Terça-feira, 20 de Junho de 2006

Manuel Lopes Valente Júnior

Retrato de memória

 

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Nasceu em Mouriscas, mas foi nas Hortas (Alferrarede) e no Rossio de Abrantes que passou a maior parte da sua vida.

Nas Hortas foi proprietário de uma fábrica de adubo, que funcionava onde mais tarde foi construída a casa do Dr. Vasco, e no Rossio, no primeiro terço da estrada do Pego, teve uma quinta, hoje em estado degradado, onde viveu até à morte.

Foi membro do Partido Democrático, pelo qual foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Abrantes antes da implantação do Estado Novo. Durante a sua presidência Abrantes foi elevada à categoria de cidade, sendo especialmente relevante a sua acção na construção de edifícios escolares, entre os quais a antiga escola primária de Mouriscas, onde aprendemos, mais tarde, o bê-á-bá das primeiras letras.

Era especialmente conhecido pelos ideais democráticos que sempre defendeu. Figura singular, caracterizada fisicamente pelas pilosidades que usava sobre o queixo e que lhe valiam a alcunha de o "Peras do Rossio".

Era primo do meu avô Francisco Lopes Valente, das Casas Novas, e muito amigo do meu pai, que para ele trabalhou nas Hortas e no Rossio. Algumas vezes o visitei, na companhia de meu pai, na sua casa do Rossio. As conversas versavam sobre o amanho da quinta, mas acabavam sempre sobre a política ou não-política e o Estado Novo. O meu pai não tinha habilitações académicas mas escrevia e lia como poucos e, apesar da sua humilde condição económica, comprava amiúde o jornal "O Século", que eu ia buscar à estação, ao comboio das 10, pelo preço de oito tostões. Tinha alguma simpatia pelos "camisas negras", movimentio anarquista de direita, que tinha no Dr. Rolão Preto um dos mais altos expoentes. Aliás, o meu pai era amigo e visita domingueira clandestina, nos invernos lagareiros na Beira Beixa, da casa de Rolão Preto, onde também adquiriu alguns números do jornal “Revolução".

Como se depreende, a conversa política em casa do "Peras" não era própriamente primária. Numa dessas conversas, na verdura dos meus quinze anitos, depois de iniciada a guerra do Ultramar, defendia eu a necessidade da guerra para garantir a integridade da Pátria, do Minho a Timor. Deixou-me falar, expôs as razões por que discordava da guerra, explicando que as guerras são actos irracionais, onde os interesses de alguns se sobrepõem aos interesses da maioria e onde os filhos do povo são sempre carne para canhão, ficando os filhos dos senhores da guerra sempre fora da peleja e acabou com uma máxima que me marcou para sempre e continua hoje prenhe de actualidade: "Olha meu filho, morrer pela Pátria é muito lindo, mas quem por ela morre nunca mais a vê...!”

Sobreviveu ao dia 25 de Abril de 1974 e foi no Partido Socialista, enquanto herdeiro dos ideais do Partido Democrático, que se ancorou politicamente. Na hora da sua morte quis ser sepultado na terra que o viu nascer, Mouriscas, em cujo cemitério repousa. O túmulo encontra-se perto do corredor central e a um nível inferior, à direita quando se entra. Destituído de qaisquer símbolos religiosos, tem, muito ao gosto dos republicanos de outras eras, uma tocha e a divisa “Paz e Liberdade”.

Agradeço-lhe o favor de ter sido meu amigo, de me ter ajudado a formar como homem, de ter sido um dos meus mestres de referência no caminho da cidadania.

Josué Carlos Marques Valente

publicado por João Manuel Maia Alves às 10:28
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