Segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

Futebol mourisquense na rádio

As rádios locais trouxeram uma verdadeira revolução. Aparecidas aí por 1980, provocaram uma explosão de criatividade, a revelação de muitos talentos locais e uma atenção nunca vista da rádio aos assuntos locais, entre eles o desporto e particularmente o futebol.

A Rádio Antena Livre, também conhecida por RAL, de Abrantes, foi uma das primeiras rádios locais. Teve o slogan "a rádio que justifica a telefonia acesa". Na RAL floresceram vários relatores e comentadores desportivos com muito talento. Cedo começaram a comparecer nos dois campos de futebol de Mouriscas - o das Aldeias, da Casa do Povo, e o da Lameira Redonda, dos Esparteiros.

A RAL esteve presente no campo da Lameira Redonda em jogos dos Esparteiros para o campeonato distrital da 1ª divisão. Infelizmente a passagem dos Esparteiros pela 1ª divisão distrital não durou muito, tendo descido à 2ª divisão, juntando-se à Casa do Povo, a outra equipa de Mouriscas.

Lembro-me da presença da RAL num jogo disputado no campo das Aldeias entre o dono do recinto desportivo, a equipa da Casa do Povo, e os Esparteiros, oficialmente equipa visitante, embora não tivesse viajado para outra terra. Esse desafio, a contar para o campeonato distrital da 2ª divisão teve a honra de ser o jogo principal na cadeia de desafios em que a RAL esteve presente nesse domingo. Tratava-se duma cadeia de nove jogos, número que nas rádios nacionais só foi ultrapassado pela Antena 1. Desses jogos um realizava-se em Portalegre, no campo do clube local chamado Estrela, penso que da 3ª divisão nacional. Houve uma altura em que a RAL tinha um emissor na região de Portalegre, transmitindo numa frequência para a zona dessa cidade e outra na região de Abrantes, onde nas Arreciadas, da freguesia de S. Miguel do Rio Torto, tinha o outro emissor. Portanto, o relato do dérbi mourisquense chegou longe.

Voltando ao jogo de que falávamos, ele foi relatado por Vítor Falcão, homem muito conhecido como fisioterapeuta que assinava na RAL outros programas de qualidade. De pé, a meio-campo, do lado da estrada, Vítor Falcão fez o seu relato, com a vivacidade muito especial que punha na sua narração.Tinha o hábito de dizer dos guarda-redes algo como "fulano recreia-se um pouco com a bola". Nessa tarde Vítor Falcão disse várias vezes frases semelhantes, referindo-se tanto ao guarda-redes da Casa do Povo como ao dos Esparteiros.

Nesse jogo entre as duas equipas mourisquenses dos campeonatos distritais, Vítor Falcão teve a colaboração dum crítico de arbitragem, um senhor duma certa idade de que não recordo o nome. Os dois trabalhavam de pé, cada um com o seu microfone.

Noutro jogo disputado nas Aldeias compareceu Jorge Beirão para o relato. O jogo punha frente a frente a Casa do Povo e o Pego. O árbitro expulsou um jogador de Mouriscas. Jorge Beirão punha muita emoção e franqueza nos relatos. No comentário final disse que noutra terra o árbitro teria tido muitos problemas depois do jogo. Os termos que ele usou foram menos brandos.

Um repórter da RAL disse durante um jogo coisas que não agradaram ao clube e ao público locais. Por isso foi considerado indesejável na localidade. Não me consta que em Mouriscas tenha acontecido o mesmo.

Tanto no campo da Aldeias como no da Lameira Redonda vi outros colaboradores da RAL comparecerem não para relatar o jogo mas para dar constituições das equipas, resultados e para fazer comentários. Recordo nesse papel Augusto Martins, Vítor Florentino e Vítor Águas.

De Vítor Águas, do Sardoal, já falecido, tenho uma recordação inesquecível, que passo a contar. Numa tarde muito chuvosa, a Casa do Povo jogou no campo das Aldeias penso que com os Dragões de Alferrrarede um jogo a contar para o campeonato distrital da 2ª divisão. Vítor Águas refugiou-se atrás do balcão do bar por detrás da baliza do lado norte. Ali permaneceu durante o jogo, fumando a sua cigarrada e atento ao que se passava no retângulo. Dali interrompeu para assinalar os golos e dar o resultado quando lho pediram. No fim do jogo, com a sua bela voz de homem do teatro, fez o comentário ao jogo, dando uma visão detalhada do que se tinha passado, o que achei uma notável proeza para quem tinha visto o jogo bem por detrás duma baliza numa tarde chuvosa e escura.


João Manuel Maia Alves

publicado por João Manuel Maia Alves às 16:53
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Terça-feira, 21 de Novembro de 2006

Mau tempo em Macau (4)

(Continuação)largo_senado.jpgLargo do Senado - MacauAs conversações com os chineses lá vão decorrendo. Será que as partes vão encontrar uma saída airosa, um desfecho em que ninguém pareça humilhado? No dia 16 de Agosto, voltaram a deslocar-se à China Ho Yin e Ma Man-kei. Era a sexta vez que o faziam. Um outro sinal de que a China pretendia resolver a questão, observou-se no dia 18 de Agosto, quando a sua bandeira foi içada na parte chinesa das Portas do Cerco, mas no dia 20 houve nova reunião sem haver progressos nas negociações. Nestas reuniões os principais representantes de Macau foram por Ho Yin e Ma Man-kei. Parece que inicialmente os negociadores chineses mantiveram uma forte intransigência, exigiram da administração portuguesa a apresentação pública de desculpas e uma indemnização elevada pelos danos causados durante o conflito. Lisboa rejeitou as condições chinesas e, por isso, as negociações caíram num impasse. Numa tentativa para ultrapassar a situação, Pedro José Lobo, Director da Repartição Central dos Serviços Económicos, deslocou-se a Gongbei para negociar com representantes chineses. Desde o início das negociações, ele teve a nítida percepção de que os chineses estavam ansiosos por uma solução aceitável e que o único problema era achar uma solução em que não se perdesse a face. Após dezassete reuniões, a solução encontrada foi a de que Pedro José Lobo deveria apresentar o seu pesar pessoal pela ocorrência dos incidentes, não comprometendo, porém, a administração portuguesa de Macau. Extraordinária e brilhante solução!!! Também houve acordo sobre as indemnizações, em que os chineses não se mostraram muito exigentes.Assim, o mais discretamente possível, com o mínimo de alarido, as duas partes chegaram a um acordo. K. R. Oakeshott, do Departamento do Extremo Oriente do Foreign Office (Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico), escreveu então que os chineses consideravam Macau útil e tinham chegado a um acordo secreto sobre materiais estratégicos. Tenha ou não havido acordo secreto, o que é certo que Salazar pediu e conseguiu dos seus aliados um regime especial para Macau nas suas transacções comerciais com a China.Quando o primeiro-ministro chinês, Chu En Lai, visitou Moscovo em Setembro de 1952, o conflito foi abordado na conversa com Estaline, o líder da União Soviética. Isto mostra bem as repercussões do que em 1952 se passou em Macau. Parece que neste conflito ganharam todas as partes envolvidas – a China, Portugal, Macau, Joaquim Marques Esparteiro, a elite sino-macaense. Esta reforçou tanto o poder que já tinha que conseguiu atrasar durante vários anos a moralização que Joaquim Esparteiro queria introduzir no comércio do ouro. Neste mundo são raros os jogos em que todos ganham sem alguns perderem alguma coisa. São raras as vitórias completas.Joaquim Esparteiro continuou em Macau até 1957, com tempo mais bonançoso, mas só em 1954 conseguiu a libertação do capitão preso no início dos incidentes. É pena que Joaquim Marques Esparteiro e o seu chefe de gabinete, o também mourisquense Abílio de Oliveira Ferro, não tenham escrito as suas memórias dos incidentes de 1952 em Macau. Tinham tanta coisa de interesse para contar! Esta série de artigos baseou-se no texto “OS INCIDENTES DAS PORTAS DO CERCO DE 1952: o conflito entre os compromissos internacionais e os condicionalismos locais”, da autoria de Moisés Silva Fernandes. A edição é doInstituto de Ciências Sociais Universidade de Lisboa.Leiam este texto, que vale a pena. Pode ser descarregado do endereço seguinte: http://www.ics.ul.pt/publicacoes/workingpapers/wp2005/wp2005_2.pdf
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:31
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Quinta-feira, 16 de Novembro de 2006

Mau tempo em Macau (3)

(Continução)ruinas_spaulo.jpgRuínas S. Paulo em MacauVimos no artigo anterior as exigências apresentadas pelos chineses. Joaquim Esparteiro não estava de acordo com elas. Em 2 de Agosto foi apresentada a seguinte contraproposta: 1) confessar sem pedir desculpas que o nosso soldado pisou território chinês; 2) estabelecer um novo sistema de vigilância da fronteira e continuando terreno neutro de harmonia com o status quo; 3) compensação, que na opinião dos enviados, não deveria exceder 30.000 patacas. (A pataca era e é a moeda de Macau.) Joaquim Marques Esparteiro não queria sofrer a humilhação das condições exigidas, mas lembrou a Lisboa que a China estava a exercer enorme “pressão económica” através da suspensão do tráfego entre os territórios vizinhos e Macau. Numa tentativa para melhorar a situação, o governador Esparteiro tentou comprar arroz na Tailândia, para fornecer o mercado de Macau e fazer baixar o seu preço no território. No dia 2, os chineses permitiram o restabelecimento da circulação de mercadorias por via fluvial, embora em escala insuficiente para as necessidades da população. Já era um desanuviamento. No dia 5 de Agosto Salazar convocou um Conselho de Ministros, tendo como ponto principal a situação de Macau. No dia seguinte o governador Marques Esparteiro realizou uma sessão secreta extraordinária do Conselho de Governo. Nela estiveram todos os membros deste órgão, além dos membros do Conselho de Defesa Militar e do director da repartição central dos serviços Económicos, o já citado Pedro José Lobo. Todos os presentes acharam que se deveria aceitar as condições impostas pelos chineses; disseram também que deveríamos tentar evitar o reconhecimento da nossa culpa pelos incidentes. No dia 9 de Agosto, Ho Yin e Ma Man-kei voltaram a deslocar-se à China para um reunião que durou à volta três horas. No dia 11 fontes próximas destes dois destacados dirigentes da elite chinesa de Macau garantiram que a administração portuguesa de Macau e a China tinham logrado uma “solução de compromisso” e que as partes não “pretendiam ampliar o conflito e mostram-se convencidos de que dentro de poucos dias se chegaria a um acordo total”. Os chineses permitiram que Macau recebesse no dia 11 flores baratas com abundância e milhares de quilos de vegetais transportados duma ilha chinesa, mas as principais comunicações terrestres e marítimas com a China continuavam paralisadas. No dia 12 de Agosto, o ministro do Ultramar, Sarmento Rodrigues, enviou para Macau o teor da mensagem a apresentar por Ho Yin ao general Li Zuopeng. Na sequência deste telegrama, voltou a ter lugar mais uma reunião entre os representantes da administração portuguesa de Macau, Ho Yin e Ma Man-kei, com as autoridades de Cantão. Antes da reunião o governador Marques Esparteiro comunicou para Lisboa ter Ho Yin a impressão, por conversas com os chineses, da dificuldade em chegar a acordo com eles sem reconhecermos as nossas culpas e apresentarmos desculpas. Joaquim Marques Esparteiro, adiantou que, embora não concordasse com o ponto de vista chinês, a verdade é que os chineses não desistiriam da sua posição assumida. Teria o governador Esparteiro uma fórmula que satisfizesse os chineses sem humilhação para a administração portuguesa?(Continua e termina no próximo artigo)Origem da foto: http://www.msmartins.com
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:44
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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2006

Mau tempo em Macau (2)

(Continuação)Vimos no artigo anterior como os chineses ficaram descontentes com as restrições às exportações de Macau para a China, postas em prática em 1952, no começo do governo do mourisquense Joaquim Marques Esparteiro, oficial superior de marinha com uma brilhante folha de serviços. Prova disso foram a reunião hostil a Portugal de altas personalidades e a prisão dum capitão português que teria segundo os chineses entrado nas suas águas. No entanto, a administração de Macau e o governo de Lisboa mostraram-se firmes na aplicação das novas regras. Como resultado, os incidentes junto às Portas do Cerco, que se verificavam há meses, intensificaram-se em Maio, levados a cabo pelas sentinelas chinesas. A foto seguinte é das Porta do Cerco. É do tempo da administração portuguesa, vendo-se dum lado uma bandeira portuguesa e do outro uma chinesa, vermelha e com estrelas douradas. Dum e doutro lado havia uma sentinela.portas_do_cerco.JPG O Ministro do Ultramar visitou Macau em Junho. Antes da visita as provocações passaram a ser feitas por crianças que atiravam pedras às sentinelas portuguesas. Durante a visita ministerial as provocações voltaram a ser do exército chinês.Joaquim Esparteiro tinha de enfrentar o descontentamento da China e o da elite sino-macaense. Tentou esfriar os ânimos com a passagem da fiscalização das exportações para a tutela conjunta da comissão que tinha sido criada para esse efeito e da Repartição Central dos Serviços Económicos, que se dizia dominada pela elite sino-macaense, favorável aos interesses da China. No entanto, o descontentamento continuou. Houve novos incidentes, com troca de tiros e bastantes baixas chinesas. Como resultado, cessou o abastecimento de víveres a Macau, tendo a China imposto um bloqueio às trocas comerciais e às comunicações terrestres, fluviais e marítimas. Estávamos a 25 de Julho de 1952. Não há dúvida – Joaquim Marques Esparteiro está em grandes dificuldades. Como sairá desta situação?Seguiram-se manobras de intimidação de vários tipos por parte dos chineses, incluindo a ameaça de pedido de pesadas indemnizações.Houve mais violência, mas em 29 de Julho cessou praticamente o conflito armado. Subsistia no entanto, o bloqueio a Macau e muita tensão e medo na população. Joaquim Esparteiro tentou estabelecer pontes de comunicação com os chineses com o auxílio do governo da colónia britânica de Hong Kong, mas não teve êxito. Também Salazar procurou auxílio da parte dos ingleses, que tinham relações diplomáticas com a China, mas as suas diligências não tiveram resultados. Joaquim Esparteiro, a braços com uma situação difícil, tinha de fazer alguma coisa e pensou numa solução local. Com muita dificuldade conseguiu que os chineses concordassem com uma reunião. No dia 1 de Agosto de 1952 enviou a Gongbei uma delegação da administração portuguesa de Macau, constituída por Ho Yin, Ma Man-kei, Chü Chi-ping e Kwok Siu-kan a Gongbei com o fim “de restabelecer as comunicações e abastecimentos indispensáveis à vida desta Província”. A reunião com os representantes chineses durou duas horas e meia, tendo a delegação da elite chinesa de Macau afecta a Pequim regressado ao enclave com as três seguintes condições:1) pedirmos desculpa por um soldado nosso ter pisado o seu território na fronteira, o que deu lugar, segundo a sua versão, aos incidentes; 2) abandonarmos a faixa de terreno considerado neutro na fronteira; e 3) compensarmos as vítimas e estragos causados pelas nossas acções militares. O governador Esparteiro discordou das reivindicações por não condizerem com o relatório do comando da guarnição militar portuguesa, mas poderia recusá-las na situação que se vivia em Macau?Veremos em outro artigo o seguimento desta história, que daria um grande filme ou romance. (Continua) Origem da foto: http://www.msmartins.com
publicado por João Manuel Maia Alves às 11:22
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