Quarta-feira, 12 de Abril de 2006

Tonho Teso

Natural de Longomel, perto de Ponte de Sor, segundo alguns, ou de Seia, na opinião de outros, Tonho Teso, viveu largos anos na nossa freguesia, no lugar da Carreira. Nas décadas de quarenta e cinquenta exercia uma actividade muito útil para as donas de casa, sobretudo na área dos casais mais próximos da sua residência, sendo estimado por toda a gente

Andava de casa em casa, trazendo às costas a sua mala da ferramenta construída em madeira. Punha gatos em alguidares e outros utensílios de barro que se encontravam partidos, consertava sombrinhas, afiava facas e tesouras e fazia outros pequenos consertos do tipo dos referidos. Na sua mala havia de tudo: ferramentas, arames, a célebre lata da “coina”, a sua “ piorra” e outros materiais que usava nos seus trabalhos.

Os gatos que colocava para reparar as peças de barro eram feitos de arame esbatido à martelada sobre uma peça de ferro tipo bigorna. Tinham mais ou menos cinco centímetros, consoante o tamanho da peça a reparar e com as pontas dobradas, para entrarem nos furos, e manter, assim, as duas partes da peça apertadas. Os gatos eram depois envolvidos por uma cola feita pelo próprio, a que chamava “coina” pois que o Tio Tonho Teso, tinha alguma dificuldade em pronunciar os eles e os erres.

Para abrir os furos no barro utilizava um engenho muito interessante a que chamava “piorra”, o qual se poderá considerar o antecedente do berbequim. Constava de um eixo em madeira com uma “ broca” na ponta (feita de uma vareta de sombrinha, por ser de aço, afiada em forma de cunha) e uma bola, em forma de pião, que servia de volante para imprimir mais força ao movimento. Tinha ainda um fio, colocado em forma de V invertido, que era fixado no outro extremo do eixo, a meio, e com as duas pontas presas nos extremos de uma barra furada para passar o eixo. A força era exercida pela mão na barra, para baixo e para cima, enrolando e desenrolando o fio e provocando um movimento rotativo alternado da broca que lá ia abrindo o furo. Ao furar o barro, ia dizendo: “zuca catatumba, zuca catatumba”.

O Tio Tonho Teso tinha as suas manhas, pois, quando não lhe apetecia trabalhar, dizia para as pessoas: “ hoje não, não tenho coina, não tenho vagá, já agóa fica p`outo dia”.

O custo dos seus trabalhos também era quase sempre o mesmo - “ dez tostões”, fosse qual fosse o número de gatos.

Gostava de brincar com os miúdos e fazer-lhes as suas ofertas, os seus célebres anéis, feitos também em arame achatado, ao qual era dada a forma redonda através de umas formas de barro que tinha.

E também gostava de passear com o seu amigo “ Zé da Varge”, José da Várzea, que era pedreiro de paredes de pedra seca e especialista em fazer fornos. Quando passeavam em Lisboa, onde se deslocavam de comboio, o Tio Tonho Teso costumava dizer ao amigo, com a sua pronúncia típica: “ Zezito da Varge, não olha pa tás nem pá fente , senão vem o polícia e pende a gente”.

Vivia só, mas tinha as suas galinhas, e quando se referia a elas dizia “ as minhas galinhas comem tudo o que lhe deito, comem toucinho conuno (cru), comem pele de faneia (farinheira), comem tudo o que lhe deito. Acabou por morrer também sozinho, tendo sido encontrado já sem vida pelos vizinhos na casa onde morava.

Ainda hoje as pessoas mais velhas que utilizaram os seus serviços referem a falta de um Tonho Teso para fazer aqueles pequenos arranjos que já não há quem os faça.

Procurou-se transcrever duma forma o mais fiel possível os termos e as frases utilizados pelo Tio Tonho Teso.

Agradeço aos irmãos Israel e Ernesto de Matos Dias a recordação de alguns ditos incluídos neste texto.


Alberto Grossinho
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:43
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