Quarta-feira, 26 de Abril de 2006

Padre Severino Ferreira Sant’Anna

Padre Severino.jpgEm 26 de Outubro de 1903 faleceu em Alvega o Pe. Severino Ferreira Sant’Anna, um ilustre mourisquense. Era filho de António Ferreira Sant´Anna, nascido em Alagoa, freguesia do concelho de Portalegre e de Luiza Lopes, do Cabeço do Alconde, então pertencente à freguesia de S. João, do concelho de Abrantes. A este casal e seus descendentes este blogue dedicou uma série de artigos com o título “Santanas”, escritos por Augusto Maia Alves, ele próprio descendente em sexto grau.Neste artigo e no próximo reproduzimos a notícia da morte da morte do Pe. Severino Ferreira Sant´Anna saída no número de 1 de Novembro de 1903 do jornal “Echo do Tejo”, que se publicou em Abrantes. Mantemos a ortografia usada na redacção da notícia.A fama de pregador do Pe. Severino Severino Ferreira Sant’Anna perdurou em Mouriscas durante várias décadas. Vejamos então o artigo do “Echo do Tejo”. Pe. SEVERINO FERREIRA SANT´ANNAAinda se não esvairam as lagrimas com que a população alveguense, n'uma homenagem collectiva, orvalhou a campa que vedou para sempre aos olhares do mundo a figura insinuante de bondade do seu pastor espiritual; ainda aquelles mesmos que o viram a caminho do tumulo descrêem n'uma realidade tão pungente, como se a morte não tivesse demonstrado por mais de uma vez que tambem os justos são victimas do seu genio destruidor.Nada a demove dos seus propositos: nem as supplicas dos que vêm sumir-se na escuridão do tumulo a mão protectora que lhes mitigava as miserias, nem os gritos lacrimosos dos que vêm transpor as fronteiras da eternidade uma alma que se abria para compartilhar dos soffrimentos alheios, nem ainda a tristeza solitaria d'aquelles que ficam privadas dos seus conselhos proficuos. Ella passa e não escolhe. Arrasta adiante de si com a mesma incomplacencia os proprios que se nos afiguram mais dignos de ser poupados.E victima d'esta fatalidade lá foi no dia 27 caminho do tumulo, seguido de um cortejo de lagrimas e de um côro de suspiros o parocho da freguezia de Alvega. Humilde, compassivo, caridoso e dedicado ao seu rebanho a ponto de lhe sacrificar os interesses materiaes, a saude e até a vida, o Pe. Severino, que nasceu para o sacerdocio e morreu pelo sacerdocio, é um dos mais perfeitos prototypos que conhecemos dos pregadores da doutrina de Jesus.Aos seus superiores dotes moraes, aliava os requisitos physicos do bom orador sagrado.Dotando-o de um figura insinuante, d'uma voz agradabilissima e d'uma constituição robusta, quiz a providencia reunir n'elle as qualidades do bom padre chamado ao desempenho do espinhoso ministerio evangelico.Mas tudo isso desappareceu para só nos restar do conhecido Pe. Severino a recordação saudosa de um amigo sincero e bom, e difficilmente substituivel.O P.c Severino Ferreira Sant'Anna nasceu na Quinta de Santo António, nas Mouriscas, hoje pretencente a um sobrinho do finado, a 17 de novembro de 1832. Seu pae, Antonio Ferreira de Sant’Anna, homem piedoso e digno de um tal filho, dedicou-o á vida ecclesiastica e encontrou no joven Severino uma vocação capaz de realisar a sua vontade. Aproveitou-a e mandou-o para a Certã onde estudou a lingua latina que traduzia com facilidade e correcção. D’ahi foi para Castello Branco hospedando-se em casa da familia Pina das relações do pae do joven estudante. Foi na capital da Beira Baixa que cursou Rhetorica, Logica e Theologia.Aos 21 annos tinha concluido o curso eccleciastico, e durante o tempo que mediou até á recepção da ordem de presbytero fez a sua entrada na oratoria sacra.Começaram então os seus triumphos. Quando ainda diacono, foi convidado pelo vigario geral para prégar um sermão de responsabilidade na sé de Castello Branco, sermão que nenhum dos muitos ecclesiasticos da cidade quizera acceitar. Acceitou-o o Pe. Severino, e foi então que elle se consagrou como orador bem acima do trivial.Assistiram as autoridades ecclesiasticas, militares, judiciaes, e administrativas, e todos, mesmo os que não o conheciam, deram os parabens ao prégador e o incitaram a continuar o munus da prégação. Ainda não conhecemos ninguem que melhor reflectisse no rosto a emoção correspondentente ás expressões que pronunciava. O tom de convicção que imprimia nos discursos, a elegancia da voz, a clareza dos pensamentos, a robustez physica e o conhecimento da escriptura, tornaram-no orador de qualidades não vulgares. Chegou a pregar os sermões de cada domingo da quaresma em Abrantes, Alvega e Mouriscas.Aos 23 annos ordenou-se de presbytero e celebrou a sua primeira missa com grande pompa em janeiro de 1856. Estava vivendo no lar paterno, verdadeiro sanctuario de harmonia e dizia missa ao domingo nos Casaes, quando se impossibilitou o Pe. Luiz Bello, então cura de Alvega e o joven presbytero foi nomeado coadjuctor do parocho impossibilitado.Não foi sem que vertesse muitas lagrimas que elle, em novembro do mesmo anno, deixou os dois velhos venerandos que extremecia. Só o consolava a esperança de que em breve voltaria ao lar paterno. Não succedeu assim. Em Alvega começou convivendo com a fidalga e religiosa familia Azevedo, da Quinta do Pombal, e tão extremecido se tornou d'ella, que não havia festa intima em casa para que o novo parocho não fosse convidado. Pouco tempo depois fallecia o cura Luiz Bello e não decorreram muitos mezes sem que na parochia se realisasse a collação [Nota: collação, colação na ortografia actual, significa nomeação para cargo eclesiástico] do Pe. Severino pela influencia de João Azevedo.Em Alvega se demorou até á morte. Casou alguns parochianos de quem baptisou bisnetos.Podia elle ter passado para outra parochia em que auferisse mais avultados proventos, porque para isso lhe não faltaram instigações, mas de tal modo se afeiçoou ao seu rebanho, que nunca mais o abandonou. Os 47 annos da sua vida parochial, passou-os em Alvega, empregando sempre a sua palavra autorisada a favor da harmonia entre os seus parochianos e esforçando-se por mantel-os no caminho da rectidão e do bem Quantas vezes elle exerceu a sublime virtude da caridade, deixando esmolas debaixo do travesseiro dos enfermos pobres a quem ia ministrar os soccorros espirituaes, quantas discordias terminou com a sua palavra conciliadora, quantas lagrimas apagou com os seus conselhos de resignação e de esperança. Que o digam aquelles que viveram perto d’elle, ou que o chamaram nas horas da desventura.(Continua)
publicado por João Manuel Maia Alves às 18:31
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