoços e dois jantares. A noiva tinha duas madrinhas e o noivo dois padrinhos. Na véspera do casamento os pais da noiva enviavam às madrinhas da filha tabuleiros com coisas boas para o paladar; as madrinhas retribuíam com prendas para os noivos, transportadas nos mesmos tabuleiros. Por sua vez, os pais do noivo mandavam acepipes aos padrinhos do filho, em tabuleiros que voltavam com prendas para os noivos. A amigos que não se tinha convidado mandava-se um bolo. Para a cerimónia religiosa os convidados dos pais do noivo dirigiam-se à casa dos da noiva. Depois formava-se um cortejo com todos os convidados, o qual se dirigia à igreja. Uns dias depois do casamento realizava-se um jantar para a família mais chegada. Chamava-se noivado. Tempos depois era o dia do “pagamento do bolo”. Uma pessoa que tinha recebido um bolo visitava os noivos na sua casa, desejava-lhes todas as felicidades deste mundo, via os aposentos e deixava uma prenda.

Gostariam certamente de saber ou recordar com mais pormenores como eram os casamentos à moda antiga, bem diferentes dos de agora. Então, vamos desenvolver o assunto um pouco; talvez encontremos coisas interessantes. Infelizmente, por ignorância ou falhas de memória ou simplesmente por falta de talento narrativo do autor, alguns aspetos interessantes não serão mencionados ou não receberão a atenção devida. Vamos imaginar como poderia ser um casamento em Mouriscas há umas décadas.

Hoje é um calmoso dia de agosto. Em casa dos pais dos noivos vai uma grande azáfama, ou estrefuga para usar um termo mourisquense, por causa do casamento, que se realizará amanhã. As casas foram caiadas. Os pátios estão cobertos de junça. Já se fizeram muitos bolos, grandes e pequenos, muito arroz-doce e outras coisas agradáveis ao paladar.

Alguns animais foram sacrificados para celebrar o feliz acontecimento. Quando se lhe casa um filho, qualquer família, pobre ou rica, quer realizar um casamento que não a deixe envergonhada perante a comunidade. Não pode faltar boa comida para um bom número de convidados.

A noiva será acompanhada à igreja por duas madrinhas. Uma é a do batismo. A outra foi convidada para ser madrinha do casamento. Pode acontecer que esta e a madrinha se tratem por tu. Nesse caso, a madrinha continuará a tratar a noiva por tu. Quanto à noiva, deixará de tratar a madrinha por tu. O marido desta madrinha passará a ser tratado por padrinho pelos noivos.

Também o noivo terá no casamento dois padrinhos – o do batismo e um outro convidado para o efeito. A mulher deste será tratada por madrinha pelos noivos. O noivo deixará de tratar por tu o novo padrinho se o fazia antes.

Ao fim da tarde desta véspera do casamento, saem da casa dos pais dos noivos umas mulheres com uns longos tabuleiros, chamados fretes, à cabeça. Dirigem-se às casas dos padrinhos e madrinhas. Cobertos de panos brancos, os tabuleiros levam bolos e outros doces, peças de carne e outras coisas agradáveis ao paladar. Os tabuleiros são a seguir transportados para a casa dos noivos com prendas dos padrinhos.

Muita gente foi convidada – parentes chegados dos pais e pessoas muito amigas. Há amigos que não foram convidados, devido a limitação do número de pessoas a convidar ou porque é menor o grau de proximidade. A esses foi enviado um bolo.

O casamento realiza-se amanhã às quatro. É o que foi combinado com o pároco, que pediu pontualidade.

No próximo artigo veremos como vai decorrer este casório

Autor do artigo: João Manuel Maia Alves

 

publicado por João Manuel Maia Alves às 00:29
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


.posts recentes

. Casamentos à moda antiga ...

. Casamentos à moda antiga ...

. Casamentos à moda antiga

. Alcino Serras - atleta d...

. Paulo Lourenço – trabalho...

. Paulo Lourenço – trabalho...

. Major-general médico Carl...

. Curioso costume

. Notícia de 1901

. Chuva de estrelas nas fes...

.arquivos

. Junho 2016

. Maio 2016

. Maio 2014

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds