Sábado, 4 de Junho de 2016

Casamentos à moda antiga (3)

Publicado inicialmente em 19 de junho de 2009

O último artigo acabou na altura em que se iniciou o casamento na velha igreja de Mouriscas. Vamos ver, em imaginação, a continuação da história. Tudo decorre relativamente depressa até o padre declarar os noivos casados. As alianças foram compradas ao ourives Mário Lopes da Rocha, homem bem-posto e bem-falante que veio do concelho de Cantanhede e em Mouriscas viverá até ao fim da vida. Como é habitual em Mouriscas, o noivo não vai usar a aliança, exceto talvez em dias asselanados, isto é dias festivos. Os rudes trabalhos do campo não permitem o uso de anéis.

Agora o padre vai dirigir-se aos noivos. Usando uma linguagem enérgica bem condizente com a sua potente voz, exorta os noivos a assumirem uma conduta cristã na sua vida e na educação dos filhos. Noivos e convidados recebem uma lição de catolicismo pois o padre procede a um resumo bastante completo da doutrina, pelo que esta parte da cerimónia foi a mais longa. A certa altura o senhor vigário - é este o tratamento dado em Mouriscas nestes tempos ao pároco - diz que todas as escrituras são seladas e assinadas e o mesmo vai acontecer a esta. Então retira das mão do homem que está entre os padrinhos à direita do altar o crucifixo e dá-o a beijar aos noivos, às madrinhas e aos padrinhos, após o que o devolve ao homem encarregue de o segurar. Esta assinatura não dispensa outras na sacristia, enquanto os convidados abandonam a igreja e se abrigam à sombra de freixos seculares. Depois das assinaturas na sacristia e do pagamento ao padre e ao sacristão, lá vêm os noivos descendo a igreja, de braço dado, gesto não muito vulgar nesta época que ainda não chegou a meio do século XX.

É no meio da porta da igreja que os noivos recebem os bons desejos de familiares e convidados. Entretanto, o sino repica festivamente. Alguns circunstantes dizem que o sacristão recebeu uma boa gorjeta para o sino tocar tanto tempo. Só aqui a muitos anos, haverá uma saída da igreja para a estrada em frente. Noivos e acompanhantes circundam pela esquerda a igreja e o salão paroquial e vão colocar-se nas escadas que dão para um largo onde, ao domingo de manhã, umas pessoas convivem e outras vendem os seus produtos. Na foto vemos a torre da igreja, as janelas e portas do salão, que deixará de existir quando se construir uma nova igreja, e as escadas, que já devem ter visto muita história. 

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 Foi por aqui que em 3 de fevereiro de 1907 o futuro presidente António José de Almeida fez um comício republicano e é bem possível que um assistente, em face de tanta promessa, tenha proferido a genial frase o meu burro não ronca pela albarda, mas pela ração, a qual durante muito tempo com frequência se ouvia em Mouriscas Imaginem então os noivos ao fundo da escada, ladeados por padrinhos e madrinhas, pais, outros familiares e miúdos. Atrás ficam os convidados. Agora um fotógrafo da família dos Latoeiros, do Carril, vai tirar uma foto com uma máquina fotográfica, uma grande caixa sobre um tripé. Da máquina cai um pano preto onde o fotógrafo enfia a cabeça e espreita para dentro a fim de tirar a melhor foto - é a tecnologia destes tempos.

Agora lá se põe em movimento o cortejo, com os noivos à frente, de braço dado. Dirige-se à casa dos noivos e tem pela frente mais de três quilómetros a pé, o que não é nada para pessoas de Mouriscas. Felizmente levantou-se um vento fresco que faz andar moinhos que se veem por perto e ao longe e muito embelezam a paisagem.

Utilidade foi a ideia que presidiu ao arranjo da casa posta que os noivos receberam dos pais. Luxo ou muito conforto estão ausentes. Daqui a poucas décadas pessoas com bem menos posses serão muito mais exigentes, mas para a mentalidade do tempo esta é uma casa que não envergonha ninguém; aliás, seria censurado ter-se gastado dinheiro a mais ou a menos do que se considera acertado.

Claro está que a casa não deixa de ser passada a pente fino por alguns convidados, principalmente por algumas convidadas. Falando à moda de Mouriscas, há gente que aprecia tudo - aprecia e vai contar. Ouvem-se observações estranhas aos ouvidos de gente fora do meio, como este é o quarto do noivo, olha o quarto da noiva ou aqui é a casa de fora. Daqui a alguns anos alguns equipamentos deste novo lar muita gente nem saberá que existiram, como a grade, feita de tábuas estreitas e cruzadas, com ganchos para pendurar objetos como cafeteiras e pequenas panelas e a cantareira, móvel de madeira, colocada sobre um pial (poial) para os cântaros de água e alguns utensílios da cozinha.

É quase noite. Alguns convidados que não moram muito longe - pode ser a um quilómetro, já que em Mouriscas, o perto pode ser um bocado longe - alguns convidados, dizíamos nós, vão a casa e fecham as galinhas e recolhem cabras e ovelhas. Os outros dirigem-se a casa dos pais da noiva ou do noivo, conforme quem os convidou, e por ali ficam na conversa, esperando pelo jantar.

E os noivos para onde vão, agora que estão casados à face das leis civis e religiosas? Cada um vai jantar em casa dos seus pais. O jantar, como o almoço, é uma refeição alegre e abundante. Em 1951 chegará o Padre João, que só fará casamentos de manhã. Uma das razões invocadas para acabarem os casamentos à tarde foi alguns convidados apresentarem-se na igreja no estado em que alguns participam deste jantar, quer dizer alegres por causa do vinho ingerido.

No fim da refeição é servido chá de doce-lima, que noutras terras se chama lúcia-lima. Ajuda à digestão e também serve de pretexto para beber um pouco de aguardente, em separado ou acrescentada ao chá. O vinho do Porto não faltará nos casamentos daqui a uns anos. De momento, não é muito apreciado e não veio a este casamento. O abafado, que é como se designa em Mouriscas a jeropiga, esse sim está presente e ajuda a engolir alguns bolos ou acompanha o chá.

O jantar acabou para alguns e está perto do fim para outros. O noivo levanta-se e dirige-se à casa dos pais da noiva, acompanhado dos dois padrinhos. Está uma noite muito escura, mas os mourisquenses desenvolveram a capacidade de em noites sem luz virarem nos sítios certos e com segurança colocarem os pés no chão. Chegam à casa dos pais da noiva numa altura em que o pessoal regaladamente bebe o seu chá de doce-lima, com bolos, abafado e aguardente de figo, produto que, com abundância, se produz em Mouriscas. É muito macia esta aguardente, dizem alguns convidados. O abafado também recebe elogios. Noivo e padrinhos sentam-se e bebem e comem o que lhes apetece. A seguir os recém-casados são conduzidos à sua nova casa pelos dois padrinhos do noivo, após o que estes voltam a casa dos pais do noivo para recolher a família e voltarem às suas residências, distantes vários quilómetros.

No segundo dia do casamento a festa continua com alegria e muita comida. Os noivos almoçam e jantam em casas diferentes. Sucedeu que almoçaram em casa dos pais dele. Um pouco depois surgiu o homem da máquina fotográfica. Tirou uma foto que daqui a uns bons anos, já noutro século, as pessoas guardarão numa coisa ainda por inventar que se chamará computador. Daí a bocado os noivos partirão para casa dos pais dela, que, relembramos, não fica longe da sua.

Hoje é sábado. O casamento foi há quinze dias. Logo a seguir juntaram-se aos recém-casados um cão e um gato, criaturas indispensáveis num lar mourisquense. Os homens em Mouriscas em geral fazem a barba uma vez por semana, a maioria ao sábado. Familiares dos noivos não deixaram para muito tarde a visita semanal ao barbeiro, porque à noite participam num jantar em casa dos noivos. Chama-se jantar de noivado. Estão presentes os pais, uma avó ainda viva, padrinhos e madrinhas e tios e seus filhos.

Passaram algumas semanas. Hoje é o dia do pagamento do bolo. Amigos que receberam um bolo, visitam os noivos na sua casa, que observam compartimento a compartimento, e deixam uma prenda. Os visitantes desejam muitas felicidades aos noivos e também muita saúde. Os noivos agradecem e dizem repetidamente a saúde é o principal.

São coisas que já cá encontrámos e frases parecidas ouvem-se nestas alturas. Justificam e exprimem a esperança de que se mantenham costumes como casamentos com este ritual. As coisas parecem muito estáveis. Claro que temos comboios, automóveis, telefones e outras modernices mas não se espera que alterem profundamente maneiras de viver muito enraizadas. Puro engano. Não passarão muitos anos sem tudo isto se alterar. Pessoas vivas agora vão observar mudanças que farão desaparecer muitos usos e tradições e o aparecimento de coisas novas como os casamentos à moda da cidade. Nesta altura nem sonham que isso possa acontecer. É melhor assim para não perderem a alegria que lhes vai na alma.

 

Autor deste artigo: João Manuel Maia Alves

publicado por João Manuel Maia Alves às 21:44
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