Quarta-feira, 2 de Agosto de 2006

Mouriscas e o azeite

lagar.JPGA população de Mouriscas sempre teve a sua actividade centrada na agricultura de pequena dimensão, baseada na mão de obra dos próprios donos das terras e dos seus familiares. Os produtos desta actividade eram utilizados no consumo das famílias e dos seus animais e, em certos casos, os excedentes constituíam uma fonte de rendimento muito importante, que permitia satisfazer necessidades fundamentais, como o vestuário, as obras nas habitações, a educação dos filhos e outras.Constituíam pois fontes de rendimento o azeite, os figos, os pinheiros, produtos hortícolas, vendidos à porta e na praça, os cereais, como o milho e o trigo, e ainda alguns animais, sobretudo os porcos e os cabritos, que eram engordados com base nos produtos da terra.Da produção própria, era o azeite, sem qualquer dúvida, aquele que melhores rendimentos assegurava, dada a sua qualidade, e o seu elevado valor no mercado como consequência dos bons hábitos alimentares dos Portugueses. Por esta razão o estado das oliveiras, a bondade do ano de azeite e o seu preço eram sempre factores de interesse e de discussão por influenciarem a economia familiar, permitindo ou não fazer as compras necessárias. Algumas vezes tinha de haver um adiamento das compras, por ter sido um mau ano de azeite. Era até costume verificar se na noite de Natal o céu estava estrelado, o que era indício de um ano promissor de azeitona.A produção do azeite, desde a apanha da azeitona e o seu transporte até ao lagar, o fabrico, e a venda do que excedia o consumo próprio ocupavam as pessoas residentes em Mouriscas durante algumas semanas no final de cada ano.A apanha da azeitona é uma tarefa que necessita de muita mão de obra e, mesmo hoje em que, fruto do desenvolvimento tecnológico e da necessidade de aumentar a produção já existem algumas máquinas, ainda não foi possível dispensar uma boa parte dessa mão de obra. Para executar essa tarefa, existiam os “ranchos“, que eram grupos de homens e mulheres, ou da terra ou de outras localidades, normalmente recrutados pelos donos dos lagares e que iam apanhar a azeitona das várias pessoas, a qual era transportada pelo próprio dono do lagar onde era moída. Os donos dos lagares conseguiam assim captar clientes, pelo facto de disporem de um rancho. Recordo-me de, por volta do ano de 1952, os homens do rancho ganharem vinte escudos por dia e as mulheres dez. Este trabalho durava algumas vezes até fins de Janeiro se o ano era bom, mas também não chegava ao Natal, quando era fraco. No final da época havia normalmente as “filhós” do rancho, que constavam de um cortejo, desde o último olival, normalmente do patrão, até à casa deste, com um acordeonista em alguns casos, e os homens, rapazes, mulheres e raparigas a cantar canções populares. Havia depois um jantar e bailarico até às tantas. Tudo isto era bem “regado”, sobretudo quando a ano era produtivo, com vantagens para todos, patrão e trabalhadores.Após a entrada da azeitona no lagar, nova etapa do processo se iniciava, a sua moedura . Esta fase, uma vez que a capacidade produtiva dos nossos lagares não era satisfatória nos anos de grande produção, gerava alguma pressão junto do mestre, por parte dos clientes, no sentido de acelerar a sua moedura, pois que não era aconselhável a permanência da azeitona muito tempo no lagar. Mas chegada a sua vez, lá entrava no moinho e se iniciava o fabrico do azeite, com a moedura, a passagem para os capachos, que eram colocadas em pilha nos carros e depois apertados nas prensas. Durante a aperto, o enseiramento, nome que era dado a uma pilha de capachos com a massa, tinha que ser guiado no carro, com umas trancas de madeira, fazendo de alavanca contra as colunas da prensa, para manter o alinhamento vertical do enseiramento pois que pelo facto de a massa da azeitona, com o azeite, ser muito escorregadia, havia a tendência para a pilha entortar. O aperto era lento para assim escorrer o máximo de azeite, o que era facilitado através de várias regas das seiras com água muito quente, arrastando assim o azeite, que escorria para o carro e depois, através de um tubo feito de pano, era conduzido através de uma caleira ou tubo para as tarefas. A rega era feita ou com um regador, ou em alguns casos, por um tubo circular com muitos furos, montado no tecto da prensa, o qual recebia a água da caldeira.(Continua)Alberto Grossinho
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:37
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