Terça-feira, 9 de Março de 2010

Mouriscas (S. Sebastião) - Sua origem, seu povo (2)

O texto que se segue, do Prof. Matias Lopes Raposo, trata da Capela de Nossa Senhora dos Matos. Dá continuação ao texto anterior, fazendo ambos parte de artigo publicado no começo da década 1951-1960 em “Abrantes – Cidade Florida” e em “Abrantes – Notas Históricas”. Houve adaptação às regras do Acordo Ortográfico.Como monumento histórico é conhecida em toda a região a Capelinha de Nossa Senhora dos Matos, onde, antigamente, se fazia pomposa festa, que aqui atraía multidão de romeiros de algumas léguas ao redor; tem interessante e um pouco misteriosa história a capelinha.
sra_dos_matos.JPGCapela de N. S. dos Matos
Em resumo: Diz a tradição que a capela foi mandada fazer por um fidalgo inglês, o que encontra fundamento na legenda do frontal em azulejo: dña intercede pro anglia ut convertat. Tem a capela, no alto da abóbada, pintado, o brasão do fundador, cujos quartéis levantam fundadas dúvidas de interpretação.Procurou removê-las o sr. dr. José Pequito Rebelo, e das diligências feitas para tal, dá conta numa nota do seu livro recentemente publicado O Aspecto Espiritual da Aliança Inglesa, da qual, com o devida vénia, transcrevo a decisiva informação do ilustre genealogista Sr. Conde San Payo, que é no teor seguinte:“Eureka! Ou quase eureka, com a devida vénia à língua do divino Platão.Na minha qualidade de Presidente da Secção de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, na sessão de ontem propus o problema heráldico, que há cerca de quinze dias V. Exa. no comboio me propôs. Lembra-se? O do brasão de armas existente na capela da povoação de Mouriscas. Mais uma vez se confirmou a vantagem das Academias e a sólida cultura da fundada por Possidónio da Silva. Com efeito logo os consócios António Machado Faria e Gastão de Melo Matos se pronunciaram sobre a questão. Pela discussão que o seu problema suscitou colhi o seguinte:D. Fernando Coutinho, IV Marechal do Reino na sua geração, nascido em 1565 ou 66, foi pai (aliás ilegítimo) de D. Álvaro Coutinho, o qual, por sua vez, teve também uma filha bastarda (havida em Maria Sanches), chamada D. Maria Coutinho.Ora esta D. Maria Coutinho, encontro agora eu no meu velho oráculo genealógico o Beneficiado Jacinto Leitão Manso de Lima, casou com “D. Francisco Naper, fidalgo inglês, natural da Escócia, que veio a este Reino e foi governador de Abrantes, que era filho de D. Cristóvão Naper, o qual serviu a El-Rei João IV nas guerras contra Castela».Ora parece que Naper o mesmo será que Napier (Conf. Cristóvão Aires e Braamcamp Freire, na Armaria Portuguesa), sendo as armas desta família uma aspa acompanhada por quatro rosas e aqui temos, ao que igualmente parece, o primeiro quartel das armas que me mostrou. O segundo quartel, 5 estrelas, serão as armas dos Coutinhos; efetivamente brasonam de 5 estrelas vermelhas em campo de ouro. O 3.º quartel será das armas dos Lencastres, provenientes a estes Napers Coutinhos por sua antepassada D. Branca de Lencastre, mulher do Marechal D. Álvaro Coutinho, ou, para melhor dizer, são as armas reais, por isso que esta D. Branca era sobrinha do Duque de Bragança, D. Jaime. O 4.º quartel é que fica por decifrar, mas dado o seu aspecto inglês, tudo leva a crer que representa outra costela inglesa dos mesmos Napers ou Napiers.Como vê, aqui temos a coincidência de tão grande número de fatores que julgo não poderem admitir-se já dúvidas ter a capela em questão sido fundada por algum membro destes Napers Coutinhos, efetivamente residentes ,em Abrantes no século XXVII, lembrados da sua ascendência inglesa e orantes pela extinção das heresias na Ilha Britânica. Possivelmente, D. Francisco Naper de Lencastre, filho deste casal, Mestre de Campo de um Terço no Alentejo, ou seu irmão D. Álvaro Coutinho de Lencastre.»Prova-se ainda que a sua construção data aos meados do século XVII, porque existe na freguesia um cálice que tem gravada a seguinte legenda: C.ª de N.ª Senhora dos Matos - Ano de 1648.Este cálice vem fazer muita luz sobre a data da fundação da capela e completar, até certo ponto, a informação dada pelo Sr. Conde de São Payo, quando pretende atribuir esta edificação a algum membro da família Napier-Coutinho. Pelo que ainda se pode decifrar no brasão do tecto da capela, é que aquele ilustre genealogista conseguiu chegar à conclusão acima referida e que, conjugando a época em que a família Napier-Coutinho residiu em Abrantes e o conhecimento recente do cálice, tudo parece indicar que se chegou, de facto, a dados positivos.Se o fecundo publicista dr. José Pequito Rebelo vier a fazer nova edição do seu interessantíssimo livro O Aspecto Espiritual da Aliança Inglesa, aqui tem mais uma acha para lançar na fogueira da investigação.E muito obrigado por ter arrancado do esquecimento, que se ia tornando criminoso, esta página de História que nos faz lembrar as tristes e violentas lutas religiosas travadas na Velha Albion e que lhe dilaceraram as carnes durante muitas dezenas de anos.O corpo principal da ermida foi reconstruído há anos, por subscrição pública.Da primitiva traça só existe a capela-mor.(Continua)
Definição de termos ou expressões do texto
  • Albion – Inglaterra
  • Aspa – Emblema ou insígnia em forma de X
  • Beneficiado – Indivíduo com benefício eclesiástico, isto é da Igreja
  • Brasão – Emblema ou insígnia de pessoa ou família nobre
  • Conf. – Confronte, compare
  • Dña intercede pro anglia ut convertat – Senhora, intercedei pela Inglaterra para que se converta
  • Eureka – Achei, encontrei; eureka é uma palavra grega que se usa quando se encontrou a solução dum problema difícil
  • Genealogista – Pessoa que se dedica à genealogia, ou seja ao estudo da ascendência e relações familiares, especialmente das classes nobres
  • Heráldica – Ciência dos brasões
  • Mestre de campo – Designação antiga de oficiais superiores de infantaria no Exército Português
  • Oráculo – Resposta dada por uma divindade a quem a consultava ou a própria divindade; pessoa cujo conselho ou opinião merece muita confiança
  • Publicista – Jornalista ou escritor que se ocupa de assuntos do interesse público, como economia ou história
  • Quartel – Cada uma das quatro partes em que se divide o brasão
Palavras resultantes do Acordo Ortográfico
efetivamente e fatores em vez de efectivamente e factores, com a eliminação de cês não pronunciados.
publicado por João Manuel Maia Alves às 11:19
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