Terça-feira, 17 de Outubro de 2006

Mau tempo em Macau

pal_gov.JPGPalácio do governo de Macau O ilustre mourisquense Almirante Joaquim Marques Esparteiro foi governador de Macau entre 1951 e 1957. Passou momentos difíceis no pequeno território. Disso vamos tratar, mas primeiro falemos um pouco da situação de Macau. Em 1946 o Cônsul Geral dos Estados Unidos em Hong Kong solicitou autorização para dois hidroaviões utilizarem o porto exterior de Macau para, durante dois dias , treinarem pilotos no salvamento de náufragos. Salazar escreveu então: “Parece-me de autorizar mas os chineses franzirão o sobrolho”. Pode ler-se na página 188 de “Salazar e Caetano – Cartas Secretas – 1932-1968”, de José Freire Antunes, edição do Círculo de Leitores. De harmonia com a constituição de 1933, Macau fazia parte de Portugal. Porém, era limitada a soberania portuguesa sobre o território, aliás nunca reconhecida por qualquer documento oficial chinês. Macau recebia da China os alimentos que consumia. O pequeno Portugal tinha de ser muito cuidadoso no trato com o gigantesco vizinho.Em 1949 foi instalado na China um regime comunista com o qual Portugal não tinha relações diplomáticas. Portugal era aliado de países hostis à China, contra a qual tinham decretado um embargo comercial. Alguns destes países e certa imprensa internacional diziam que Macau vendia à China produtos incluídos no embargo e que, portanto, Portugal era desleal aos seus aliados e compromissos. Por causa de denúncias da violação do embargo, Macau teve a visita do vice cônsul-geral dos EUA em Hong Kong com o intuito de fiscalizar o funcionamento dos sistemas e saídas de óleos combustíveis e gasolina usados no território. A visita aconteceu em Maio de 1951, uns seis meses antes da posse de Joaquim Esparteiro. De acordo com um relatório secreto americano elaborado depois, era evidente para quem o redigiu que o governador e seus colaboradores escondiam o facto de que negociavam com a China em materiais estratégicos e que achavam conveniente colaborar com os chineses para a manutenção do estatuto de Macau.Face a fortes críticas internacionais, Portugal sentiu-se obrigado a agir de acordo com os compromissos do país. Foi criada legislação que estabelecia que produtos não se podiam exportar para a China. Foi também criada uma comissão de controle confiada a uma entidade independente da elite sino-macaense. A elite sino-macaense era um pequeno grupo de destacados macaenses e chineses residentes em Macau com muito poder e influência e que mediavam entre os interesses de sucessivos regimes chineses e portugueses. No decénio de 1950, esta elite era constituída na parte macaense pelo timorense Pedro José Lobo, ligado pelo casamento a uma iluste família macaense e Director da Repartição Central dos Serviços Económicos, e por destacados dirigentes da Associação Comercial Chinesa de Macau como Ho Yin e Ma Man-kei. Ho Yin viria a ser escolhido por comum acordo pela administração portuguesa e pela China, em meados do decénio de 1950, para representar Macau em Pequim, cargo que desempenhou até morrer, em 1983. Macau – estranha terra …Estávamos em Janeiro de 1952. Joaquim Marques Esparteiro era governador desde Novembro do ano anterior. Para seu chefe de gabinete tinha escolhido outro mourisquense, seu primo em segundo grau – o jovem capitão de cavalaria Abílio de Oliveira Ferro, filho de Jesuvino Ferro, durante muitos anos figura de relevo em Mouriscas. Cabia a Abílio Ferro coordenar as pessoas directamente dependentes do governador. A legislação foi enviada ao governador Esparteiro para publicação na imprensa oficial de Macau. O Ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, instruiu Esparteiro a discretamente contactar a elite macaense e dizer-lhes para não ficarem alarmados com o que ia ser publicado. A legislação foi publicada e o novo organismo, a Comissão Coordenadora de Comércio, tomou posse. Alguns ficaram contentes. Pensaram que Pedro José Lobo e o resto da elite sino-macaense iam deixar de controlar as exportações para a China. No entanto, Joaquim Marques Esparteiro deu instruções escritas secretas aos membros da comissão, mandando-os manter uma íntima colaboração com Pedro José Lobo, pois “tem larga experiência do assunto e cujas indicações e conselhos lhe podem ser muito proveitosos” e porque considerava os seus apoios “indispensáveis para a boa marcha dos trabalhos da Comissão”. Claro que a China não ficou contente com a legislação nem com as restrições ao que Macau lhe vendia. Alguns dirigentes terão pensado que Portugal e Macau precisavam dum correctivo. As autoridades chinesas deram dois sinais inequívocos do seu estado de espírito Em 5 de Fevereiro de 1952, o governador Esparteiro informou Lisboa duma reunião sobre Macau em Cantão, com a presença de altas personalidades. Alguns dos presentes defenderam atitudes hostis contra a administração portuguesa de Macau por esta e Portugal alinharem com inimigos da China. Os dois representantes da elite chinesa de Macau defenderam que nada deveria ser feito contra o território. Um deles fazia parte da organização regional de Macau do Partido Comunista da China. O segundo sinal observou-se com a detenção dum capitão português, chefe dos serviços de informações do comando da guarnição militar, em 22 de Março de 1952, quando, segundo os chineses, entrou com o seu barco em águas da China. Não se adivinham tempos fáceis para os mourisquenses Joaquim Marques Esparteiro e Abílio Ferro. Por mais optimista que se seja, aparecem-nos como protagonistas duma história sem final feliz.(Continua) Origem da foto: http://www.msmartins.com
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:12
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