Sábado, 1 de Maio de 2010

Mouriscas - Fragmentos para a sua história

Artigo escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico
Este artigo é a transcrição, com adaptação à nova ortografia, dum manuscrito do Prof. Matias Lopes Raposo em poder do administrador deste blogue. Destinava-se a ser publicado num jornal, ignorando-se se tal aconteceu. Deve ter sido escrito pouco antes de 1960.
m_l_raposo.jpgProf. Matias Lopes Raposo (1891-1961)
É muito difícil escrever história onde não há monumentos ou onde os documentos escritos são escassos ou contraditórios.É o que sucede com Mouriscas.Tenho vasculhado o que me tem sido possível. Tenho escrito a amigos e consultado investigadores.De todos estes esforços tenho colhido pequeno cabedal de informações.Apenas consegui certificar-me, mais uma vez, que esta terra é muito antiga e já foi, creio-o bem, mais importante do que é hoje.Pelo menos o investigador das "Grandes Vias da Lusitânia", Senhor Mário Saa, bem o afirmou numa amável carta que tenho em meu poder, quando diz:"Por aí passava uma estrada militar romana, muito transitada - a Estrada Mourisca, assim chamada por antonomásia, visto ser seguida, depois, pelos árabes. Essa estrada dirigia-se ao Tejo (à Barca de Bandos), indo a Alvega e, em seguida, Crato, Arronches, Campo Maior, Mérida... Vinha de Coimbra, por Cabaços, Ferreira do Zêzere, Foz do Codes, S. Domingos, Mouriscas.Nesta localidade houve estância romana com monumentos epigráficos e muita arqueologia.”Diz ainda o mesmo senhor, a quem muito agradeço as informações prestadas, que o nome Mouriscas, pluralizado, é relativamente recente, pois que ainda em 1758 aparecia no singular.E, embora nos "Pergaminhos", arquivados no Museu D. Lopo de Almeida, de Abrantes, e relativos aos bens das Igrejas, se encontre referências de propriedades em Mouriscas e esses "Pergaminhos" situem esses registos entre os séculos XIII e XVI, a verdade é que muitas pessoas, aqui dos arredores, ainda hoje, quando vêm à sede da freguesia tratar de qualquer negócio, dizem, muito naturalmente: - Vamos à Mourisca.E o povo, que é conservador e custa a perder os hábitos adquiridos, deve ter razão.O caráter disperso que a freguesia ainda hoje conserva leva-nos a admitir a hipótese da pluralidade fazendo entrar no todo as várias granjas que então constituíam elementos autónomos com nomes diferentes, como ainda agora sucede aos seus quase 60 lugares, mas o contacto tem-se feito e está-se fazendo. É a urbanização em marcha - lenta, mas progressiva.O intrigante da questão está, todavia, na falta dum núcleo que tenha o nome de Mouriscas, pluralizado ou não.Mas deixemos este quebra-cabeças - que até no caso da eletrificação já trouxe muitos aborrecimentos - a quem tenha menos que fazer que eu, e passemos adiante.Sabe-se que Mouriscas já era freguesia no tempo do Marquês de Pombal e foi durante muito tempo um curato anual da apresentação do vigário do Sardoal. Depois evoluiu e tornou-se tão importante que, após o advento do liberalismo em Portugal, foi sede duma assembleia eleitoral que englobava as atuais freguesias de Aboboreira, Alcaravela, Alvega e Penhascoso.Mas retrocedamos um pouco, e falemos ainda da carta do Senhor Mário Saa – investigador e publicista – para concluirmos que Mouriscas, no tempo dos romanos foi um grande nó de comunicações.Aqui se cruzavam duas estradas importantes: a que vinha de Coimbra e se dirigia a Espanha, e a que vinha das Beiras e seguia para Lisboa.O ponto de cruzamento é que não se sabe onde era, mas atendendo à topografia da terra e ao sítio onde fica a Barca de Bandos e a ponte de três arcos, em tijolo, sobre a Ribeira de Arcês, tudo nos indica o lugar da Estalagem.A Estalagem era a “pousada”, qualificada ao tempo para receber as récuas de machos dos almocreves que por aqui passavam transportando no dorso dos animais os artigos do seu negócio. Os animais de sela e tiro eram, nesse tempo, o mesmo que são hoje os automóveis e as camionetas – os veículos devido à distância.Mas para não alongar muito este preâmbulo, começarei no próximo número deste jornal do jornal a fazer a transcrição daquilo que sobre Mouriscas já disse no livro “Abrantes – Cidade Florida”, livro que já saiu há anos.De então para cá poucos mais elementos consegui e esses são os que aqui ofereço ao leitor.Mais alguns que possa vir a obter, publicá-los-ei em nota explicativa no fundo ou à margem daquele texto.Deixo estes subsídios para os estudiosos, no futuro, fazerem obra mais completa e perfeita.São os primeiros elementos coligidos por um carola que deseja que a sua terra venha a ter um dia a história que hoje não existe.
Definição de termos e expressões do texto
  • antonomásia – designação ou nome atribuído; a Estrada Mourisca, construída pelos romanos, era mourisca por antonomásia, isto é por lhe terem dado esse nome
  • apresentação - proposta, indicação de nome ou nomes para certos cargos da Igreja
  • arqueologia - estudo das civilizações antigas com base nos vestígios e monumentos que vão sendo descobertos; no texto significa coisas merecedoras de estudo pela arqueologia
  • curato – povoação pastoreada por um cura (sacerdote que tem encargo de pastorear fiéis; também se diz cura de almas)
  • estância - local de estadia temporária para férias, repouso ou tratamento de doenças
  • liberalismo – regime político que em 1820 sucedeu à monarquia absoluta
  • monumento epigráfico – monumento com palavras gravadas
  • publicista – jornalista ou escritor que se ocupa de assuntos do interesse público, como economia ou história
  • récua - grupo de animais de carga
  • topografia – forma de terreno
Palavras resultantes do Acordo Ortográfico
caráter, eletrificação e atuais em vez de carácter, electrificação e actuais, com a eliminação de cês não pronunciados
publicado por João Manuel Maia Alves às 07:29
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