Sábado, 28 de Janeiro de 2006

Herói mourisquense

O nosso conterrâneo Comandante António Marques Esparteiro trouxe a público, em 1968, os feitos de um ilustre mourisquense, Manuel Vaz Moreno, filho de Manuel Pires Soveral, que se distinguiu no serviço militar, enquanto praça, e pelo seu porte distinto e pelos seus valorosos serviços prestados à Nação foi nomeado capitão de infantaria e foram-lhe concedidas outras prestigiantes mordomias.Pela relevância do acontecimento e para maior divulgação, não resisto em publicar na integra, a notícia então publicada no Boletim da Agência Geral do Ultramar (Separata nº5, Ano 44, ano 44, p. 511-512), que homenageia tão ilustre Mourisquense.CAPA - IMAGEM-2.PNGA velha praça de Mazagão, em África, mandada construir por D. Manuel em 1509, em baía deserta da costa oeste marroquina, havia de sofrer, com bravura e destemor, o ataque da moirama aguerrida e valente, durante mais de dois séculos antes do seu abandono, pelo Marquês de Pombal, em Março de 1769.Marrocos, durante o período heróico das descobertas e conquistas, serviu de escola de guerra da gente portuguesa que se destinava ao além-mar.Em regra, um mancebo nobre, depois de receber instrução e educação na brilhante e ilustrada corte dos reis de Avis, velejava para as praças de Marrocos a adestrar-se no manejo das armas e a aprender ao vivo a táctica de guerra, em combate com o inimigo hábil, destemido e perito em toda a casta de estratagemas.Depois e só depois, o rei de Portugal o considerava apto a combater o turco e o árabe no mar da índia, o bravo e cruel malaio, o valente marata das índias, o fanático pirata chinês do longínquo Extremo Oriente, o o hábil e destemido frecheiro das terras brasílicas e, por último, o não menos terrível e perigoso pirata ou corsário europeu do Atlântico Norte.Em Mazagão, militava na praça de soldado mosqueteiro, desde o primeiro de Setembro de 1686, o natural de Mouriscas, Manuel Vaz Moreno, filho de Manuel Pires Soveral.Durante todo o tempo em que ali serviu, achou-se em todas as acções contra os infiéis, sendo sempre o primeiro no ataque e o último na retirada, procurando, por imperativo de pundonor e lealdade, os lugares em que havia honra a ganhar ou um dever a cumprir.Assim, cedo, Vaz Moreno, pelos seus feitos e porte distinto, se tornou o símbolo do soldado perfeito entre os seus pares.As inúmeras feridas recebidas, algumas de certa gravidade, em fossados, escaramuças e feros combates, naquelas terras áridas e quentes do termo de Mazagão, mais fortaleceram o seu ânimo combativo.Em 1686, um reduzido troço de portugueses em luta com forças muito superiores, depois de árduo e longo combate, por fatigados de acutiïar e matar infiéis, caíram prisioneiros e foram conduzidos para Argel onde jazeram por uns longos dois anos.O indómito Vaz Moreno, logo que se achou liberto, correu a unir-se aos seus companheiros de Mazagão para servir o rei com o seu valor e experiência.Ali foi seguidamente atalaia do campo e cavaleiro espingardeiro com cavalo e armas próprias, funções em que se avantajou a muitos, como habilíssimo em emboscadas e estratagemas de guerra, como lanceiro destro e, sobretudo, como guerreiro sem par na utilização das armas. Pêlos altos serviços prestados durante aqueles «15 anos e 12 dias continuados desde o primeiro de Setembro de 1686 a 12 de Setembro de 1701», houve mercês do hábito de Cristo, de escudeiro fidalgo e de cavaleiro fidalgo com os rendimentos correspondentes.Terminado o tempo de serviço nas praças africanas regressou a Portugal, e possivelmente a Mouriscas, para na quietude daquele lugar aprazível dar algum descanso ao corpo das fadigas daquela longa campanha militar.Entretanto, Portugal, baseado no Tratado de Tordesilhas, entendendo que as terras do Sul do Brasil, até ao Rio da Prata, lhe pertenciam, direito que a Espanha lhe contestava, enleou-se com esta em acesa controvérsia diplomática, até que D. Pedro II, em 1680 ocupou a ilha de S. Gabriel, 8 léguas de Buenos Aires, para servir de base à ocupação definitiva da região em litígio que viria a ser a Nova Colónia do Sacramento e, no século XIX, a República do Uruguai.A Espanha, porém, não aceitou o facto consumado e passou imediatamente ao ataque. O diferendo arrastou-se vários anos, com altos e baixos para as duas nações peninsulares, até que estas pelo tratado de aliança de 18 de Junho de 1701, o solucionaram, cedendo e renunciando a Espanha a todos os direitos sobre aquelas terras.Portugal tratou imediatamente de ocupar os territórios abrangidos pela aliança, fortificando Montevideu e Maldonado em 1701 e 1702.Na preparação e organização das forças a enviar à Nova Colónia, D. Pedro n não se esqueceu de aproveitar os serviços do valoroso e prestante Vaz Moreno, pois, por carta patente de 11 de Março de 1702, atendendo aos seus serviços, o nomeou capitão da 4.ª companhia de infantaria, uma das cinco que se formaram de novo para a guarnição da Colónia de Montevideu.A luta naquelas partes do império lusitano, reacendeu-se durante a Guerra de Sucessão, guerra em que as duas nações ibéricas enfileiraram em campos opostos.Vaz Moreno, decerto, não deixou de se ilustrar de novo nos recontros havidos, especialmente em 1704 e 1705.Este ligeiro escrito, foi apenas o pretexto para prestar humilde homenagem a este ilustre filho de Mouriscas que em terras estranhas, principalmente nas de moirama, soube, pelo seu alto valor ao serviço da pátria, honrar-se, honrando ao mesmo tempo o nome eterno de Portugal.Termina aqui a transcrição.Aqui deixo este escrito para que os mais novos conheçam este destemido Mourisquense. Terá esta ilustre cavaleiro fidalgo deixado descendentes em Mouriscas? Responda quem souber.Carlos Lopes Bento
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:22
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