Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Comício republicano

Este artigo foi publicado em 27 de Agosto do ano passado.Estamos a poucos dias de 3 de Fevereiro de 1907. Nessa data, quase há um século, realizou-se em Mouriscas o comício de que fala título. Por isso, foi considerado interessante publicar de novo o artigo. ph_ajalmeida2.jpgAntónio José de AlmeidaEsta barbuda criatura pertence à história de Portugal. Foi antes de 1910 vulto importante do movimento republicano – como deputado, jornalista e orador. Depois foi, além de outras coisas, Presidente da República. Durante os quatro anos do seu mandato presidencial dirigiram o país dezassete chefes de governo, alguns dos quais estiveram à testa de mais de um executivo. O seu nome foi António José de Almeida. Tem uma estátua na avenida de Lisboa com o seu nome. O que fica dito pode ser muito interessante, mas não mereceria uma linha sequer se António José de Almeida não tivesse pertencido à história mourisquense, já que este blogue é dedicado a Mouriscas – a terra e as pessoas com ela relacionadas. Na verdade, António José de Almeida também pertence à história de Mouriscas, pois na manhã do dia 3 de Fevereiro de 1907 – quase há um século – veio fazer um comício a Mouriscas. Noutros tempos ouvia-se dizer que antes de 5 de Outubro de 1910 deslocavam-se a Mouriscas líderes republicanos de Lisboa para propagandear as suas ideias à saída da missa. Aquando duma dessas visitas um mourisquense desconfiado da generosidade das promessas feitas teria dito algo como “o meu burro não ronca pela albarda, mas pela ração”, frase pouco própria para ser usada por gente fina mas que mostra profunda sabedoria. Durante muito tempo esta frase era muito usada em Mouriscas para mostrar desconfiança de certas promessas. Penso que ainda hoje se ouve. Segundo algumas pessoas, essa notável frase teria sido proferida aquando duma visita de António José de Almeida. Também se contava que duma das vezes um orador prometia, como faziam frequentemente os republicanos, “bacalhau a pataco” quando foi interrompido por um dos presentes que perguntou se S. Exa. não podia ir já mandando algum.Não se vêem razões especiais para líderes republicanos da capital virem a Mouriscas. Não era fácil as pessoas deslocarem-se e havia muitas outras localidades onde o número potencial de “conversões” era bem maior. No entanto, pelo menos uma vez, fizeram um comício em Mouriscas e António José de Almeida foi a principal vedeta. Vamos ver o que aconteceu segundo os semanários “Jornal de Abrantes” e “O Abrantes” de 10 de Fevereiro de 1907.Pelas 9 da noite de 2 de Fevereiro de 1907, um sábado, desembarcaram do comboio na estação de Abrantes vultos republicanos de primeira grandeza. Dois deles – António José de Almeida e Bernardino Machado - viriam a ser presidentes da república. Viajaram para Abrantes, onde pernoitaram, com a intenção de fazer na cidade um comício na tarde do dia seguinte. Na manhã seguinte, um lindo domingo de sol de inverno, segundo o semanário “O Abrantes”, António José de Almeida deslocou-se a Mouriscas para falar aos seus habitantes. Fê-lo a pedido do mourisquense Manoel Lopes Esteves. Este homem foi um dos mais assanhados republicanos de Mouriscas. Foi muito falado durante décadas pelo seu envolvimento em vários conflitos. A imagem de N. Sra. dos Matos foi partida por pessoas que assaltaram a capela. O nome de Manoel Lopes Esteves esteve associado a esse episódio.No comício de Mouriscas António José de Almeida foi o principal orador. Talvez as suas qualidades oratórias e tantas e tão belas promessas feitas tenham levado um dos presentes a genialmente afirmar: “o meu burro não ronca pela albarda, mas pela ração”. António José de Almeida afirmou também que a República não era contra a Igreja ou contra os padres, o que mostra que sabia onde estava a falar; diga-se, aliás, que tais palavras estiveram de harmonia com o seu comportamento posterior. Em coerência com tais afirmações, foi depois cumprimentar o pároco, Padre Henrique Neves, que segundo o “Jornal de Abrantes” ficou cativado com a gentileza. Este padre viria a aceitar uma pensão do Estado em 1911, o que deu origem a um conflito político-religioso em Mouriscas que durou à volta de vinte anos. Lembram-se do artigo “O padre-pensionista e a banda excomungada”, de Julho passado?De Mouriscas os visitantes republicanos foram para Abrantes, onde à tarde participaram noutro comício. À noite realizou-se um banquete. Houve numerosos brindes, um deles do já referido Manoel Lopes Esteves, em nome dos correlegionários de Mouriscas. Só outra freguesia do concelho – S. Miguel do Rio Torto – teve um brinde semelhante. Material consultado: Primeiras e segundas páginas dos semanários “Jornal de Abrantes” e “O Abrantes” de 10 de Fevereiro de 1907, transcritas no livro “ABRANTES – 1916. Processo de elevação a cidade”, editado em 1992 pela Câmara Municipal de Abrantes, da autoria de Isabel Cavalheiro e Eduardo Campos e prefaciado pelo Dr. Humberto Pires Lopes, mourisquense então presidindo ao município. João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:30
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