Quarta-feira, 27 de Abril de 2005

Ceifeiros mourisquenses no Alentejo (4)

A atribuição das jornas

O manageiro fixava o com empresário agrícola uma determinada soldada/homem a pagar pela empreitada, que também incluía os moços e os não classificados ainda de camaradas, a qual depois era dividida, de forma desigual, pelos elementos que constituiam a companha. Fixados por consenso, entre o manageiro e os camaradas as jornas a pagar àquelas categorias, o remanescente iria ser dividido pelos restantes ceifeiros.

Em 1922, na Casa Bagulho, a soldada acordada, pelos prováveis quarenta dias de trabalho foi de 100$00. Como foi atribuída aos não camaradas a importância de 25 a 30$00, coube aos camaradas a quantia de 110$00, portanto mais 10$00 do que o combinado com o empresário. Estes quantitativos, fornecidos pelo manageiro António Gonçalves Pedro que foi à ceifa durante dezenas de anos, e confirmados por informadores que com ele trabalharam, - recordo Agostinho Dias Dinis, moço do meu ano e meu amigo de infância - diferem significativamente dos apresentados pelo Pe Pires Martins : "... . Em 1926, creio que as "soldadas" se fixaram em 400$00. Se o trabalho fosse feito só por homens-"camaradas"-, cada um receberia 400$00... ."(1). Há que intensificar a investigação para esclarecer estas e outras discrepâncias.

As soldadas com o decorrer dos anos cresceram lentamente passando pelos 150$00, 200$00, 300$00, para em 1957, ano em que terminaram as migrações para o Alentejo, atingirem 610$00. Neste ano os moços ganharam 210$00 e os rapazes do 4º ano 500$00. Aos ceifeiros das duas pontas era atribuída uma gratificação que oscilava entre os 20$00 e 50$00.

Ao manageiro, para além da jorna como camarada, era oferecida, pelo empresário, uma gratificação que podia atingir os 500$00, recebendo ainda 2% sobre o total das soldadas, que era a "manageria".

Os valores não eram constantes para todas as companhas que se dirigiam para as ceifas alentejanas, variando de concelho para concelho, de empresário para empresário e, especialmente, com o poder de negociação de cada manageiro. Só mais estudos poderão mostrar as respectivas especificidades e diferenças.

O pagamento das soldadas fazia-se no local de trabalho, o que permitia a alguns ceifeiros, se aquele fosse no país vizinho ou terras nacionais próximas, comprar algumas lembranças (por exemplo lenços para a cabeça) para as suas mulheres e noivas. Mas com a carestia de vida surgida depois da Segunda Guerra Mundial, todo o dinheiro era pouco para levar para casa e para liquidar, na loja, as mercadorias fiadas que ajudavam a sustentar a família durante a ausência do chefe.

Os ceifeiros se necessitassem de algum dinheiro, para comprar algum tabaco - onças e livros de papel ou alguns maços de cigarros- , pediam ao manageiro um empréstimo - chamado dinheiro à manta ,que lhes era descontado nas contas finais. Quase sempre preferiam fazer o seu cigarrito, pois, o tempo que gastavam na sua preparação representava uns minutos de descanso. Não há memória de ter surgido algum incêndio provocado por fumadores.

Contactos com a comunidade local e a aculturação

Os contactos sociais estabelecidos por cada membro da companha com elementos da comunidade local, em princípio de natureza mais formal, ficavam limitados aos feitores, guardas, manteeiro, e algumas filhas destes empregados que, muitas vezes, também ceifavam. Com eles os nossos ceifeiros aprenderam muitas cantigas alusivas às ceifas que ainda hoje fazem parte do imaginário e da tradição do povo mourisquense.

Também muitos dos traços que, actualmente, integram a cultura da freguesia de Mouriscas - especialmente alimentação e vestuário- foram difundidos do Alentejo com ajuda dos homens da ceifa.

São aspectos mal conhecidos que devem merecer, de imediato, um estudo sistemático aprofundado, sob pena de muitos se perderem irremediavelmente.

Como o processo da aculturação é recíproco, outro ponto a considerar nestes levantamentos será o de saber se estes trabalhadores temporários não terão também deixado, entre o povo alentejano, alguns dos traços da cultura do alto Ribatejo.

Sem dúvida, que no processo de difusão cultural verificado entre as duas áreas geográficas, os principais agentes foram os milhares de ceifeiros que, durante mais de um século, para minorar o estado de pobreza em que viviam, tiveram de procurar as grandes empresas agrícolas alentejanas.

O regresso a casa

Concluída a empreitada e feitas as contas vinha o regresso ao tão desejado lar.

Os rapazes solteiros ao chegar a casa entregavam, obrigatoriamente, o total da sua soldada ao pai, que, então, lhe oferecia uma pequena quantia de uma dezena de escudos.

Os casados depois de matar saudades e de cumprimentar os familiares mais chegados começavam a pensar em pagar a conta da loja. Caso não o fizesse, nos próximos anos não haveria mais fiados e o seu bom nome, que passaria a andar na "boca do povo", perderia crédito.

Muitas vezes, quando a família era numerosa, o dinheiro ganho na ceifa mal chegava para pagar as dívidas, andando, nestes casos os chefes de família sempre empenhados.

Mal haviam chegado e esquecidas as amarguras passadas durante a ceifa já estavam a pensar em voltar para o ano seguinte. Embora duro, o trabalho da ceifa, mesmo assim, era considerado mais leve que o trabalho de cavador.

Palavras finais

A companha, liderada pelo manageiro, constituía um grupo social coeso e no seu interior as relações sociais pautavam-se pela informalidade, pela cooperação, pelo respeito mútuo e pela inter-ajuda.

Excepcionalmente, de quando em quando, por ambições desmedidas, invejas incontidas e vaidades de alguns camaradas, surgiam situações de tensão e de conflito, imediatamente, superadas pela intervenção enérgica do manageiro. Nestescasos também funcionava o controle social informal, pois, pessoa alguma, ao regressar a casa, desejava ser apontada com tendo um comportamento desviante contrário às expectativas sociais culturalmente estabelecidas, e apresentada como alguém que não soubera honrar a família, o grupo e a sua terra natal.

O comportamento dos companheiros solteiros, - de fama ou desviante -, podia influenciar as raparigas na escolha do noivo, sendo mal aceita todo aquele que criara problemas à companha, tanto a nível do relacionamento como do trabalho.

A ida à ceifa, como mais tarde o serviço militar, constituía um rito de passagem com grande significado no ciclo de vida dos rapazes.

A condição de camarada, conseguida, muitas vezes, aos dezoito anos, vinha alterar o seu status de adolescente, então substituído pelo status de adulto, que lhe permitia fazer parte do grupo dos homens, associar-se, conversar com e como os homens e conhecer os seus segredos.

Com as mudanças sócio-económicas, verificadas depois da II Guerra Mundial, a que o País não foi alheio, as migrações temporárias para as ceifas do Alentejo viriam a terminar em l957.

Delas continuam a perdurar muitos traços de cultura, como resultado dos prolongados contactos e interpenetração de costumes, que, por fazerem parte da história social da freguesia de Mouriscas, é necessário não deixar perder.

As gerações vindouras ficar-nos-ão gratas se nós soubermos transmitir-lhes o que foi a vida dura e sacrificada, mas honesta, dos seus antepassados.

Para o podermos concretizar precisamos de levantar e analisar, cientificamante, esse passado, que nos deve a todos honrar e orgulhar.

As primeiras achegas aqui ficam. Mas um projecto de investigação como este, que tem de ser transdisciplinar e, no futuro alargado, a outras freguesias, exige mais participantes e colaboradores e o envolvimento de toda a comunidade mourisquense, que apesar de pobre, nunca deixará de ser nobre.

O desafio está lançado e creio, sinceramente, que será vencido, pois, vontade, engenho e arte, nunca faltaram aos filhos de Mouriscas.

FIM

Autor deste artigo: Carlos Lopes Bento


Notas

(1)-MARTINS, Anacleto Pires, A Ceifa e a sua Praxe. Um "Torneio" Singular para os "Ratinhos" da Beira .Castelo Branco, 1980, p.8.

Bibliografia consultada para a redacção dos quatro artigos

BENTO, Carlos Lopes, " As Companhas de Ceifeiros Ribatejanos no Alto Alentejo- Uma Forma de Organização Social Extinta", in Livro de Comunicações do IV Congresso Sobre o Alentejo. Portalegre, Ingrapol, 1995, p.p 104-108.
LEITE DE VASCONCELOS, José, Etnografia Portuguesa, Lisboa, I.N., 1982, Vol. V.,p.p. 568-564.
MARTINS, Anacleto Pires, A Ceifa e a sua Praxe. Um "Torneio" Singular para os "Ratinhos" da Beira. Castelo Branco, 1980, p.p.9.
publicado por João Manuel Maia Alves às 19:42
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30


.posts recentes

. Casamentos à moda antiga ...

. Casamentos à moda antiga ...

. Casamentos à moda antiga

. Alcino Serras - atleta d...

. Paulo Lourenço – trabalho...

. Paulo Lourenço – trabalho...

. Major-general médico Carl...

. Curioso costume

. Notícia de 1901

. Chuva de estrelas nas fes...

.arquivos

. Junho 2016

. Maio 2016

. Maio 2014

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds