Quarta-feira, 28 de Junho de 2006

Falar mourisquense (8)

Vamos ver mais palavras e expressões mourisquenses.

OLHAR CONTRA O GOVERNO, OLHAR CONTRA O SALAZAR – Ser vesgo ou estrábico, isto é não ter os olhos alinhados um com o outro.

GASEADO – Tonto, tolo. (Está cheio de dívidas, mas comprou mais um carro. Deve estar gaseado.) “Gaseado” significa “atacado com gases”. Na Primeira Grande Guerra (1914-18) foram usados gases como arma de combate. Muitas pessoas foram atacadas com gases e, quando sobreviveram, ficaram muito afectadas. Esta é a origem da palavra.

VARIADO, VARIAR – Tonto, ficar tonto. (Achas que o preço do azeite vai baixar? Deves estar variado. Ficou variado com tanto dinheiro que recebeu da lotaria. Bebeu dois copos de aguardente e já está a variar. Depois da morte da mulher ficou variadinho de todo.)

PIAL – Poial, estrutura usada para colocar cântaros e asados (cântaros de boca larga e duas asas). (Antes do abastecimento de água ao domícilio, praticamente todas as casas em Mouriscas tinham piais onde se colocavam os cântaros de água para beber.)

ESTAFAR – Gastar mal gasto, esbanjar. (Em pouco tempo estafou todo o dinheiro que o pai lhe deixou.) Este significado encontra-se em dicionários, mas nunca o ouvi fora de Mouriscas.

CAPOEIRO - Pedra grande. (Atiraram um capoeiro à janela e partiram-na completamente.)

SORTE – Quinhão em partilhas. (Diziam que aquelas partilhas iam ser difíceis, mas afinal cada um ficou contente com a sua sorte. Já vendeu a sorte dele.)

EM ESTADO DE SÍTIO – Em estado de confusão. (Os miúdos deixaram tudo em estado de sítio.) O verdadeiro significado de “estado de sítio” é “suspensão das leis ordinárias dum país e sua sujeição temporária a um regime militar”. Quando em 1975, foi decretado o estado de sítio na região de Lisboa, muitas pessoas em Mouriscas sentiram-se surpresas, pois pensavam que em estado de sítio já se vivia.

MANEIRAS – Um pouco, um tanto. (Ontem choveu maneiras. Ela canta maneiras.)

ERVILHANA – Amendoim.

QUINZANA – Quinzena. (Ele foi passar uma quinzana a casa do filho.)

PÔR-SE A CABANIR – Ir-se embora. (Está na hora de nos pormos a cabanir.)

BOM – Razoavelmente. (Ontem choveu bom bem.)

João Manuel Maia Alves
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:39
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Terça-feira, 20 de Junho de 2006

Manuel Lopes Valente Júnior

Retrato de memória

 

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Nasceu em Mouriscas, mas foi nas Hortas (Alferrarede) e no Rossio de Abrantes que passou a maior parte da sua vida.

Nas Hortas foi proprietário de uma fábrica de adubo, que funcionava onde mais tarde foi construída a casa do Dr. Vasco, e no Rossio, no primeiro terço da estrada do Pego, teve uma quinta, hoje em estado degradado, onde viveu até à morte.

Foi membro do Partido Democrático, pelo qual foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Abrantes antes da implantação do Estado Novo. Durante a sua presidência Abrantes foi elevada à categoria de cidade, sendo especialmente relevante a sua acção na construção de edifícios escolares, entre os quais a antiga escola primária de Mouriscas, onde aprendemos, mais tarde, o bê-á-bá das primeiras letras.

Era especialmente conhecido pelos ideais democráticos que sempre defendeu. Figura singular, caracterizada fisicamente pelas pilosidades que usava sobre o queixo e que lhe valiam a alcunha de o "Peras do Rossio".

Era primo do meu avô Francisco Lopes Valente, das Casas Novas, e muito amigo do meu pai, que para ele trabalhou nas Hortas e no Rossio. Algumas vezes o visitei, na companhia de meu pai, na sua casa do Rossio. As conversas versavam sobre o amanho da quinta, mas acabavam sempre sobre a política ou não-política e o Estado Novo. O meu pai não tinha habilitações académicas mas escrevia e lia como poucos e, apesar da sua humilde condição económica, comprava amiúde o jornal "O Século", que eu ia buscar à estação, ao comboio das 10, pelo preço de oito tostões. Tinha alguma simpatia pelos "camisas negras", movimentio anarquista de direita, que tinha no Dr. Rolão Preto um dos mais altos expoentes. Aliás, o meu pai era amigo e visita domingueira clandestina, nos invernos lagareiros na Beira Beixa, da casa de Rolão Preto, onde também adquiriu alguns números do jornal “Revolução".

Como se depreende, a conversa política em casa do "Peras" não era própriamente primária. Numa dessas conversas, na verdura dos meus quinze anitos, depois de iniciada a guerra do Ultramar, defendia eu a necessidade da guerra para garantir a integridade da Pátria, do Minho a Timor. Deixou-me falar, expôs as razões por que discordava da guerra, explicando que as guerras são actos irracionais, onde os interesses de alguns se sobrepõem aos interesses da maioria e onde os filhos do povo são sempre carne para canhão, ficando os filhos dos senhores da guerra sempre fora da peleja e acabou com uma máxima que me marcou para sempre e continua hoje prenhe de actualidade: "Olha meu filho, morrer pela Pátria é muito lindo, mas quem por ela morre nunca mais a vê...!”

Sobreviveu ao dia 25 de Abril de 1974 e foi no Partido Socialista, enquanto herdeiro dos ideais do Partido Democrático, que se ancorou politicamente. Na hora da sua morte quis ser sepultado na terra que o viu nascer, Mouriscas, em cujo cemitério repousa. O túmulo encontra-se perto do corredor central e a um nível inferior, à direita quando se entra. Destituído de qaisquer símbolos religiosos, tem, muito ao gosto dos republicanos de outras eras, uma tocha e a divisa “Paz e Liberdade”.

Agradeço-lhe o favor de ter sido meu amigo, de me ter ajudado a formar como homem, de ter sido um dos meus mestres de referência no caminho da cidadania.

Josué Carlos Marques Valente

publicado por João Manuel Maia Alves às 10:28
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Terça-feira, 13 de Junho de 2006

António Maria de Santana Maia

Meu avô, meu pai e meu mestresantanas_maias.JPGAntónio Maria de Santana Maia, à esquerda, com osirmãos - Manuel, ao centro, e João, à direitaFaz, no dia 26 de Julho, dezasseis anos que faleceu o homem que mais me marcou e que eu mais admirei em toda a minha vida: António Maria de Santana Maia, nascido em Mouriscas, no dia 26 de Maio de 1903.Começou por ser meu avô e acabou por ser meu pai e o meu mestre. Dinheiro, propriamente dito, nunca me deu. Mas aprendi com ele que só dá dinheiro aos filhos quem não tem mais nada para lhe dar. Ou, como ele me dizia: «só se deve dar dinheiro a um filho quando ele não precisar dele».Quando o conheci, já era um homem considerado e respeitado não só em Ponte de Sor, onde fixou residência, como no distrito de Santarém e Portalegre.Advogado brilhante e conceituado, muito para além das fronteiras destes dois distritos, foi ainda notário, presidente da Câmara Municipal de Ponte de Sor e agricultor.Como Presidente da Câmara, cargo que ocupou apenas durante um curto período e com a condição de não se filiar no partido do regime, a ele se deve o primeiro Plano de Urbanização de Ponte de Sor, conseguido contra muitas resistências, em virtude do mesmo prever a expropriação de terrenos de algumas famílias importantes e com peso em Ponte de Sor.E como Presidente da Câmara soube ainda resistir à tentação de utilizar o cargo e a sua influência para impedir, com o eclodir da guerra colonial em 1961, que o seu filho embarcasse para o Norte de Angola num dos primeiros contingentes de soldados portugueses. Enquanto para uma larga maioria, os cargos públicos são um meio para obter favores, para outros, impõem-lhes o dever moral de dar o exemplo.Homem íntegro, de palavra, de convicções e de coragem, soube guiar toda a sua vida pelos padrões morais do berço humilde onde nascera.A sua cultura impressionava. Nunca houve uma palavra, um conceito, uma dúvida, um livro de que eu lhe falasse ou que lhe perguntasse que ele não conhecesse ou que não soubesse a resposta. E apesar de ser de pequena estatura (1,60m de altura), foi até hoje o único homem ao pé do qual eu, com o meu 1,92m, me senti sempre pequeno.Santana-Maia Leonardo
publicado por João Manuel Maia Alves às 18:02
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Terça-feira, 6 de Junho de 2006

Dr. João Santana Maia (3)

Um encontro do passado com o presenteRecordar o ilustre mourisquense Dr. João Gualberto Santana Maia(Continuação)j_santana_maia-0.jpgDesde 1932 até 1977, data em que se reformou como médico municipal, o Dr. João Gualberto exerceu com muita humanidade, amor e abnegação a profissão de médico. Foi uma vida inteira de grande generosidade e dedicação ao bem público e ao serviço dos outros.Tanto no seu consultório como em casa dos pacientes, onde se deslocava na sua égua, foi sempre médico de toda a gente, pobres e remediados. Aos mais desafortunados da sorte, não cobrava um centavo. Não tinha horas para receber os seus doentes. As suas competências, bondade e altruísmo cedo ultrapassaram as fronteiras da freguesia de Mouriscas. Muitos doentes das freguesias limítrofes procuraram o seu consultório em busca de alívio. Convém recordar que nessa altura os telefones eram raros, a electricidade ainda não tinha chegado às Mouriscas e as vias de comunicação limitavam-se a caminhos carreteiros e carreiros, nem sempre em boas condições para neles se transitar.Eu tive o raro privilégio de ter relações de muita proximidade com o Dr. Santana Maia, não só como seu doente como também como seu aluno. Recordo-o como professor, exigente e rigoroso, de Matemática, Desenho, Física, Química, Ciências Naturais, .., durante os quatro anos que frequentei o Colégio Infante de Sagres, onde, em 1951, concluí o 2º ciclo liceal. Foi sempre um amigo e um conselheiro que recordo com muita saudade e gratidão.Para além de médico e professor, o Dr. João Gualberto esteve, durante muitos anos, ligado à Comissão das Festas de Verão, realizadas nas Ferrarias, no Largo do Espírito Santo. Então tinha lugar um Peditório com o fim de angariar meios financeiros destinados a melhoramentos da Freguesia. Nessa ocasião, com alguns festeiros e acompanhados por Banda de Música, percorria grande parte dos lugares de Mouriscas. A sua prestigiada presença representava o sucesso da operação. Todos lhe deviam favores e, por isso, contribuíam, sem problemas, com a sua ajuda. O conteúdo do Programa que a seguir se transcreve, é bem indicativo de quanto os Mourisquenses lhe deviam :“HOMENAGEM DE MOURISCAS AO SEU MÉDICODr. JOÃO GUALBERTO SANTANA MAIAMOURISQUENSES Raras vezes se terá prestado a alguém uma homenagem mais justa e mais merecida do que esta que o povo de Mouriscas vai prestar agora ao seu médico e ilustre filho, Sr. Dr. JOÃO GUALBERTO SANTANA MAIA. É que Mouriscas deve muito ao Sr.Dr. SANTANA MAIA. E os Mourisquenses têm disso plena consciência. Não admirando, por isso, a forma tão espontânea e unânime como todos estão a aderir à iniciativa desta homenagem. Para além de muitos outros inestimáveis serviços prestados à sua terra a ela consagrou o Sr, Dr. SANTANA MAIA toda a sua actividade de médico. Foram 45 anos de doação total, proficiente, dedicada e generosa aos seus doentes. Raros terão sido aliás, os mourisquenses que durante este tempo não terão beneficiado directa ou indirectamente da sua acção. Tendo atingido agora o limite de idade como médico municipal, pensaram os mourisquenses ser um momento oportuno para lhe prestarem a homenagem pública que lhe era devida. A Comissão constituída para o efeito, tem consciência de que o Programa por ela elaborada e que a seguir se indica nas suas linhas gerais é demasiado simples e modesto, mas também sabe que ao Sr. Dr. SANTANA MAIA a homenagem que mais lhe agradará será ter a certeza da sinceridade com que é feita e a admiração e gratidão profundas que ela traduz da parte de todos os mourisquenses. E isso lhe podemos garantir inteiramente.PROGRAMADia 11 de Setembro de 197709 HORAS- Concentração junto das Estação dos Caminhos de Ferro- Cortejo, passando pelo Outeirinho, até ao consultório do Sr. Dr. SANTANA MAIA. - Descerramento duma lápida comemorativa:NOTA: Este cortejo é evocativo e segue o mesmo itinerário do realizado em 13 de Novembro de 1932, quando da entrada do Dr SANTANA MAIA,como médico, em Mouriscas, depois da sua formatura em Coimbra.Constituiu uma extraordinária manifestação de carinho e confiança e terá sido decisivo para que o Sr. Dr. SANTANA MAIA resolvesse fixar-se definitivamente em Mouriscas, como médico.12,30 HORAS - Missa de Acção de Graças na Igreja Paroquial.13,30 HORAS – Descerramento no Largo da Igreja da Placa Toponímica que dará ao mesmo o nome de " LARGO Dr. JOÃO GUALBERTO SANTANA MAIA"NOTA: A Banda de Musica do Sardoal abrilhantará os actos festivos deste Programa. Descargas de morteiros assinalarão os momentos mais significativos.MOURISQUENSES- O Pleno cumprimento deste Programa exige despesas. Contamos, por isso, além da vossa presença, com a vossa ajuda materialAo saldo, se o houver, será dado destino de acordo com a vontade do homenageado.A COMISSÃO”Sobre o significado desta grande Homenagem que o povo de Mouriscas lhe fez, o Dr. Santana Maia, com a simplicidade e a modéstia que sempre lhe conhecemos, explicou:“Bem a esse respeito eu entendo que a freguesia nada me devia, porque o que fiz pela freguesia, como Mourisquense que sou, eu tomo-o, não como um devaneio, mas sim com uma obrigação. E acho que é isso que compete fazer a todos os Mourisquenses- trabalhar para bem da nossa terra. (Excerto de entrevista com o Senhor Dr. Santana Maia ao Mourisquense- Mensário de Mouriscas, Ano I, nº 5, Outº 1977).Depois desta merecida Homenagem continuou a ser o Médico de sempre e a ajudar a freguesia de Mouriscas.Faleceu a 19 de Abril de 1991 e está sepultado no cemitério de Mouriscas. Sem desmérito para outros dos nossos ilustres conterrâneos, o Dr. João Gualberto Santana Maia terá sido o mourisquense que, no século XX, maior ajuda efectiva prestou a Mouriscas e suas gentes.É por isso um dever de todos os filhos de Mouriscas recordá-lo como prova da sua eterna gratidão. Para os mais novos deverá constituir um exemplo e uma referência.Em 2007, passarão os 100 anos do seu nascimento. Seria importante lembrar o evento com a realização de um Encontro Científico, faseado ao longo do ano, organizado pelas forças vivas da freguesia, que serviria para Pensar o Futuro de Mouriscas.Aqui deixo a ideia a todos os filhos e amigos de Mouriscas, com fundadas esperanças que ela venha a tornar-se realidade.Pesquisa e texto de: Carlos Bento, doutor em Ciências Sociais e Políticas, professor universitário e director do Centro de Estudos Sociais da ADIMO.
publicado por João Manuel Maia Alves às 09:10
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