Terça-feira, 21 de Novembro de 2006

Mau tempo em Macau (4)

(Continuação)largo_senado.jpgLargo do Senado - MacauAs conversações com os chineses lá vão decorrendo. Será que as partes vão encontrar uma saída airosa, um desfecho em que ninguém pareça humilhado? No dia 16 de Agosto, voltaram a deslocar-se à China Ho Yin e Ma Man-kei. Era a sexta vez que o faziam. Um outro sinal de que a China pretendia resolver a questão, observou-se no dia 18 de Agosto, quando a sua bandeira foi içada na parte chinesa das Portas do Cerco, mas no dia 20 houve nova reunião sem haver progressos nas negociações. Nestas reuniões os principais representantes de Macau foram por Ho Yin e Ma Man-kei. Parece que inicialmente os negociadores chineses mantiveram uma forte intransigência, exigiram da administração portuguesa a apresentação pública de desculpas e uma indemnização elevada pelos danos causados durante o conflito. Lisboa rejeitou as condições chinesas e, por isso, as negociações caíram num impasse. Numa tentativa para ultrapassar a situação, Pedro José Lobo, Director da Repartição Central dos Serviços Económicos, deslocou-se a Gongbei para negociar com representantes chineses. Desde o início das negociações, ele teve a nítida percepção de que os chineses estavam ansiosos por uma solução aceitável e que o único problema era achar uma solução em que não se perdesse a face. Após dezassete reuniões, a solução encontrada foi a de que Pedro José Lobo deveria apresentar o seu pesar pessoal pela ocorrência dos incidentes, não comprometendo, porém, a administração portuguesa de Macau. Extraordinária e brilhante solução!!! Também houve acordo sobre as indemnizações, em que os chineses não se mostraram muito exigentes.Assim, o mais discretamente possível, com o mínimo de alarido, as duas partes chegaram a um acordo. K. R. Oakeshott, do Departamento do Extremo Oriente do Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico), escreveu então que os chineses consideravam Macau útil e tinham chegado a um acordo secreto sobre materiais estratégicos. Tenha ou não havido acordo secreto, o que é certo que Salazar pediu e conseguiu dos seus aliados um regime especial para Macau nas suas transacções comerciais com a China.Quando o primeiro-ministro chinês, Chu En Lai, visitou Moscovo em Setembro de 1952, o conflito foi abordado na conversa com Estaline, o líder da União Soviética. Isto mostra bem as repercussões do que em 1952 se passou em Macau. Parece que neste conflito ganharam todas as partes envolvidas – a China, Portugal, Macau, Joaquim Marques Esparteiro, a elite sino-macaense. Esta reforçou tanto o poder que já tinha que conseguiu atrasar durante vários anos a moralização que Joaquim Esparteiro queria introduzir no comércio do ouro. Neste mundo são raros os jogos em que todos ganham sem alguns perderem alguma coisa. São raras as vitórias completas.Joaquim Esparteiro continuou em Macau até 1957, com tempo mais bonançoso, mas só em 1954 conseguiu a libertação do capitão preso no início dos incidentes. É pena que Joaquim Marques Esparteiro e o seu chefe de gabinete, o também mourisquense Abílio de Oliveira Ferro, não tenham escrito as suas memórias dos incidentes de 1952 em Macau. Tinham tanta coisa de interesse para contar! Esta série de artigos baseou-se no texto “OS INCIDENTES DAS PORTAS DO CERCO DE 1952: o conflito entre os compromissos internacionais e os condicionalismos locais”, da autoria de Moisés Silva Fernandes. A edição é doInstituto de Ciências Sociais Universidade de Lisboa.Leiam este texto, que vale a pena. Pode ser descarregado do endereço seguinte: http://www.ics.ul.pt/publicacoes/workingpapers/wp2005/wp2005_2.pdf
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:31
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