Quarta-feira, 20 de Julho de 2005

Antes da luz eléctrica

O fornecimento de luz eléctrica em Mouriscas começou por volta de 1960. Até aí as pessoas usavam para iluminação principalmente candeias de azeite, candeeiros de petróleo, lanternas e petromaxes.

As candeias de azeite usadas em Mouriscas eram muito simples. Eram feitas de lata e tinham um bico, que suportava uma torcida, feita dum bocado de pano. Produziam uma fraca luz. Penduravam-se com facilidade num prego.

Em lagares usava-se uma candeia de azeite de maior volume, com quatro bicos e torcidas e chamas maiores. Chamavam-se candeios.

Quantas pessoas estudaram em Mouriscas à luz de candeeiros a petróleo! Quantas não vieram de localidades com electricidade! Quantas donas de casa fizeram malha ou costura à luz de tal tipo de iluminação!

Quando falamos de “petróleo” em relação a candeeiros, deveríamos dizer mais rigorosamente “querosene” ou “petróleo de iluminação”. Este líquido avermelhado de cheiro característico vendia-se em todas as mercearias. Também se vendeu ao domicílio. António “Século” andou a vender o produto de casa em casa.

Nas candeias e nos candeeiros existia uma torcida embebida em parte no combustível. Devido a uma interessante lei da física, o combustível subia ao longo da torcida. Quando se acendia a ponta da torcida, a chama produzida ia consumindo o combustível e a torcida.

Os candeeiros a petróleo eram geral de vidro. Alguns tinham um pé alto. As torcidas vendiam-se nas lojas e eram achatadas. Podiam fazer-se subir ou descer por meio duma roda exterior ligada a outra que tinha dentes e estava em contacto com as torcidas. Estes candeeiros tinham chaminés de vidro que protegiam as chamas.

Para acender um candeeiro a petróleo, retirava-se a chaminé e chegava-se à torcida um fósforo a arder. Para apagar o candeeiro, levantava-se a chaminé e apagava-se a chama com um sopro.

Em certas casas havia suportes para candeeiros a petróleo. Noutras eram colocados onde era mais cómodo e útil, como por exemplo, na mesa de cabeceira, na mesa de refeição ou em cima duma cadeira ao pé do lume.

Havia candeeiros a petróleo apropriados para usar na rua ou em palheiros. Eram feitos de lata e tinham uma pega para transporte. Podia-se levantar e baixar a chaminé por meio duma mola. Com a mesma finalidade se podiam usar as lanternas, em que quatro vidros laterais protegiam a chama. As charretes tinham lanternas redondas Um lampião era uma grande lanterna fixa no tecto ou numa parede.

Para uma luz forte atingindo um espaço considerável havia o petromax. Um petromax tinha na base um depósito para querosene e uma bomba manual. Esta servia para introduzir ar que pressionava o combustível e o fazia subir e cair, vaporizado, por um orifício muito pequeno, dentro duma camisa redonda e comprida a que previamente se tinha chegado fogo. A camisa ficava incandescente. A luz produzida era muito clara e de grande intensidade..

Um petromax tinha que ser manejado com cuidado porque a camisa se desfazia com muita facilidade. Era usado em lagares e noutros sítios onde se precisaria hoje de lâmpadas fluorescentes.

Nas festas as boleiras, mulheres que vendiam bolos, dispunham de gasómetros. Pareciam umas botijas com uns bicos donde saía, sob pressão, um gás que produzia uma luz muito brilhante.

A electricidade não estava de todo ausente nesses tempos. Lanternas eléctricas, chamadas comummente “foxes” eram usadas para ver melhor o caminho. Às vezes usavam-se dentro de casa para alumiar um sítio em que outro meio seria pouco útil. Os miúdos tinham uma especial atracção pelos “foxes”. Ter um era motivo de orgulho e inveja.

Para as festas que se realizavam em Mouriscas recorria-se ao serviço de empresas que, por meio de geradores, iluminavam profusamente o recinto, ao mesmo tempo que altifalantes transmitiam música, canções e palavras. Assim, durante alguns dias por ano os mourisquenses tinham um contacto com a iluminação eléctrica.

Em noites sem lua os caminhos eram percorridos, antes da chegada da luz eléctrica, em completa escuridão. No entanto, as pessoas tinham uma espécie de instinto que lhes permitiam pôr sempre o pé no sítio certo e seguir os percursos indicados Tinham um certo encanto e mistério essas noites anteriores à iluminação pública!

Não podemos deixar de referir os candeeiros de latão que se usavam para alumiar os mortos quando ainda eram velados em casa. Eram candeias de azeite com vários bicos. Tinham um apagador e uma pinça para puxar a torcida.

Para terminar refira-se que, quando nascia uma criança, era costume em Mouriscas manter uma lamparina acesa no quarto dela e da mãe durante semanas. Se os mortos mereciam ser alumiados, igual honra mereciam, noutros tempos, os recém-nascidos. Não é verdade que luz é vida?



Artigo escrito por João Manuel Maia Alves que agradece a Carlos Bento a informação da venda de petróleo ao domicílio. Agradecimentos também a Maria Manuela Maia Alves pela revisão do texto, ajuda que já se tornou habitual.
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:44
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