Terça-feira, 19 de Abril de 2005

Ceifeiros mourisquenses no Alentejo (3)

O horário de trabalho, as refeições e a ementa


Com excepção de uma ou duas vezes - dias de Santo António e de S. João(1) sempre que os trabalhos se prolongavam para além de 24 de Junho -, o astro rei, em cada período diário, nunca surpreendia os ceifeiros a dormir.

O trabalho iniciava-se e terminava três quartos de hora antes do sol nascer e depois de ele se pôr - trabalhava-se de "ar a ar", espaço temporal intervalado por alguns períodos destinados a tomar as refeições e à sesta.

Ao raiar do dia, o manageiro gritava em voz alta: leva arriba oh rapaziada, ou vamos arriba oh família. Iniciava-se, então, o trabalho, aproveitando-se ao máximo o fresco do amanhecer para ceifar com menos sacrificio. Com o nascer do sol vinha a primeira pausa. Era tempo de oração. O manageiro e os seus homens, todos de pé e de cabeça descoberta, rezavam um Padre-Nosso ao Santíssimo Sacramento. Nas palavras do Rev. Anacleto Pires Martins, também ele na ceifa a partir dos dez anos:

“ ...este momento era vivido intensamente, em cada manhã. Aqueles homens valentes, aqueles jovens irrequietos, (...) concentram-se. O seu pensamento voa: aldeia distante, família, noiva, Igreja da terra; eu sei lá que de recordações, que de emoções lhes invadem o coração. Por ali, não se via nem Igreja nem povoado. Era tudo tão distante. Só trigais "folhas" sem fim, azinheiras e as cotovias - companheiras inseparáveis do ceifeiro, seguindo-o sempre com o seu voo e canto característicos.(2)

Vinha de seguida o desjejum .Tratava-se da "bucha" constituída por um pequeno pão de trigo, um pouco maior do que o papo-seco, também conhecido por massaquete(3), geralmente, amaciado com um pouco de água para vencer a sua dureza, que era distribuído, sem conduto ou acompanhado de uma pequena lasca de queijo de rações anteriores e comido num abrir e fechar de olhos. Retomava-se, de imediato, o trabalho que durava até à hora do almoço.

Pelas dez horas da manhã, um intervalo mais alargado, para almoçar. A ementa agora era a açorda, preparada, localmente, em "barranhões", com fatias de pão de trigo, água quente, alho, sal e um pequeno fio de azeite. Em cada "barranhão", espécie de celha de folha de zinco, era confeccionada açorda para cinco ou seis ceifeiros que dele, como símbolo da amizade, comiam em conjunto. Esta refeição depressa se preparava e rapidamente se consumia. Terminava com um louvor a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Retomava-se de imediato o corte e a próxima arrancada findava com o jantar que tinha lugar pelas treze horas e trinta minutos. Era a grande refeição do dia que forneceria a energia necessária para enfrentar as escaldantes horas de trabalho do meio e do fim da tarde. Dela faziam parte uma sopa de grão, raramente de feijão, um naco de toucinho nos primeiros vinte dias, - ao qual se juntava depois morcil(4) -, pão e água.

Nas sextas-feiras a carne de porco era substituída por queijo (meio queijo por pessoa) que muitos guardavam, religiosamente, na totalidade ou em parte, para comer ao desjejum/"desenjum" ou para levar para a família no regresso a casa.

Nos dias de folga comia-se badana (carne de ovino) guisada com batatas - com muitos ossos e gordura e pouca carne.

Terminado o jantar vinham as duas horas da tão desejada sesta. Passava-se à sombra de uma azinheira, quando a havia ou de um ou mais molhos de trigo e servia para fazer um sono reparador de energias, interrompido, apenas, pela voz forte do manageiro ao anunciar "água fresca". De fresca apenas tinha o nome. Era tempo de reiniciar a faina que se prolongava até às dezanove/vinte horas, altura em que tinha lugar a ceia.

Nesta última refeição, de natureza refrescante, era servido o chamado caspacho, confeccionado com sopas de pão cortadas à mão (dois pequenos pães por ceifeiro), alho, vinagre, azeite (uma colher para cada um) e água fria. Também havia direito a azeitonas de conserva. Ela permitia aos ceifeiros suportar "o trabalho até à voz de "solta" que, ao apagar-se o "ar de dia", quando não havia luar, o manageiro lançava aos seus homens, em jeito de pregão libertador".

Antes do descanso nocturno os ceifeiros serviam-se, à vontade, pão seco. O pão era comida de todos os dias, que se comia, continuamente, ao contrário de outros comeres que tinham dias especiais.

Mesas não existiam. Tomavam-se as refeições de pé, de joelhos ou sentados no chão, quase sempre, à torreira da solama escaldante da planície alentejana.

O fornecimento dos produtos alimentares e da água cabia ao manteeiro - homem da terra e da confiança do patrão - que os transportava do monte em carro puxado por animais ou numa mula com ajuda de cangalhas.

Os garfos e as colheres, pertença dos trabalhadores, ficavam à guarda do manteeiro. A distribuição da água era tarefa dos aguadeiros, os moços que iam pela primeira vez à ceifa, cuja idade oscilava em redor dos doze os anos.

O descanso nocturno e o alojamento

Com a chegada da noite, como não existia qualquer tipo de iluminação, para além da fornecida pela lua, variável com as suas fases, a única coisa a fazer seria o descanso que se fazia, habitualmente, ao ar livre, no chão e no local onde terminara o trabalho do dia.

Quebrado o restolho e alisado o terreno com a ajuda das grosseiras botas, juntava-se erva ou feno que servia de cama, cuja roupa se limitava a alguns sacos grosseiros ou a uma ou duas mantas de algodão.

Eram muitas as noites mal passadas e, sempre que havia trovoadas mais violentas, acompanhadas de fortes chuvadas abandonavam os improvisados leitos e corriam para o monte "alumiados" pelos contínuos relâmpagos, levando consigo os poucos haveres de que eram titulares.

Das chuvadas mais fracas defendiam-se com os seus guarda-chuvas e com panos de lona quantitativamente escassos. A falta de comodidade deste improvisado dormitório, que tinha como tecto o imenso céu estrelado, não impedia, devido ao cansaço e às temperaturas diurnas, um sono profundo e repousante por parte dos hóspedes, que apenas era interrompida pelo frio e por toda uma bicharada, de pequeno porte, da qual se distinguiam as "melgas" nada agradáveis e conhecidas pelos seus constantes zumbidos e incómodas picadas.

Sobre as dificuldades sentidas e a solidariedade do grupo são claras e inequívocas as palavras do manageiro António Gonçalves Pedro:

"... . Não nos esquecemos do sacrifício passado no duro trabalho das ceifas na torreira do sol ardente, aonde não havia árvores, de tantos jantares comidos ao sol, de tantas sestas passadas à sombra dos molhos, de tantas noites mal passadas, atingidos por trovoadas, ao abrigo dos molhos e de tantas vezes, acontecer, depois de enrolar a copa, termos de correr para o monte alumiados pela luz dos relâmpagos. O nosso leito era o duro chão e o colchão era o restolho. Tudo se passava em santo convívio de horas tristes e alegres, especialmente, quando se recebia uma carta familiar, em amizade uns com os outros em verdadeira alegria e respeito.

Também quero com prazer declarar que nos trinta e seis anos convividos com milhares de homens nunca tivémos a menor discussão, sempre convivemos com amizade e respeito,... ."( Excerto de uma carta lida, pelo próprio em 10 de Junho de 1983, na Festa dos Ceifeiros, que teve lugar na Capela da Nossa Senhora dos Matos).

As cartas recebidas de familiares, noivas ou amigos enchiam os corações de alegria, servindo para matar saudades e renovar as forças indispensáveis para sobreviver em meio tão adverso.

A higiene corporal diária também não acompanhava estes trabalhadores. Dada a escassez de água - poços não havia - até à primeira folga realizada no dia de Santo António - cerca de vinte dias após o início da ceifa - praticamente não existia, lavando-se os ceifeiros com o abundante suor que escorria, diariamente, por todo o seu corpo

No dia ou dias de descanso tomava-se banho, fazia-se a barba e lavava-se e remendava-se a roupa e os mais curiosos davam um passeio pelo povoado mais próximo.

Apesar de tanta condição adversa as doenças eram raras. O seu aparecimento podia
levar o doente a regressar a casa.

(CONTINUA)


Autor deste artigo: Carlos Lopes Bento


Notas

(1)-O Pe. Anacleto indica-nos como dias de folga O Corpo de Deus e S. Pedro. Pode tratar-se de concelhos diferentes com tradições religiosas diferentes. Op. Cit. p. 6.
(2)-MARTINS, op. cit, p. 7.
(3)-Idem, ibid. p.7
(4)-Do espanhol morcille, morcela em português, em que os principais ingredientes são a sangue e gordura de porco, para além dos tempêros.
.
publicado por João Manuel Maia Alves às 15:03
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