Sábado, 29 de Outubro de 2011

Mestres de lagares

Este artigo foi publicado neste blogue em 23 de setembro de 2004. Como muita gente não o leu e dada a época da apanha da azeitona que atravessamos, é de novo publicado. Mouriscas foi terra conhecida em muitas zonas do país por muita coisa. Era terra de ferroviários, de oficinas de espartaria e de pirotecnia, de muitas pessoas com curso superior. Era terra para onde vinha estudar muita gente de fora. Era também uma localidade donde saíam muitos mestres de lagares de azeite.Quem mandava a azeitona para um lagar esperava que não demorasse a ser moída, para não apodrecer, esperava receber azeite de qualidade e esperava uma boa funda, isto é uma boa quantidade de azeite por medida de azeitona. Esperava, portanto, que o lagar fosse dirigido por alguém competente que assegurasse os desejos dos clientes. À pessoa que dirigia um lagar de azeite dava-se (e dá-se) a designação de mestre.O mestre do lagar dirigia as respetivas operações. Além disso, tinha tarefas próprias. O líquido que saía da prensa resultante de azeitona moída dum cliente era encaminhado para uma talha chamado tarefa. O mestre deixava o líquido assentar. A água-ruça ou almofeira ficava no fundo. Era o mestre que devia deixar sair a água-ruça. Um mestre incompetente podia deixar sair também azeite ou não deixar sair toda a água-ruça.Um mestre de lagar tinha de ser um indivíduo competente ou a reputação dum lagar ia por água abaixo. Os bons mestres permaneciam muito tempo num lagar. Por vezes, quando as pessoas pensavam num certo lagar associavam-no logo ao seu mestre.Mouriscas tinha muitos lagares em funcionamento. Também tinha pessoas mais do que suficientes para serem competentes mestres dos seus lagares. Por isso, muitos mourisquenses trabalhavam nessas funções noutras localidades. Não eram dois ou três que trabalhavam fora. Eram realmente muitos.De Mouriscas saíram muitos homens para trabalhar como mestres de lagares de azeite em terras muito diferentes, como as zonas de Torres Vedras, do Douro, da Guarda, das Terras de Basto e do Alentejo.Com a naturalidade com que se aceita o que tem de ser, muitos mourisquenses deixavam a família anualmente para trabalhar como mestres de lagares de azeite, regressando, acabada a safra, com algum dinheiro economizado, “de forro”, como se dizia muitas vezes. Estes homens levaram o nome de Mouriscas a muitas terras do país. Como resultado, nalgumas terras Mouriscas era vista como terra de mestres de lagares de azeite.Muitos mestres de lagares foram figuras populares nas terras onde trabalharam. Um deles foi Francisco Pires Esparteiro. Todos os anos, este homem interrompia o seu trabalho de sapateiro para trabalhar como mestre dum lagar de Mouriscas. Um pouco antes de fechar o lagar de Mouriscas, dirigia-se ao Pinhão, linda vila sobre o Rio Douro, para ser mestre dum lagar local. Na região do Douro a azeitona amadurece mais tarde que no Sul. O nosso homem permanecia no Pinhão até ao fim da safra, voltando a casa já perto da Páscoa. Era conhecidíssimo e estimadíssimo no Pinhão.Um bom mestre de lagar diria que simplesmente fazia o que precisava de ser feito. Na verdade, um homem precisava de gostar muito do ofício para ser um bom mestre de lagar.Mestres de lagares de azeite Mouriscas teve muitos e bons. Muitos exerceram as suas funções em Mouriscas, muitos outros trabalharam fora da sua terra. Alguns trabalharam dentro e fora de Mouriscas. Todos merecem uma homenagem, recordando-os e reconhecendo o importante papel que tiveram na produção de tão saudável alimento como é o azeite e na divulgação do nome de Mouriscas.

publicado por João Manuel Maia Alves às 07:18
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