Domingo, 24 de Abril de 2011

Walter e Alcide - duas vidas dedicadas à costura

Redigido segundo a nova ortografia
walter_alcide.jpg

É dedicado este artigo ao casal de mourisquenses formado por Walter Lopes Mestre e Alcide Carolina Fernandes. Ambos dedicaram toda a sua vida à costura. Servirá também para recordar um pouco do papel e da importância em tempos passados de alfaiates e costureiras, pessoas que merecem ser lembradas e homenageadas.Walter Lopes Mestre nasceu no Vale, em 4 de março de 1935. Foram seus pais Francisco Lopes Mestre e Joaquina Lopes. Frequentou a escola primária do centro de Mouriscas, onde teve do começo ao fim um único professor - Abílio Delgado Pita, homem calmo que deixou uma boa recordação em muitos alunos.Terminada a escola primária, Walter começou quase imediatamente a sua aprendizagem de alfaiate com Jacinto Alves Pedro. Este homem, vindo da região da Guarda com os pais e os irmãos, foi um dos mais conhecidos e apreciados alfaiates de Mouriscas. Faz um pouco de espécie aos leigos como é que alfaiates e costureiras conseguem fazer roupa que se adapta à forma do corpo. Deve ser preciso talento e experiência para evitar erros que não podem ser corrigidos. Deve ser preciso gostar da arte e nela ganhar experiência. Tudo isto faz com que a ida ao alfaiate e à costureira tivesse sempre algo de fascinante. Durante dois anos Walter foi aprendendo, através de pequenos mas seguros passos, a arte de confecionar fatos de homem, até que ficou capaz de trabalhar sozinho.Walter começou a trabalhar por conta própria no Vale, onde vivia. Havia outros alfaiates na parte sul da freguesia, onde se situa o Vale. Não muito longe trabalhava um veterano – Severino Pita, casado com Maria Marques, uma das grandes costureiras e mestras de costura de Mouriscas. Um pouco mais longe trabalhava Artur Fernandes, já bem estabelecido no ramo. No entanto, Walter depressa arranjou clientela.Alcide trabalhou no Vale com Walter – em roupa de homem, senhora e criança. Os alfaiates trabalhavam para homens e rapazes a partir de certa idade. A roupa de meninas e meninos era obra de costureiras. Depois, em 1957, casaram para o Vale e continuaram a trabalhar na costura em Mouriscas até ao fim de 1964, altura em que foram procurar uma vida melhor em Lisboa.Alcide nasceu no Casal dos Cordeiros, lugar bastante ao sul de Mouriscas, em 9 de outubro de 1938. Os seus pais foram Manuel Fernandes e Diamantina Carolina. Fez a sua instrução primária no sul de Mouriscas, com a D. Irene Aparício e com a D. Maximiliana, que ensinaram várias gerações de mourisquenses. A costura esteve sempre nas suas intenções. Acabada a escola, começou a aprendizagem dessa arte com Beatriz Eugénia, que morava no Outeirinho, à beira da estrada e um pouco antes de se chegar à Fonte da Ladeira. Beatriz foi uma muito conhecida e apreciada mestra de costura e costureira. Aprendeu também a bordar à máquina com Donzília Batista, filha de Martinho Batista (Martinho Santa), que vendia máquinas de costura Singer e morava nos Engarnais Cimeiros, perto da loja de Manuel Caldo. Em épocas passadas, certos acontecimentos eram inseparáveis duma gala nova. Quem ia fazer exame do liceu a Portalegre ou a Santarém tinha de estrear roupa nova. Havia mesmo quem mandasse fazer um fato novo pelo simples facto de ir a Lisboa! Cada casamento implicava uma série de fatos e vestidos novos, pelo menos para os noivos, padrinhos e madrinhas e familiares mais chegados. Por isso, em certas alturas do ano, alfaiates e costureiras tinham que servir a muitos clientes, que mandavam fazer roupa para aparecerem devidamente "arreados", sem o que podiam fazer muito má figura. Sapatos novos também eram obrigatórios. Era este o panorama quando Walter e Alcide trabalharam em Mouriscas.Os clientes compravam o material para a confeção da roupa. Depois levavam-no ao alfaiate ou à costureira, que, usando tesouras, dedais, agulhas e máquinas, criavam peças de vestuário. As principais lojas que forneciam materiais para confeção de roupa, como tecido, forros e botões, eram as dos irmãos Manuel Cadete, na zona da Estalagem, e José Cadete, na Bagaceira. O alfaiate ou a costureira tirava as medidas da pessoa e começava a trabalhar no material. A pessoa tinha de comparecer para as provas. As provas eram um ritual interessante. O ambiente despertava curiosidade, com aquelas roupas penduradas, acabadas ou por acabar, e ferros de engomar e máquina de costura algo diferentes. Clientes ao experimentarem material ainda tão tosco talvez duvidassem que dali saísse obra apresentável. Faziam-se as correções necessárias e um dia a roupa era dada com pronta. Nem parecia ser a mesma que se tinha provado.A confeção de fatos, vestidos, blusas e saias era a principal ocupação de alfaiates e costureiras. Havia no entanto, outros serviços, como fatos de estudante - capas e batinas para quem ia estudar para o liceu ou para a universidade. Walter fez roupa dessa para mourisquenses que foram estudar para fora. Também havia quem mandava virar fatos de muito boa qualidade.Todos, mesmo os grandes deste mundo, precisam de quem lhes confecione a roupa. Figuras com imenso poder têm que se despir um pouco da sua importância e das sua vestes para lhes tirarem as medidas para roupa novas. Podemos não ser pessoas poderosas, mas o alfaiate e a costureira às vezes contribuíam para nos sentirmos reis ou rainhas. Qual o jovenzita ou a jovenzita que numa roupa acabada de estrear não se sente quase no centro do mundo? Como se sente um adulto dentro de roupa nova? Parece que aquela encadernação o faz sentir-se maior num mundo que encolheu. Até lhe parece que ganhou outra fala e que as outras pessoas são mais amáveis. Estrear roupa nova é sempre agradável. Se estiver ligada a acontecimentos felizes e muito marcantes como o casamento, o prazer é maior. Tudo isto tornava os alfaiates e costureiras das nossas vidas criaturas muito simpáticas. Víamos neles artistas entregues a um trabalho delicado que nos fazia sentir melhor connosco e com os outros. É de 1964 este anúncio, publicado com o programa das festas de verão desse ano.

walter.jpg

Já então se verificava o que depois se acentuaria – a emigração para os grandes centros e a quebra de população em meios rurais. Walter e Alcide, já com três filhos, resolvem procurar uma nova vida em Lisboa. Isso acontece no fim de 1964. Foram sem saber onde iriam trabalhar. A época era de crescimento económico e de incremento industrial e do setor dos serviços, com o aparecimento de muitas pessoas com um maior poder de compra e exigência de qualidade. Não faltava emprego a quem queria trabalhar. De trabalhador por conta própria, Walter passou a empregado por conta de outrem. Trabalhou na firma Novos Tempos, em Lisboa, e mais tarde, na Confer, na Damaia, nos arredores de Lisboa. Alcide continuou a trabalhar na costura, mas sempre em casa. Durante um certo tempo, Walter levava para casa trabalhos de que ela se encarregava. Mais tarde passou a trabalhar para outra costureira.Modas é algo que alfaiates e costureiras têm de acompanhar. Muita gente se lembra ainda do aparecimento no vestuário masculino das rachas, dos reforços de cabedal nos cotovelos e de botões de metal nos casacos e de calças sem dobras. Quanto ao vestuário feminino, esteve sempre muito sujeito a novas modas nas cores, nos estilos, nos tamanhos e noutros aspetos. O aparecimento da televisão contribuiu bastante para a divulgação das modas e para o aparecimento dum público mais informado e exigente. Ainda em Mouriscas, Walter e Alcide tiveram que as seguir através de revistas especializadas. Em Lisboa ainda mais atenção tiveram que lhes prestar. Nesse meio as exigências da profissão eram maiores. Essa a razão por que Walter frequentou a Academia de Corte Maguidal - Escola Técnica de Corte para Alfaiates e Camiseiros. Teve aulas e exames e foi aprovado com a classificação de Muito Bom. As limitações deste blogue e o tamanho do diploma não permitem uma adequada reprodução desse documento, de que Walter sente natural orgulho. Transcrevem-se a seguir os seus dizeres.

ACADEMIA DE CORTE MAGUIDAL FUNDADA EM 1934ESCOLA TÉCNICA DE CORTE PARA ALFAIATES E CAMISEIROS LISBOA - PORTUGAL

 

DIPLOMA

Conferido a Walter Lopes Mestre

que foi aprovado no exame final do curso de corte de vestuárioexterior para homem com a classificação de Muito Bom.Lisboa, 26 de Julho de 1974

O Director

Hoje, com três filhos e vários netos, Walter e Alcide, vão dividindo o tempo entre Sacavém e o Vale, em Mouriscas, terminada que foi a sua carreira na arte que cultivaram desde cedo.A comissão das festas de verão de 1964 publicou uma brochura, que além do programa dos festejos, contém anúncios de alfaiates. Dela constam anúncios dos seguintes alfaiates: Ricardo de Jesus Alves, conhecido por Ricardo Cartaxo, Francisco de Jesus de Matos, Jacinto Alves Pedro, Artur Fernandes Cadete e Walter Lopes Mestre. Houve outros alfaiates que alcançaram grande fama. Dois deles foram Severino Pita e António Maria Gueifão Belo. Da brochura consta um anúncio de Maria de Lurdes da Conceição Fontinha de "Tecidos e Miudezas" e "Atelier de Costura e Malhas", mas havia outras senhoras que faziam da costura modo de vida. Algumas que estiveram ligadas a essa arte foram as irmãs Mendonças (Ilda, Maria e Ermelinda), Jacinta Batista, Joaquina Batista, Beatriz Eugénia, Maria “da Portela”, Maria “da Mestra”, Florinda Filipe, Sílvia Alves de Matos, Maria Florinda, Elisa "Benta", Maria Marques, Jacinta “Galanta”.Alfaiates e costureiras tiveram um papel muito importante no passado. Os que temos mais idade e recordamos a roupa feita por medida sentimo-nos agradecidos aos alfaiates e às costureiras que nos serviram. Neste tempo de pronto a vestir, fazem parte duma época que já não volta. Merecem uma agradecida homenagem. Obrigado!O administrador deste blogue agradece a Walter Lopes Mestre e Alcide Carolina Fernandes os dados fornecidos para a redação deste artigo.

publicado por João Manuel Maia Alves às 16:47
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