Terça-feira, 19 de Dezembro de 2006

Monsenhor Martinho Lopes Maia (3)

mons_maia-3.jpg(Continuação)Vimos no fim do último artigo que em 1916 Monsenhor Lopes Maia terminou o curso de Direito na Universidade de Coimbra. Desenvolvia então múltiplas actividades em Elvas – padre, professor, capelão militar. Outras lhe estavam reservadas, como vamos ver.No plano político, as coisas tinham de algum modo acalmado, centrando-se mais as atenções no desenvolvimento das hostilidades da l Grande Guerra. A carreira militar continuava e o Dr. Martinho Lopes Maia iniciava mais uma carreira – a de advogado –, que acumulava com todas as outras. Mas mais! Como homem dinâmico, versátil e empreendedor, dotado de sólidos conhecimentos de Teologia, Letras, Direito Canónico e Direito Civil, fundou e iniciou a publicação de uma revista – a Revista de Direito Canónico que teve expansão e sucesso até à extinção, nos anos 30, quando Monsenhor Maia foi afectado por uma grave crise de fígado. A Revista foi também implementada por dois arcebispos de Évora: D. Augusto Eduardo Nunes e D. Manuel Mendes da Conceição Santos e pelo escritor e político António Sardinha.Tanto no múnus sacerdotal como em todas as outras actividades que exerceu, Monsenhor Martinho Lopes Maia deixou bem marcado o seu distinto cunho pessoal, a par de um notabilíssimo desempenho.Como professor, era indiscutivelmente o mais sabedor e competente de todos os que leccionavam no Colégio Elvense. A sua simples presença impunha-se para que as aulas, naquele estabelecimento onde com frequência reinava a indisciplina, decorressem em silêncio e com a devida atenção dos alunos.Como militar, o capelão Martinho Lopes Maia deixou um rasto de prestígio e de saudade. Pelos seus dotes intelectuais e de oratória, era sempre encarregado de representar o Quartel em discursos oficiais e de protocolo. Muitos anos depois o Conselheiro Manuel Lopes Maia Gonçalves, sobrinho-neto de Monsenhor Maia, contactou, quando exerceu as funções de delegado do Procurador da República em Elvas e Tomar e de relator no Supremo Tribunal Militar, militares que recordavam o seu tio com saudade e admiração. Também na advocacia, o Dr. Martinho Lopes Maia foi um notável causídico, com repetidos sucessos e proveitosos proventos. O Professor Matias Lopes Raposo, um outro mourisquense a quem tanto ficámos a dever, possuidor de uma veia poética pouco conhecida, dedicou-lhe em 1959 um soneto-perfil em que, além de outros, versou os seus dotes de advogado. É do seguinte teor: Nasceu em Mouriscas este doutorQue no Direito foi muito afamadoUsufruiu o título de MonsenhorQue pelo Santo Padre lhe foi dado. Foi também competente professor Em Elvas estabeleceu colégioVeio de baixo, do povo, este SenhorE não da nobreza, do privilégio. Por isso, subiu e foi um valorQue de todos se tornou conhecidoDe certa Revista foi director. E no combate foi sempre temidoPorque a sua clava de lutadorO inimigo deixava aturdido.Quando o Conselheiro Manuel Lopes Maia Gonçalves exerceu funções no Supremo Tribunal de Justiça como magistrado do Ministério Público e como juiz conselheiro, nos primeiros anos relacionou-se estreitamente com condiscípulos do Dr. Martinho Lopes Maia, designadamente com os conselheiros Silva e Sousa, Avelino Moreira e Amílcar José Ribeiro. Todos muito bem dele se recordavam, tanto mais que era o único sacerdote daquele curso, salientando sempre a sua distinta figura. E na celebração dos quarenta anos de formatura, realizada em Coimbra em 22 de Junho de 1956, o condiscípulo Martinho Lopes Maia não faltou, ficando na fila da frente, em lugar de destaque, na fotografia da praxe.Nos anos 20 um jornal de Elvas inseriu uma caricatura de Monsenhor Maia focando toda a sua versatilidade, incluindo a de jogador de cartas.Em 1 de Setembro de 1950 Monsenhor Martinho Lopes Maia celebrou em Mouriscas as suas bodas de ouro sacerdotais, a que se associaram os mais notáveis dos seus conterrâneos, o regedor e a Junta de Freguesia. Presidiu às celebrações Dom Manuel Mendes da Conceição Santos, arcebispo de Évora. Sem que o alardeasse, Monsenhor Martinho Lopes Maia muito fez pela sua terra. Com dificuldade e muita persistência, convenceu seu sobrinho Dr. João Gualberto Santana Maia bem como o sogro deste, Professor Matias Lopes Raposo, a, na sequência do curso de formação de ferroviários, então por vezes conhecido como universidade ferroviária, fundarem um colégio, manifestando-lhes vivamente a ideia de que o futuro era mais para quem tivesse habilitações do que para quem continuasse a dedicar-se à pequena agricultura, já então em franca decadência. Sabe-se que o Colégio Infante de Sagres teve um impacto extremamente positivo na vida de Mouriscas e de muitos dos seus habitantes. Monsenhor Martinho Lopes Maia – um mourisquense que merece ser conhecido ou recordado. Foi brilhante o seu percurso pessoal. Sem a sua acção poderiam ter sido bem diferentes a história de Mouriscas e a de muitos mourisquenses. Texto elaborado com base em apontamentos redigidos pelo Conselheiro Manuel Lopes Maia Gonçalves, sobrinho-neto de Monsenhor Martinho Lopes Maia.
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:52
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