Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

O padre-pensionista e a banda excomungada

Realizaram-se este fim-de-semana as festas de S. Sebastião. Abrilhantou as festividades a Banda Filarmónica Mourisquense. Há 83 anos outra banda, a do Rossio ao Sul do Tejo, esteve presente nestas festas, mas, na sequência da sua participação, foi excomungada. Já contámos isso num artigo de 7 de Julho do ano passado. Voltamos a publicá-lo, com pequenas alterações, porque os acontecimentos nele registados merecem ser recordados a propósito das festas de domingo passado.No mês de Maio de 2006 saiu neste blogue um artigo sobre o Pe. Severino Ferreira Sant’Anna e o seu falecimento, ocorrido em 1903. O Pe. Henrique Neves, pároco de Mouriscas, é referido como tendo estado presente no funeral. Ninguém imaginaria então que o Pe. Henrique de Oliveira Neves, natural de Boa Farinha, perto de Vila de Rei, iria ser protagonista duma acesa disputa político-religiosa anos mais tarde. Voltámos a encontrar o Pe. Henrique no artigo “Comício republicano”, de Agosto de 2006. António José de Almeida e outros vultos republicanos fizeram em Mouriscas um comício, em 3 de Fevereiro de 1907. Dentro de dias fará 100 anos! Depois do comício, António José de Almeida foi cumprimentar o Pe. Henriques Neves, que parece ter ficado agradado com a gentileza. Vejamos, então, o que se passou depois com este padre e a história da excomunhão da banda.padre_henrique.JPGPe. Henrique de Oliveira NevesA República, implantada em 1910, tomou várias medidas que desagradaram à Igreja Católica. Para falar de coisas terrenas, foram abolidas ou expropriadas fontes de rendimento dos párocos como as propriedades agrícolas anexas às igrejas ou residências paroquiais. Assim, os padres se encontraram sem condições básicas de subsistência. O novo regime criou pensões para os padres. Claro que um padre que aceitasse a pensão do Estado ficava numa situação de dependência. O Estado esperava dele que, no mínimo, não hostilizasse o novo regime. Era certa a ruptura com a hierarquia, que tinha proibido os padres de aderir às pensões.Na nossa região alguns padres aceitaram, nos finais de 1911, as pensões. Um deles foi o já mencionado o Pe. Henrique. Foi também o único que se manteve padre-pensionista.O Pe. Henrique não podia encontrar nenhuma compreensão por parte do bispo de Portalegre, D. António Moutinho, que tomou posições muito firmes perante as medidas da República. Os superiores hierárquicos do Pe. Henrique retiraram-lhe o poder de exercer funções eclesiásticas, não reconhecendo a validade de missas, casamentos, baptizados e outros actos de culto que viesse a praticar. O Pe. Henrique não abandonou a igreja matriz, onde continuou a exercer as funções de que a hierarquia o tinha privado. O bispo de Portalegre nomeou um novo pároco – o Pe. Nogueira, que realizava os actos do culto na capela do Espírito Santo, nas Ferrarias. Tínhamos agora dois padres em Mouriscas. Os dois têm partidários. Famílias dividem-se. Há violência física e verbal. Esta situação mantém-se durante muitos anos e vai envolver mais dois bispos. Um deles foi D. Manuel Mendes da Conceição Santos, que sucedeu a D. António Moutinho. Confessou ao mourisquense Monsenhor Martinho Lopes Maia ter tido muitas preocupações por causa da disputa de que vimos falando.Algo muito sensacional tem de acontecer em Mouriscas para ser noticiado num jornal de Portalegre. Pois isso aconteceu com uma medida do terceiro bispo de Portalegre envolvido neste caso, D. Francisco Maria Frutuoso, que sucedeu a D. Manuel Mendes da Conceição Santos. Vamos ver o que se passou.No início do ano de 1924, o Pe. Henrique, padre-pensionista há uns bons anos e ainda privado das suas funções, convidou a Filarmónica de Rossio ao Sul do Tejo para tocar nas festas de S. Sebastião. A banda aceitou e o bispo excomungou-a. Os seus membros ficaram proibidos de receber sacramentos e de ser padrinhos até serem absolvidos. A excomunhão desta banda foi levantada em Setembro do mesmo ano de 1924, em face dum apelo, com ameaças e protestos, da respectiva direcção.Felizmente, guerras político-religiosas como esta pertencem ao passado. Podem ser recordadas quase sem emoção, como se tivessem acontecido em tempos e locais muito afastados.Bibliografia consultada: A PRIMEIRA REPÚBLICA EM ABRANTES, de José Martinho Gaspar, Edição Palha de Abrantes, Abrantes
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:26
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