Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Manuel Serrano - mestre sapateiro

 

Hoje compramos calçado já pronto a usar. Noutros tempos era feito por encomenda pelos sapateiros. Como toda a gente precisa de usar botas ou sapatos, os sapateiros eram pessoas importante em qualquer comunidade. Em geral, tinham um estabelecimento e eram muito conhecidos.

Manuel Serrano foi um dos sapateiros de Mouriscas. Dele fala este artigo e também de aspetos ligados à sua arte.

Manuel Serrano nasceu em 8 de julho de 1921, no lugar de Outeiro dos Penedos, junto ao Surdo. É filho de Aurélio Serrano, conhecido por Aurélio Palhinhas, e Capitolina Lopes. Manuel Serrano é conhecido por Manuel do Aurélio.

Quando era pequeno, desejava ser pedreiro. O pai achava que ser sapateiro era uma boa ideia. O ofício de sapateiro já tinha praticantes na família. O avô materno, Manuel Serras, que, como Manuel Serrano, vivia no Outeiro dos Penedos, era sapateiro, embora sem estabelecimento e sem se dedicar totalmente ao ofício. Também o seu tio paterno e futuro sogro, Eustáquio Serrano (Eustáquio Palhinhas), era sapateiro estabelecido no Casal Pita. Foi realmente a arte de sapateiro que Manuel Serrano abraçou. Começou a sua aprendizagem aos 14 anos com o tio Eustáquio Serrano (Palhinhas), no Casal Pita, a qual continuou, ao fim de um ano, nos Engarnais Cimeiros com Joaquim Alves, conhecido por Joaquim Venâncio. Ao fim de dois anos tinha completado a sua aprendizagem. Tinha então dezasseis anos.

Só pelos vinte e três ou vinte e quatro anos, quando casou com a sua prima Zulmira Cadete, que foi conhecida tecedeira, Manuel Serrano se estabeleceu como sapateiro. Depois da conclusão da aprendizagem como sapateiro e até se estabelecer trabalhou nas oficinas doutros sapateiros, em Mouriscas e fora, e entregou-se a trabalhos do campo, como ceifas e apanha da azeitona. Era dura a vida há umas décadas.

A sua primeira oficina foi nos Engarnais Cimeiros, um pouco no interior do lugar. A certa altura decide tentar a sua sorte em Angola, onde esteve exercendo a arte de sapateiro, durante um ano aproximadamente. Voltou e, passando um certo tempo, mudou a sua oficina e a sua residência para uma casa à beira da estrada normalmente chamada dos Engarnais, num lugar que chamam do Outeiro, um pouco antes dos Engarnais Cimeiros. Aqui manteve o seu estabelecimento enquanto exerceu a arte.

Da sua sapataria podemos ver a seguir um anúncio publicado com o programa das festas de verão de 1964. 

 

 

Quando Manuel Serrano se estabeleceu, teve de criar freguesia num meio onde já havia outros oficiais do mesmo ofício. Só nos Engarnais Cimeiros havia dois. Foi criando freguesia a pouco a pouco, numa profissão em que era essencial criar e manter uma boa imagem. Uma boa reputação cria-se devagar, mas pode desfazer-se num instante. Um cliente aborrecido podia fazer correr informações desfavoráveis e a procura de serviços podia diminuir. Às vezes, o aborrecimento era devido a circunstâncias que não dependiam do sapateiro; por exemplo, o material usado podia sair de má qualidade. Tudo isto para dizer que os sapateiros tinham de criar clientela e mantê-la num meio em que havia muitos oficiais do mesmo ofício.

Manuel Serrano tinha que satisfazer várias exigências e necessidades. Havia aqueles que queriam calçado forte e feio para trabalhar. Muita gente ainda recordará as grossas botas de cabedal com umas correias que davam a volta ao pé, com rastos de pneu ou sola com fortes proteções de metal, como brocha de asa de mosca ou cardas. Outros, ou os mesmos noutras ocasiões, queriam um produto bonito, bem acabado, de luxo mesmo; materiais especiais, importados alguns, podiam ser usados para o calçado do cliente ou da cliente mais exigente, com mais gosto e disponibilidade e vontade de pagar um preço superior. Para todos Manuel Serrano tinha que encontrar uma solução que deixasse o cliente satisfeito. Em muitos casos, esperava-se de Manuel Serrano mais que um produto útil; tinha que produzir um produto que tornasse mais elegante a pessoa, uma obra de arte que outros podiam ver e admirar.     

Havia ocasiões em que estrear calçado novo era obrigatório, por exemplo quando as pessoas se casavam, casavam filhos ou eram padrinhos. Os sapatos das noivas eram forrados de pano branco, aproveitando-se o que tinha sobrado do vestido da noiva. Também era comum os estudantes estrearem calçado novo quando iam fazer exame e esperava-se que se apresentassem bem calçados.

Fazia espécie ao leigo como é que os sapateiros a partir de materiais planos faziam calçado que se adaptava à forma do pé. Devia ser preciso talento e experiência para evitar erros que não podiam ser corrigidos. Devia ser preciso gostar da arte e nela ganhar experiência. O aprendiz de sapateiro começava pelas coisas mais básicas, como preparar linhas a partir de fio e pez ou resina e coser materiais. Depois, debaixo da orientação do mestre, ia executando tarefas cada vez mais complexas, de modo a estar familiarizado com as ferramentas e os procedimentos da arte até ser capaz de, entregue a si próprio, criar a partir de materiais sem forma, sapatos ou botas com a comodidade e a elegância exigidas. Manuel Serrano sempre teve gosto por todas as tarefas da arte de sapateiro. Conhece casos de pessoas que não conseguiram aprender a arte. Manuel Serrano aliava o gosto pela arte à capacidade para aprender e executar. Sem isso não teria sido, como foi, um sapateiro de sucesso.

Quando uma pessoa precisava de calçado novo, apresentava-se no estabelecimento do mestre sapateiro, que traçava num papel o contorno do pé descalço da pessoa, usando um lápis que fazia circular à volta do pé. O sapateiro media também com uma fita métrica a grossura do pé nalguns sítios. Combinava-se os materiais, os prazos, o preço e outros detalhes e o sapateiro ficava preparado para deitar mãos à obra. Para já poderia ter de adquirir materiais numa loja da especialidade.

Houve em Mouriscas, no Casal da Igreja, uma loja que vendia sola e cabedal. Pertenceu a um homem conhecido por José Francisquito, que passou o negócio ao genro, Zeferino Grossinho, mais conhecido por Severino Pereira. Os sapateiros de Mouriscas compravam material neste estabelecimento e também nos dos mourisquenses Manuel de Oliveira, estabelecido em Alferrarede, e Joaquim Serras, por alcunha Joaquim Fura, com loja no Sardoal, onde era conhecido por Joaquim da Sola.

De posse de dados sobre o pé, o mestre sapateiro procurava na sua coleção de fôrmas uma semelhante em tamanho e forma ao pé da pessoa a quem se destinava o calçado. As fôrmas de sapateiro eram modelos de pé humano feitos de madeira. Havia mais fôrmas para o sexo feminino, porque as havia para sapato raso, para meio salto e para salto alto. Quando entrávamos numa oficina de sapateiro víamos muitas vezes fôrmas parcialmente “calçadas” com uns sapatos novos. A visita tinha os seus encantos. Havia aquelas ferramentas do ofício, às vezes uma máquina de costura de aspeto estranho, muitas fôrmas em prateleiras e material acabado cheio de brilho e perfeição, verdadeiras obras de arte.

Manuel Serrano ensinou a arte a outros e teve outros sapateiros a trabalhar consigo. Sempre se deu bem com os outros sapateiros.

Não foi só em Mouriscas que Manuel Serrano teve clientes. Havia um sapateiro de Mouriscas que tinha clientes em Vale do Arco, no concelho de Ponte de Sor. Quando mudou de atividade, Manuel Serrano passou a deslocar-se à localidade para aceitar e entregar encomendas. Também teve clientes noutras localidades.

Às vezes o sapateiro prestava serviço ao domicílio. Também Manuel Serrano algumas vezes foi trabalhar a casa do cliente. Aí se deslocava com as necessárias ferramentas e fazia o seu trabalho, comendo com os donos da casa.

A profissão entrou em declínio quando aí pelo fim dos anos 60 os sapatos feitos por medida passaram a ficar muito mais caros que os oferecidos já feitos. Nessa altura, Manuel Serrano dedicou-se ao fabrico de seiras e capachos na fábrica local. Outros sapateiros continuaram, com ou sem estabelecimento, a consertar calçado.

A profissão de sapateiro é uma daquelas de que guardamos boas recordações. Desempenhavam uma função útil e proporcionavam-nos algumas alegrias. Qual foi o jovenzito ou a jovenzita que não se sentiu feliz e com vaidade ao estrear uns sapatinhos novos feitos pelo mestre sapateiro? Será que ao longo da vida não se repetiam de certo modo esses momentos de alegria infantil ao estrear calçado novo? Por isso, merecem ser recordados e homenageados os sapateiros de antigamente. Merecem a nossa gratidão!

 

Agradecimentos a Manuel Serrano pelas informações fornecidas para redação deste artigo.

publicado por João Manuel Maia Alves às 14:53
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3 comentários:
De Carlos Bento a 22 de Fevereiro de 2012 às 15:35
Parabéns João por este novo blog e por teres recuperado os dados do anterior. Excelente o perfil pessoal e profissional de Manuel Serrano. Foi durante muitos anos o sapateiro da minha família. Homem honrado e excelente mestre.


De Amadeu Lopes a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:08
Caro João deverá fazer também uma cronica ao falecido sapateiro João Dinis que também tenho algumas histórias rocambolescas para contar e os familiares e vizinhos.


De João Manuel Maia Alves a 23 de Fevereiro de 2012 às 15:53
Você podia escrever o artigo.


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