Segunda-feira, 22 de Novembro de 2004

Zé Valente

Há décadas que Mouriscas é servida por uma estação de correios e dispõe de distribuição de correspondência. Desde há muito os mourisquenses têm por garantido que a correspondência recolhida na estação de correios é transportada até às estações de destino, seja qual for a estação do ano, chova ou faça sol. Também se habituaram à ideia de que o correio que lhes é endereçado chegue aos correios de Mouriscas, que procederão à sua distribuição.

Durante muitos anos a correspondência recolhida pela estação de Mouriscas era entregue num comboio que passava por volta das nove horas da noite. Davam-lhe o nome de comboio-correio. Nele viajavam funcionários dos correios numa carruagem especial. Durante a viagem esses funcionários iam separando as cartas e encomendas consoante os destinos. Esse importante comboio também fazia transporte de passageiros.

O correio destinado à estação de Mouriscas chegava igualmente num comboio, a que se chamava o comboio da madrugada. Passava em Mouriscas por volta das três da manhã.

Como é que se fazia o transporte da correspondência entre a estação de caminho de ferro e a dos correios, separadas de três quilómetros? Durante muitos anos encarregou-se do transporte José Cordeiro Valente, nascido nos Charoeiros, na parte sul da freguesia, em 1901, filho de António Cordeiro Valente e Eugénia de Matos. Era conhecido por Zé Valente e assim lhe chamaremos.

Para fazer entrega do correio Zé Valente tinha de sair da sua casa no Surdo por volta das oito horas, ao fim da tarde ou já de noite consoante a época do ano, e percorrer, montado no seu paciente animal de raça muar, um pouco mais de dois quilómetros até chegar à estação dos correios. Aqui recebia um saco com corrrespondência. Agora tinha de fazer mais três quilómetros até à estação do comboio.

Entregue o saco da correspondência no comboio-correio, por volta das nove horas, Zé Valente entregava-se ao descanso, ao princípio nos bancos da estação, mais tarde numa casa nas imediações, a qual também tinha instalação para o macho.

Por volta das três passava o comboio da madrugada. Zé Valente lá estava para recolher um saco de correio. Recebia também peixe fresco, vindo de Matosinhos, para vender mais tarde. Agora era mais uma viagem, uns dois quilómetros, em grande parte do trajecto com uma subida acentuada, até ao Surdo, de vez em quando no mais completo escuro e durante grande parte do ano com muito frio, muita chuva e caminhos lamacentos como é difícil hoje imaginar, caminhos “mal andamosos” para usar uma curiosa expressão mourisquense.

Chegado a sua casa, Zé Valente descansava um pouco, não muito que o correio tinha de ser entregue a tempo de ser distribuído a tempo e horas. Saía de casa para entregar o correio e vender o peixe que tinha recebido na estação dos comboios. Para a venda do peixe usava uma carroça, puxada pelo seu fiel animal.

Acabada a venda do peixe, voltava a casa, almoçava, descansava um pouco e daí a poucas horas lá ia buscar mais um saco de correspondência para entregar no comboio-correio.

Foi assim, durante muitos anos, a vida de Zé Valente para que tivéssemos peixe fresco e cartas entregues a tempo e horas. Zé Valente foi um mourisquense que muitos de nós ainda conhecemos com o seu aspecto entroncado e ar bem-disposto. É um símbolo de tempos já passados. Desempenhou, com humildade, sem armar em herói, duas funções importantes – a venda de peixe e o transporte do correio. Para isso, sujeitou-se a sacrifícios que, talvez, não conseguíssemos hoje suportar. Merece ser lembrado com reconhecimento, reconhecimento este que, se calhar, não recebeu em vida.


Este artigo teve a colaboração, que se agradece, de Rosália Marques Valente, do Surdo, filha de José Cordeiro Valente.
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:13
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