Terça-feira, 16 de Novembro de 2004

Mouriscas em meados do século XX (4)

Para a apanha da azeitona alguns lagareiros contratavam para os seus ranchos, homens e mulheres, tanto da terra como dos concelhos vizinhos do pinhal sul - Vila de Rei, Proença-a-Nova, ... - que varejavam tanto as suas oliveiras, como as dos seus fregueses.

De salientar a importância das pequenas oficinas das diversas artes na formação profissional dos jovens. Concluída a instrução primária, - com exame da quarta classe realizado obrigatoriamente na sede do concelho ou seja em Abrantes - as alternativas colocadas aos pais, quanto ao futuro dos filhos ficavam, praticamente, limitadas à aprendizagem, na freguesia ou terras próximas, de uma arte ou profissão. Mas a maioria, por não ter os estudos primários, não tinha tal possibilidade. Até 1945 - data em foi fundado o Colégio Infante de Sagres - a continuação dos estudos estava fora de questão para 99% da juventude mourisquense. Bem poucas eram famílias - três ou quatro - que tinham possibilidades de mandar os seus filhos continuar os estudos, visto os mais próximos estabelecimentos de ensino liceal, estarem sediados apenas em Castelo Branco, Portalegre e Santarém. A sua localização exigia despesas - com deslocações e estadia - impossíveis de suportar para a quase totalidade das famílias mourisquenses. Deste modo ou se aprendia uma arte com a ajuda de um mestre ou familiar, ou a profissão de agricultor com o pai, ou se ficava sem profissão definida, cabendo esta, geralmente, aos que possuíam pouca ou nenhuma escolaridade, sujeitando-se, por esse facto, ao exercício das tarefas mais duras e penosas ligadas ao mundo rural, como: cavador, roçador de mato, servente, ajudante ,... .

Foram muitos os mourisquenses que se empregaram na indústria metalúrgica do nosso concelho, tanto em Tramagal, como no Rossio ao Sul do Tejo. Trabalhavam de Segunda ao Sábado e levavam, semanalmente, o pão de milho e os produtos alimentares necessários, com confeccionavam as suas refeições.

A fundação de uma instituição de ensino particular, em Mouriscas, viria a constituir um poderoso factor de desenvolvimento para a freguesia. Desde do início da sua actividade, por ela e sua substituta - a Escola C+S Doutor Santana Maia de Mouriscas, que funcionou até ao ano lectivo findo - passaram muitos milhares de jovens mourisquenses, muitíssimos dos quais continuariam os seus estudos, atingindo os mais elevados graus académicos e as mais altas categorias funcionais no mundo do trabalho.

Também, logo após o fim da II Guerra Mundial, os fundadores do citado Colégio, começaram a dar formação aos candidatos a emprego na C.P. Nesta empresa ferroviária se empregaram muitas dezenas de mourisquenses, que aí atingiram cargos de relevo.

A Escola Profissional de Agricultura de Abrantes, criada em 1989, sediada em Mouriscas, na Herdade da Murteira , transformada, em 2000, em Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, agora inserida na rede de estabelecimentos de ensino oficial do Ministério da Educação, de igual modo, tem contribuído, decisivamente, para o desenvolvimento económico e sócio-cultural da freguesia e do concelho de Abrantes e para minorar o agudo problema da desertificação das esquecidas terras do interior. Contudo, trouxe alguns problemas sociais à comunidade mourisquense.

O mundo rural, superficialmente, caracterizado começaria, a ruir a partir dos meados do século passado, devido a múltiplos factores: êxodo rural da população activa; invasão do campo por produtos industriais mais baratos; incapacidade de uma população velha, apegada a práticas rotineiras de cultivo, de investir, competir e modernizar o sector. A partir de então, face ao desaparecimento de um calendário agrícola e de muitas actividades a ele ligadas, quebrou-se a tradicional aliança entre a terra e os homens.

Na actualidade, a freguesia de Mouriscas, que não destoa muito do que acontece nas terras do interior do país, caracteriza-se por um acentuado despovoamento que, em termos de presença humana, apenas deixou a trabalhar nos campos, uma população diminuta, empobrecida e envelhecida, incapaz de ser destinatária de quaisquer políticas ou acções que visem a recuperação e ou a conservação dos recursos e a inversão do processo de desertificação económica, social e ambiental.

De modo a inverter a presente situação temos que conhecer sistematicamente o passado de Mouriscas que passará pelo estudo transdisciplinar do seu património natural e construído, da cultura material e simbólica das suas gentes e do seu estilo de vida no passado e no presente, de modo a poder perspectivar-se o seu futuro.

Torna-se pois necessário fazer o levantamento e registo das actividades técnicas da actividade manual das diversas artes, extintas ou em vias de extinção, sem dúvida, um raro património cultural que é preciso preservar e gerir com racionalidade. Recordam-se as tecnologias relacionadas com: os engenhos de elevar água, a tecelagem, a espartaria, a cerâmica, o fabrico da farinha, do pão, do azeite, dos enchidos, dos queijos e do vinho, a arte de pescar e outras artes como mestres de lagar, manageiros, mestras de costura, albardeiros, ferradores, pescadores, caçadores, latoeiros, ... . E dar particular relevo á secular e típica riqueza no domínio das artes do saber fazer comida, do saber comer e do saber fazer pão, vinho, azeite, enchidos e queijos e do saber conservá-los.

Para que tal se torne uma realidade TODOS OS MOURISQUENSES deverão dar a sua ajuda e contribuir para que Mouriscas seja novamente uma terra dinâmica e as novas gerações de mourisquenses conheçam com exactidão uma realidade social, quase extinta, sentida e vivida, com muito sacrifício e extremas dificuldades, pelos seus ascendentes mais próximos: pais e avós.

O engrandecimento de Mouriscas dependerá, essencialmente, dos Mourisquenses.

Escreveu o texto Carlos Bento
publicado por João Manuel Maia Alves às 18:24
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