Quinta-feira, 23 de Setembro de 2004

Mestres de lagares

Mouriscas foi terra conhecida em muitas zonas do país por muita coisa. Era terra de ferroviários, de oficinas de espartaria e de pirotecnia, de muitas pessoas com curso superior. Era terra para onde vinha estudar muita gente de fora. Era também uma localidade donde saíam muitos mestres de lagares de azeite.

Quem mandava a azeitona para um lagar esperava que não demorasse a ser moída, para não apodrecer, esperava receber azeite de qualidade e esperava uma boa funda, isto é uma boa quantidade de azeite por medida de azeitona. Esperava, portanto, que o lagar fosse dirigido por alguém competente que assegurasse os desejos dos clientes. À pessoa que dirigia um lagar de azeite dava-se (e dá-se) a designação de mestre.

O mestre do lagar dirigia as respectivas operações. Além disso, tinha tarefas próprias. O líquido que saía da prensa resultante de azeitona moída dum cliente era encaminhado para uma talha chamado tarefa. O mestre deixava o líquido assentar. A água-ruça ou almofeira ficava no fundo. Era o mestre que devia deixar sair a água-ruça. Um mestre incompetente podia deixar sair também azeite ou não deixar sair toda a água-ruça.

Um mestre de lagar tinha de ser um indivíduo competente ou a reputação dum lagar ia por água abaixo. Os bons mestres permaneciam muito tempo num lagar. Por vezes, quando as pessoas pensavam num certo lagar associavam-no logo ao seu mestre.

Mouriscas tinha muitos lagares em funcionamento. Também tinha pessoas mais do que suficientes para serem competentes mestres dos seus lagares. Por isso, muitos mourisquenses trabalhavam nessas funções noutras localidades. Não eram dois ou três que trabalhavam fora. Eram realmente muitos.

De Mouriscas sairam muitos homens para trabalhar como mestres de lagares de azeite em terras muito diferentes, como as zonas de Torres Vedras, do Douro, da Guarda, das Terras de Basto e do Alentejo.

Com a naturalidade com que se aceita o que tem de ser, muitos mourisquenses deixavam a família anualmente para trabalhar como mestres de lagares de azeite, regressando, acabada a safra, com algum dinheiro economizado, “de forro”, como se dizia muitas vezes. Estes homens levaram o nome de Mouriscas a muitas terras do país. Como resultado, nalgumas terras Mouriscas era vista como terra de mestres de lagares de azeite.

Muitos mestres de lagares foram figuras populares nas terras onde trabalharam. Um deles foi Francisco Pires Esparteiro. Todos os anos, este homem interrompia o seu trabalho de sapateiro para trabalhar como mestre dum lagar de Mouriscas. Um pouco antes de fechar o lagar de Mouriscas, dirigia-se ao Pinhão, linda vila sobre o Rio Douro, para ser mestre dum lagar local. Na região do Douro a azeitona amadurece mais tarde que no Sul. O nosso homem permanecia no Pinhão até ao fim da safra, voltando a casa já perto da Páscoa. Era conhecidíssimo e estimadíssimo no Pinhão.

Um bom mestre de lagar diria que simplesmente fazia o que precisava de ser feito. Na verdade, um homem precisava de gostar muito do ofício para ser um bom mestre de lagar.

Mestres de lagares de azeite Mouriscas teve muitos e bons. Muito exerceram as suas funções em Mouriscas, muitos outros trabalharam fora da sua terra. Alguns trabalharam dentro e fora de Mouriscas. Todos merecem uma homenagem, recordando-os e reconhecendo o importante papel que tiveram na produção de tão saudável alimento como é o azeite e na divulgação do nome de Mouriscas.
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:16
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Quarta-feira, 15 de Setembro de 2004

Azeite para todos

Agora que se aproxima a época da apanha da azeitona é interessante recordar um costume que em Mouriscas, e também em outras localidades, tornava possível ter azeite sem gastar dinheiro e sem possuir oliveiras. Tratava-se dum antigo costume que não levantava objecções, resultado dum consenso social implícito, algo que se tinha tornado numa norma pacificamente aceite por todos.

De acordo com esse costume, a azeitona que caía até certa data era de quem a apanhava.

Desse costume beneficiavam os mais pobres, permitindo-lhes arranjar azeite para seu consumo ou para vender. Também podiam obter algum bagaço, alimento muito apreciado para engorda dos porcos, animais até recentemente muito importantes na economia doméstica das populações rurais.

Nalgumas famílias mobibilizavam-se todos os meios para apanhar a azeitona caída das árvores. Mulheres e jovens de ambos os sexos apanhavam o máximo que podiam enquanto tal era permitido.

A data limite para apanhar livremente a azeitona caída era 4 de Outubro, dia da chamada da Feira da Ponte, isto é da Feira da Ponte de Sor. Para os aldeões de tempos passados as datas de realização de certos acontecimentos eram um marco ou referência frequentemente usada.

Depois da Feira da Ponte muitos proprietários caiavam de branco alguns troncos de oliveira para indicar que tinha acabado a época de qualquer um poder apanhar a azeitona caída. Também era costume colocar rama de pinheiro sobre as trepas (ramos mais perto do solo) dalgumas oliveiras. Chamava-se a isso “coutar as oliveiras”. A expressão era adequada já que o dicionário dá para o verbo “coutar” os significados, entre outros, de “proibir” e “proibir a entrada ou acesso”. Também se dizia que as oliveiras estavam “guardadas”.

Depois da colheita era aceite que a azeitona não apanhada pudesse ser recolhida por qualquer pessoa. “Andar ao rabisco” era a designação dada a essa operação. Segundo o dicionário de português da Porto Editora, “andar ao rabisco” significa “percorrer áreas extensas para apanhar o que ficou esquecido da colheita (espigas, uvas, castanhas, etc.)”.

Hoje ninguém se interessa em apanhar para si a azeitona das oliveiras alheias caída até certo dia ou que ficou depois da colheita. Estes interessantes costumes desapareceram por falta de praticantes. Os mais novos não sabem que existiram. Dos mais velhos muitos não se recordam. Por isso, para uns e para outros, lhes dedicamos estas linhas.



Artigo redigido com a preciosa ajuda, que se agradece, de Arnaldo Cordeiro (Espadeira) e de Emílio Costa (Patacas)
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:12
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2004

Juíza Conselheira Maria Laura Santana Maia

Em maio de 2004 Maria Laura Santana Maia tornou-se na primeira juíza conselheira do Supremo Tribunal de Justiça. A sua escolha foi feita por unanimidade em sessão plenária do Supremo Tribunal de Justiça.

Foi amplamente noticiada nos meios de comunicação falados e escritos a ascensão em Portugal da primeira mulher a tão elevado cargo. O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não deixou de lhe dar atenção numa das suas intervenções televisivas dominicais.

A Juíza Conselheira Maria Laura Santana Maia tem raízes mourisquenses. É facto que nem todos os mourisquenses sabem e que merece destaque neste blogue dedicado a Mouriscas e suas gentes.

Nesta foto vemos a Juíza Conselheira Maria Laura Santana Maia no dia em que tomou posse, acompanhada do seu primo Manuel Lopes Maia Gonçalves, mourisquense que foi juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, grande especialista em Direito Penal, de que publicou livros com muitas edições, e um dos maiores juristas portugueses do século XX. 

 

 

 

Maria Laura Santana Maia nasceu em Ponte de Sor, a 8 de outubro de 1937, e recebeu o nome de Maria Laura de Carvalho Santana Maia. O pai chamava-se António Maria Santana Maia, nasceu no Casal da Figueira, em Mouriscas, no ano de 1903, e foi advogado, notário e lavrador durante muitos anos em Ponte de Sor. Os seus irmãos, tios de Maria Laura, foram João Gualberto Santana Maia, médico em Mouriscas e dono do Colégio Infante de Sagres, Manuel Agostinho Santana Maia, médico no Hospital da Misericórdia de Abrantes, Ermelinda Lopes Maia, Eugénia Lopes Maia, Martinha Lopes Maia e Maria José Lopes Maia. Todos nasceram no Casal da Figueira, em Mouriscas

A Juíza Conselheira Maria Laura é descendente em quinto grau de António Ferreira Santana, o homem nascido ao pé de Portalegre de quem, como referido no artigo Santanas (1), em http://motg.blogs.sapo.pt/2499.html, descendem os Santanas com origem em Mouriscas

Merece realce na carreira de Maria Laura Santana Maia o facto de só aos 30 anos, depois de enviuvar e com dois filhos de tenra idade, ter começado a estudar direito, numa altura em que ainda a carreira da magistratura estava vedada a mulheres.

Foi delegada do Ministério Público em localidades como Nisa, Loulé ou Guimarães. Chegou depois a juíza, tendo estado colocada em Serpa, Mértola e Cartaxo, antes de ingressar no 17.º Juízo Cível de Lisboa, em 1988. Entretanto, já em Lisboa, era docente do Centro de Estudos Judiciários. Em 1995 foi nomeada desembargadora do Tribunal da Relação de Évora.

Palmas para a Srª Juíza Conselheira Maria Laura Santana Maia, de raízes mourisquenses, raízes essas que sabemos que ela tem em elevada estima!

publicado por João Manuel Maia Alves às 07:36
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2004

Santanas (1)

Introdução

Nesta geração, assim como em anteriores, Santana e Santana Maia são nomes de famílias de prestígio na freguesia de Mouriscas, assim como em Ponte de Sor, Abrantes, Alvega, Elvas e até no país.

Em Mouriscas esse prestígio está actualmente associado, pelo menos, a três Santanas Maias já falecidos: João Gualberto, médico em Mouriscas e dono do Colégio Infante de Sagres, António Maria, advogado em Ponte de Sor e Manuel Agostinho, médico- cirurgião no Hospital da Misericórdia de Abrantes.

Mas a história dos Santanas de Mouriscas é muito anterior. Inicia-se em 1789, no dia 27 de Julho.

Os Santanas iniciais tiveram tanto ou mais prestigio que os actuais. A nossa memória é que é muito curta.

Antecedentes dos Santanas

Pelo ano de 1789 nem havia estradas, nem automóveis, nem electricidade nem comboio.
Nem em Portugal nem em nenhuma parte do mundo.

Em Portugal reinava, desde 1877, D. Maria I. Tinha sucedido a seu pai, D. José I, em cujo reinado e sob a forma de um governo despótico, dirigido pelo Marquês de Pombal, tinha sido imposta uma certa ordem ao país e tinham sido feitas algumas tentativas de desenvolvimento económico.

Não havendo os transportes que há hoje, era, contudo, necessário levar os bens do produtor ao consumidor. Essa actividade comercial era desempenhada pelos chamados almocreves.

Os transportes eram feitos por bestas de carga, na maioria burros ou mulas, através dos caminhos e veredas de então.

As travessias do Tejo eram feitas nas chamadas “barcas” concessionadas pelo Estado. Eram os casos da Barca do Tejo, da Barca da Amieira, da Barca de Bandos, etc.

Grande parte do abastecimento a Lisboa era feito de barco e a zona de Abrantes funcionava como entreposto entre o transporte terrestre dos bens vindos do Alto Alentejo e Beira Baixa e o transporte fluvial para Lisboa.

António Ferreira nasce na freguesia de S. Vicente em Abrantes, filho de António Lopes da Sertã e de Maria dos Santos do Tramagal. Exerce a actividade de almocreve entre a zona de Abrantes e a zona de Portalegre.

Nestas suas andanças António Ferreira conhece e casa com Ana Maria, natural da freguesia de S. Lourenço de Portalegre, filha de Manuel Gliz Martinico e de Maria da Conceição, ambos também naturais de S. Lourenço. Estabelece-se no lugar da Alagoa, treze quilómetros a norte de Portalegre.

Esta povoação situa-se no cruzamento do caminho ligando Portalegre a Alpalhão e Nisa com o caminho Alter do Chão, Crato, Flor da Rosa, Castelo de Vide e Marvão.

Em 27 de Julho de 1789 nasce a António Ferreira um filho, baptizado também com o nome de António, conforme consta do livro de registos paroquiais de S. Miguel da Alagoa, existente no Arquivo Distrital de Portalegre. Foi o primeiro Sant`Anna.

Os padrinhos são de Alpalhão. Era dia de S. Pancrácio. Dia 26 é dia de Santiago (pinta o bago, da uva) e dia 28 é dia de Santa Ana, progenitora, juntamente com S. Joaquim, da Virgem Maria.

No dia 14 do mesmo mês tinha tido início a Revolução Francesa.

Em futuros artigos continuaremos a história dos Santanas com origem em Mouriscas, descendentes de António Ferreira Sant’ Anna.



Este artigo foi escrito por Augusto Maia Alves, descendente em sexto grau de António Ferreira Sant’ Anna.
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:41
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O Porto dos Cascalhos

A Provisão Régia de 1 de Abril de 1819 concedeu aos fabricantes de Mação
que se dedicavam à fabricação de lãs, preparação de carnes de porco fumadas
e curtimenta e à preparação de cordovões, “lanzinhas” e carneiras o
privilégio de terem um barco ou bote para fazer carreira de Mação para
Lisboa e outros portos do Tejo, a sair do porto de Cascalhos (Mouriscas).

Dado a escassez de informação disponível, torna-se necessário saber:

1-Qual o itinerário, entre Mação e Cascallhos seguido pelos carros puxados
por bois ou parelhas que conduziam tais artefactos? O percurso fazia-se
durante todo o ano ou havia períodos privilegiados?

2-Nos Cascalhos, onde na primeira metade do século XX funcionou um engenho
de moer milho, em que local seria feito o embarque e desembarque? Haverá
vestígios em alvenaria ou outro material que tenham chegado até aos
nossos dias? E a tradição oral das gentes de Mouriscas, Mação, Penhascoso e
Ortiga que esclarecimentos nos pode trazer? Os barqueiros dos Cascalhos
ainda vivos, que ainda há 50 anos faziam fretes para Lisboa, poderão ser uma
boa fonte informativa. É preciso também dar atenção às fontes escritas,
consultando, entre outros, os arquivos municipais de Abrantes e Mação.

3-Para enriquecer o património cultural e histórico de Mouriscas e do seu
Concelho, vamos todos pesquisar para conhecer, mais e melhor, qual o papel
que o porto dos Cascalhos teve na economia de Mouricas e dos concelhos de
Abrantes e Mação no século XIX antes da abertura da linha da Beira Baixa
e publicar no nosso Blogue as informações recolhidas.

Escreveu Carlos Bento
Fonte utilizada: SERRANO, Francisco, Elementos Históricos Etnográficos de
Mação,1998, p. 71.

Significados de termos usados:

Cordovão – couro de cabra preparado para fazer calçado
Lanzinha (ortografia actual lãzinha) – tecido de lã fino e leve
Carneira – pele de carneiro (ou outra pele fina) depois de curtida
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:34
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