Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006

Mau tempo em Macau (2)

(Continuação)Vimos no artigo anterior como os chineses ficaram descontentes com as restrições às exportações de Macau para a China, postas em prática em 1952, no começo do governo do mourisquense Joaquim Marques Esparteiro, oficial superior de marinha com uma brilhante folha de serviços. Prova disso foram a reunião hostil a Portugal de altas personalidades e a prisão dum capitão português que teria segundo os chineses entrado nas suas águas. No entanto, a administração de Macau e o governo de Lisboa mostraram-se firmes na aplicação das novas regras. Como resultado, os incidentes junto às Portas do Cerco, que se verificavam há meses, intensificaram-se em Maio, levados a cabo pelas sentinelas chinesas. A foto seguinte é das Porta do Cerco. É do tempo da administração portuguesa, vendo-se dum lado uma bandeira portuguesa e do outro uma chinesa, vermelha e com estrelas douradas. Dum e doutro lado havia uma sentinela.portas_do_cerco.JPG O Ministro do Ultramar visitou Macau em Junho. Antes da visita as provocações passaram a ser feitas por crianças que atiravam pedras às sentinelas portuguesas. Durante a visita ministerial as provocações voltaram a ser do exército chinês.Joaquim Esparteiro tinha de enfrentar o descontentamento da China e o da elite sino-macaense. Tentou esfriar os ânimos com a passagem da fiscalização das exportações para a tutela conjunta da comissão que tinha sido criada para esse efeito e da Repartição Central dos Serviços Económicos, que se dizia dominada pela elite sino-macaense, favorável aos interesses da China. No entanto, o descontentamento continuou. Houve novos incidentes, com troca de tiros e bastantes baixas chinesas. Como resultado, cessou o abastecimento de víveres a Macau, tendo a China imposto um bloqueio às trocas comerciais e às comunicações terrestres, fluviais e marítimas. Estávamos a 25 de Julho de 1952. Não há dúvida – Joaquim Marques Esparteiro está em grandes dificuldades. Como sairá desta situação?Seguiram-se manobras de intimidação de vários tipos por parte dos chineses, incluindo a ameaça de pedido de pesadas indemnizações.Houve mais violência, mas em 29 de Julho cessou praticamente o conflito armado. Subsistia no entanto, o bloqueio a Macau e muita tensão e medo na população. Joaquim Esparteiro tentou estabelecer pontes de comunicação com os chineses com o auxílio do governo da colónia britânica de Hong Kong, mas não teve êxito. Também Salazar procurou auxílio da parte dos ingleses, que tinham relações diplomáticas com a China, mas as suas diligências não tiveram resultados. Joaquim Esparteiro, a braços com uma situação difícil, tinha de fazer alguma coisa e pensou numa solução local. Com muita dificuldade conseguiu que os chineses concordassem com uma reunião. No dia 1 de Agosto de 1952 enviou a Gongbei uma delegação da administração portuguesa de Macau, constituída por Ho Yin, Ma Man-kei, Chü Chi-ping e Kwok Siu-kan a Gongbei com o fim “de restabelecer as comunicações e abastecimentos indispensáveis à vida desta Província”. A reunião com os representantes chineses durou duas horas e meia, tendo a delegação da elite chinesa de Macau afecta a Pequim regressado ao enclave com as três seguintes condições:1) pedirmos desculpa por um soldado nosso ter pisado o seu território na fronteira, o que deu lugar, segundo a sua versão, aos incidentes; 2) abandonarmos a faixa de terreno considerado neutro na fronteira; e 3) compensarmos as vítimas e estragos causados pelas nossas acções militares. O governador Esparteiro discordou das reivindicações por não condizerem com o relatório do comando da guarnição militar portuguesa, mas poderia recusá-las na situação que se vivia em Macau?Veremos em outro artigo o seguimento desta história, que daria um grande filme ou romance. (Continua) Origem da foto: http://www.msmartins.com
publicado por João Manuel Maia Alves às 11:22
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