Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004

Mouriscas em meados do século XX (1)

Na breve descrição que se segue serão tidos em consideração os aspectos mais relevantes da geografia, da sociedade e da economia da freguesia de Mouriscas que pautaram o modo de vida dos seus habitantes, no período pós I Guerra Mundial até à década de 70 do século passado.

O território que constitui a freguesia de Mouriscas e faz parte do concelho de Abrantes, situa-se no alto Ribatejo e numa encosta da margem direita do médio Tejo. Os seus solos, bastantes movimentados, a maior parte de natureza xistosa, embora, agricolamente, pobres, são favoráveis ao crescimento de árvores como a oliveira, figueira, pinheiro bravo, sobreiro, carvalho e eucalipto e de matos mediterrâneos como: tojo, torga, rosmaninho, giesta, carrascos, carqueja e esteva. Nas margens das ribeiras e vales florescem choupos, freixos, amieiros e salgueiros.

A economia da freguesia assentava, essencialmente, na exploração de uma agricultura de sequeiro e de regadio, de pequeno significado, da pequena horta, da olivicultura e da pecuária e, em menor escala, do pinheiro bravo e dos matos e de pequenas indústrias artesanais.

A produção anual de alimentos provinha, principalmente, de uma pluri-agricultura intensiva, familiar e pouco produtiva, explorada, por processos artesanais.

A propriedade do solo, muito dividida, alguma socalcada e quase sempre murada a pedra seca, serviu de base, durante muitas gerações e até há quatro dezenas de anos, a uma actividade primária voltada, essencialmente, para a olivicultura, a cultura de cereais de sequeiro (milho, trigo, cevada, aveia e algum centeio), de leguminosas e outras, como, favas, ervilhas, grão-de-bico (culturas, geralmente, de sequeiro), couves (ratinha ou galega, lombarda, tronchuda, repolho, coração-de-boi, sete semanas), nabos, feijões, cenouras, beterrabas, alfaces, almeirões, cebolas, alhos, pimentões ou catalões, tomates, pepinos, melões, abóboras, melancias e de batatas (culturas de regadio). Cultivavam-se, ainda, a serradela, o linho, os tremoços e os chícharos. Entre as árvores de fruto que cresciam nas pequenas hortas, tínhamos: laranjeiras, limoeiros, tangerineiras, tangereiras, macieiras, pessegueiros, ameixeiras, nespereiras, damasqueiros, nogueiras, diospireiros e algumas amendoeiras. A figueira tinha papel de relevo na economia local. O figo preto, seco ou não, servia para a alimentação de pessoas e animais e para o fabrico de aguardente, muita dela feita particularmente em alambiques. De lembrar ainda os saborosos figos de S .João, os figos lampos, as abêberas ou bêberas, os figos paraísos e castanhais. Amanhava-se a micro-vinha, destinando-se o vinho e a aguardente bagaceira, para venda, o consumo da casa e presentear amigos.

Os cereais, depois de colhidos, eram malhados ou debulhados em eiras e, de seguida, guardados em potes de barro. O milho, o trigo e o centeio iam depois para os moinhos e azenhas e aí eram transformados em farinha e, posteriormente, em pão, cozido em fornos individuais, aquecidos a lenha de pinheiro, oliveira, estevas, ... . Neste processo de transformação desempenhavam papel importante os moleiros e as mulheres.

Era, então, ambição de toda a família ter habitação própria, uma “fazenda”ou “courela” com oliveiras, figueiras e outras árvores de fruto, uma horta com poço onde pudesse cultivar, pelo menos, algumas couves, batatas e feijões, produtos básicos na alimentação do dia-a-dia.

O olival, a par dos cereais, constituía uma fonte de riqueza para as famílias mourisquenses. A oliveira dava a azeitona que depois de apanhada por ranchos, constituídos por gente da terra ou de fora, ia para os lagares - numa primeira fase de varas e, depois de prensa hidráulica - para ser moída e transformada em azeite. Neste processo de transformação tiveram papel de relevo os lagareiros e os mestres de lagar. Ao ser limpo dava trabalho aos “alimpadores” e fornecia rama para alimentação dos animais e lenha para a cozinha, lareira e forno de cozer pão.

Foi esta agricultura de minifúndio, bem adaptada ao potencial ecológico mediterrâneo, que forneceu, durante gerações, os produtos, diversificados e de qualidade, que permitiram o sustento anual das famílias mourisquenses.

As habitações eram, construídas em terras próprias, muitas vezes, em locais isolados, perto ou longe dos caminhos principais, facto a que não é alheio o povoamento disperso da freguesia. Como materiais de construção utilizavam-se materiais da terra: pedra, barro, cal que se comprava na Barca do Pego e madeiras, de pinho e choupo.

Os animais domésticos na posse dos agricultores tinham diversificadas funções: muares e asininos eram utilizados na tracção, no carrego e montada; bovinos, na tracção; suínos, caprinos, ovinos e animais e aves de capoeira - como coelhos, galinhas, perus, patos -, constituíram pilares básicos na economia autoconsumo, quase auto-suficiente, das famílias mourisquenses. O gado cavalar, pouco numeroso, era propriedade das famílias mais abastadas. Aos cães e gatos cabiam importantes funções domésticas.

As juntas de bois eram elementos preciosos no mundo agrícola. Puxavam os carros que, entre outras coisas, transportavam cereais, azeitona, azeite, bagaço, figos secos, madeira, mato para os fornos de cerâmica, para os fornos de cozer pão e para as camas dos animais e para as estrumeiras e ainda os arados e grades indispensáveis na lavra e gradagem das terras. Também desempenhavam as mesmas tarefas as parelhas de machos e de mulas que, para além disso, ajudavam na debulha dos cereais. Com menos força do que as juntas, as parelhas, pela sua maior agilidade, eram muito mais rápidas na concretização das mesmas tarefas.

Todos os médios agricultores possuíam pelo menos uma junta de bois ou uma parelha de muares, havendo, um ou outro, que era detentor de mais duas juntas de bois ou de uma junta e uma parelha. Na década de quarenta, calcula-se que deveriam existir, na freguesia, cerca de 25 juntas de bois e um número aproximado de parelhas de muares.

Era costume muitos agricultores levarem as suas juntas de bois às feiras e mercados, não só do concelho, como também dos concelhos vizinhos. Iam mostrar o seu gado e saber novidades do mundo agrícola. Era uma das maneiras de expressar e aferir o seu status social.

Os pequenos e médios empresários agrícolas quando não tinham meios para adquirir uma junta ou uma parelha, compravam apenas um macho ou uma mula ou um ou dois burros. Apenas as famílias muito pobres não dispunham do seu “burrito”. Ainda que menos vulgar, via-se, por vezes, a fazer de parelha, um macho e um burro ou um macho e um vitelo, a puxar um carro ou a lavrar terra, facto que, neste último caso, exigia cangalhas especiais.

Como montada, animais de carga ou de tracção, muares e asininos prestavam aos seus proprietários uma gama multifacetada de serviços. Transportavam produtos e, também os seus donos e/ou familiares para as "fazendas" e para a sede do concelho onde iam cumprir as suas obrigações fiscais, às feiras, aos mercados e ao Hospital, utilizando-se, para o efeito a albarda ou a carroça. No trabalho do campo eram preciosos auxiliares. Puxavam noras, carros, carroças e charretes, transportavam água para beber, das fontes, em cântaros de barro ou folha, com a ajuda de cangalhas e seirões, ajudavam a lavrar e a preparar os terrenos para as diferentes culturas anuais e ainda, contribuíam para o fabrico de estrume.

(Continua)

Escreveu o texto Carlos Bento
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:02
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