Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Festa de S. Sebastião - memórias

Artigo escrito de harmonia com o Acordo Ortográfico

 

S_Sebast.JPG
Imagem de fontanário em Mouriscas>
(Foto de Fernando Bento)

Vamos falar um pouco das festas de S. Sebastião, padroeiro de Mouriscas, por volta dos meados do século passado.

Nesses tempos as festas realizavam-se em dois dias de janeiro: 20, dia do padroeiro, e 21. O dia 20 era dia santo em Mouriscas. O dia 21 era o dia da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Muita gente o guardava também. Era, na prática, o segundo dia da festa de S. Sebastião.

No aspeto religioso padres de fora participavam das missas, celebradas com toda a solenidade, como era costume na época. Havia sermões pregados do púlpito, por vezes com grande eloquência e vigor. Na época a oratória sagrada era muito apreciada e tinha muitos cultores. O púlpito é um lugar elevado donde o padre fala aos fiéis. Na antiga igreja, demolida a caminho de 1960, o púlpito ficava à esquerda de quem entrava pela porta principal, encostado a uma parede lateral, mais ou menos a meio do comprimento do templo. Não havendo instalação sonora, os padres precisavam duma voz forte e bem colocada. O púlpito contribuía para que os sermões fossem mais bem ouvidos por maior número de pessoas, além de lhes dar solenidade e elevação.

Havia nessa antiga igreja vários altares. Atrás e acima do altar-mor estava a imagem de S. Sebastião, substituída nos meses de maio e junho pela imagem de N. Sra. de Fátima e pela do Sagrado Coração de Jesus, respetivamente.

Costumava-se dizer que S. Sebastião gostava de ser molhado, isto é, quando saía na procissão da sua festa, habitualmente chovia. Havia um outro dito relacionado com S. Sebastião. Quando alguém dizia alguma coisa impossível ou difícil de acreditar, poderia ouvir-se um comentário do género “ isso até S. Sebastião caía do altar abaixo e partia o nariz”. A frase não primava pela elegância e chocaria pessoas fora do meio rural que era Mouriscas. Não tinha, no entanto, qualquer intensão ofensiva ou desrespeitosa.

Antes do primeiro dia da festa, eram construídas uma quermesse no adro da igreja e outras estruturas necessárias. Uma comissão das festas se encarregava destas e doutras atividades. Os membros da comissão chamavam-se festeiros. Durante vários anos foi presidente da comissão Eduardo Martins, conhecido por “Mestre Eduardo”. Também António Gonçalves Pedro foi vários anos presidente da comissão. Uma das funções dos festeiros era distribuir pequenos sacos de pano. Estas sacos eram devolvidos cheios de feijão e cereais, que depois eram vendidos, constituindo o dinheiro obtido receitas das festas.

Uma banda de música abrilhantava as festas. Era, em geral, a banda do Sardoal ou a do Mação. Participava na procissão e tocava peças do seu reportório. Bandas mais ligeiras animaram as festas, tocando durante o arraial à noite num coreto construído de propósito. A uma destas bandas ligeiras, formadas por um número reduzido de elementos, chamava-se na altura “jaze” ou “jazebande”. Num ano os elementos do “jaze” de Tancos sofreram um desastre relacionado com o veículo de tração animal que os transportava entre a estação de comboios e o local das festas. O transporte automóvel ainda era ainda de utilização limitada. Nesses tempos não havia energia elétrica em Mouriscas e pouca gente tinha rádios. Por isso, era muito apreciada a música que se ouvia nas festas, tanto a das bandas filarmónicas como a mais leve tocada pelos "jazes".

Em terra de pirotécnicos não podia faltar fogo de artifício em quantidade. As festas eram anunciadas por alvoradas, que se prolongavam por vários minutos. Muita gente se lembrará ainda de ver à frente da procissão um homem lançando foguetes duma braçada que outro segurava. Durante o dia e à noite continuava-se a lançar fogo. Até balões foram lançados.

Na procissão a imagem de S. Sebastião e as de outras figuras religiosas eram seguidas de fogaças (ou afogaças como era e é costume dizer-se), com oferendas de lugares da freguesia como bolos, chouriço e notas. Depois da procissão os artigos das fogaças eram leiloados, com continuação no dia seguinte. Em certos anos a chuva era tanta que os leiloeiros faziam o seu trabalho às janelas do salão paroquial anexo à igreja.

Depois das missas, à tarde e à noite, havia arraial. Havia fornecimento de vinho, tremoços, café, bolos e outras coisas para consolar o estômago.

Só à roda de 1960 chegaria a eletricidade a Mouriscas. Já antes os arraiais das festas tinham iluminação elétrica. Havia firmas que produziam através dum gerador a energia elétrica necessária e instalavam altifalantes e microfones.

Em linhas gerais eram assim as festas de S. Sebastião, um tempo de alegre convívio e festa em tempos de duro trabalho e pouca diversão.

Recuemos agora oitenta e seis anos e recordemos um acontecimento estranho relacionado com as festas de S. Sebastião e já narrado em artigo deste blogue de 7 de julho de 2006, com o título “ O padre-pensionista e a banda excomungada”.

Depois da implantação da república, o Pe. Henrique Neves, pároco de Mouriscas, aceitou uma pensão do estado, tornando-se no que veio a ser conhecido por um padre-pensionista. Tal contrariava as orientações da hierarquia católica. Foi excomungado e proibido de exercer a sua função sacerdotal. No entanto, não abandonou a igreja matriz, onde continuou a exercer as funções de que a hierarquia o tinha privado. O bispo de Portalegre nomeou um novo pároco –- o Pe. Nogueira - que realizava os atos do culto na capela do Espírito Santo, nas Ferrarias. Tínhamos agora dois padres em Mouriscas. Os dois têm partidários. Famílias dividem-se. Há violência física e verbal.

No início do ano de 1924, o Pe. Henrique, padre-pensionista há uns bons anos e ainda privado das suas funções, convidou a Filarmónica de Rossio ao Sul do Tejo para tocar nas festas de S. Sebastião. A banda aceitou e o bispo de Portalegre excomungou-a. Os seus membros ficaram proibidos de receber sacramentos e de ser padrinhos até serem absolvidos. A excomunhão desta banda foi levantada em setembro do mesmo ano de 1924, em face dum apelo, com ameaças e protestos, da respetiva direção.

Algo muito sensacional tem de acontecer em Mouriscas para ser noticiado num jornal de Portalegre. Pois isso aconteceu com esta história com algumas décadas.

O administrador deste blogue agradece a Martinho Maia a sua valiosa ajuda na redação deste artigo

Palavras resultantes do Acordo Ortográfico
  • janeiro, maio, junho, julho,setembro em vez de Janeiro, Maio, Junho,Julho, Setembro, porque os nomes dos meses escrevem-se com letra pequena
  • aspeto, atividades, elétrica, eletricidade, atos, respetiva, repetivamente, tração, direção, redação em vez de aspecto, actividades, eléctrica, electricidade, actos, respectiva, repectivamente, tracção, direcção, redacção, porque são eliminados cês não pronunciados
publicado por João Manuel Maia Alves às 09:11
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