Quarta-feira, 13 de Abril de 2005

Ceifeiros mourisquenses no Alentejo (2)

As companhas e a sua liderança

Mouriscas foi terra de muitos manageiros que foram os principais responsáveis pela aprendizagem da arte de ceifeiro por parte de alguns milhares de rapazes da freguesia e outros lugarejos dos concelhos vizinhos.

Os ceifeiros e os moços não estabeleciam contactos directos com os empresários agrícolas, cabendo essa tarefa tão somente aos manageiros. Pelos meados de Abril, de cada ano, cada manageiro deslocava-se ao Alentejo e a Espanha para observar, directamente, o "pão" que a companha teria de ceifar e combinar com o patrão o número de homens julgados necessários para o efeito, sempre maior para o primeiro e menor para o segundo, que tinha de multiplicar esse número pela importância combinada, a nível da região, como soldada, para o ano. Acordada esta, o trabalho era feito de empreitada. Interessava acabar o mais depressa possível e ganhar o máximo.

Os dados provisórios de que disponho levam a supor que, durante o século XIX, terão saído de Mouriscas, companhas de ceifeiros para Espanha, que terão terminado com o início da guerra civil de 1936, e para o Alentejo.

Entre os grandes manageiros que trabalharam no país vizinho, recordam-se: João Raposo, o maior de todos pela sua habilidade e destreza, que chegou ter uma companha de 200 homens e pai de dois professores primários, um deles - Matias Lopes Raposo, grande formador e meu ilustre e saudoso mestre; Ricardo Pardal; Francisco Alves Bento, meu tio-bisavô; o pai do manageiro José Pires; ... .

São mais numerosos os manageiros que tiveram com destino o Alentejo: António Gonçalves Pedro e seus irmãos Rosendo e Mateus, José Pires; Jesuvino Chambel; Manuel Alves Cartaxo; Martinho Pita; Joaquim Pinto, Augusto Pita; Matias Cabral; Francisco Lúcio; ... .

O recrutamento dos companheiros ou camaradas fazia-se a partir de Março de cada ano, cabendo a cada manageiro escolher, em Mouriscas e nas terras próximas do concelho de Abrantes e dos concelhos de Sardoal, Mação e Vila de Rei, aqueles que oferecessem melhores condições de trabalho e de convivência e não fossem conflituosos. O desemprego existente permitia aos manageiros fazer uma escolha de acordo com os seus propósitos e metas.

As companhas eram constituídas por um número de trabalhadores que variava, em média, na década de 50 do presente século, entre os 20 e 30. Há, contudo, indicações que terão atingido cifras bem maiores, falando-se em companhas de 200 pessoas que, no princípio do século, terão deixado estas terras do alto Ribatejo com destino a Espanha. Neste caso existia um manageiro-geral e vários manageiros sob a sua direcção que se responsabilizavam pela sua companha.

Os manageiros, geralmente, empresários agrícolas de pequena dimensão, estavam posicionados num estrato social mais elevado do que os restantes componentes da companha, que, geralmente, estavam situados na classe social baixa.

Em cada companha, geralmente, de 30 homens - no passado também incluía mulheres - tínhamos 20 homens "parelhos" e 10 rapazes: uns do 3º ano, outros do 2º ano e, finalmente, os do 1º ano de ceifa, os aprendizes ou moços. No conjunto cerca de 50% eram analfabetos.

Alguns manageiros apenas contratavam os homens que anuíssem, antes da ceifa, cavar, de graça, as suas vinhas.

Organizada a companha entrava-se nos preparativos necessários para enfrentar o trabalho e a vida dura que esperava estes homens de rija têmpera. Cada um, de acordo com as suas posses, juntava: o vestuário de trabalho - camisa, calças já em estado adiantado de uso, a braçadeira, o avental com peitoral, os safões de lona ou de sarapilheira, raramente, de pele, os plainitos de cabedal ou de pano, o chapéu de palha enfeitado, as botas cardadas, para muitos, as primeiras a entrar nos seus pés, com rastos de sola ou de pau, - em tempos mais recuados predominariam os tamancos - a foice e os canudos de cana à medida dos dedos.

A viagem até ao local de trabalho

Por volta dos meados de Maio, após a conclusão dos preparativos, dava-se início a uma cansativa e incómoda viagem, da responsibilidade de cada um, envolta em mistérios para os jovens, em que se utilizava a marcha a pé, o burro, - muitas vezes emprestado - o comboio a partir do seu aparecimento, - apanhado em Mouriscas (linha da Beira Baixa) ou no Rossio ao Sul do Tejo (linha do Leste), juntando-se grupos de dez para embaratecer o bilhete - e o carro de tracção animal.

Estes trabalhadores tinham, entre outros, como destino os concelhos de Elvas, Campo Maior, Avis, Arronches Sousel, Borba, Fronteira, ..., e mais perto Ponte-Sôr e antes da 2º Grande Guerra, também, Badajoz, Olivença, ... .

Chegados às terras do destino eram transportados aos montes e, de seguida, ao local de trabalho. Durante cerca de 40 dias, estes trabalhadores, em comunhão de espírito e de esforços, em plena planície, iriam sentir, na carne e na alma, a força das condições ecológicas adversas, o peso do isolamento geográfico e social, as saudades da família e das namoradas e até, aqui e ali, as hostilidade dos trabalhadores locais, que neles viam verdadeiros concorrentes, prejudiciais às suas lutas sociais e salariais.

Para se compreender mais facilmente este específico e temporário modo de vida destes cefeiros é pertinente caracterizar alguns dos seus traços mais relevantes e significativos: a liderança, a arte de ceifar, a distribuição de tarefas, os horários de trabalho, as refeições diárias e respectivas ementas, os períodos de descanso e o alojamento, a distribuição das jornas, o relacionamento com a comunidade local e a interpenetração de culturas, e o regresso a casa.

A arte de ceifar, a hieraquia e a distribuição de tarefas.

A arte de ceifar, com qualquer outra arte, tinha de ser aprendida. Os moços, desde o primeiro ano, tinham de aprender a "dar mantulho"para fazer gavela ou paveia. Era preciso ter jeito para que gavela fosse bem feita. Nem sempre isso acontecia, havendo moços que nunca chegavam a camaradas, reflectindo-se o facto nas remunerações. Era a "arte de ceifar" que fazia a diferença entre camaradas. Alguns sem cansaço eram eficazes no seu trabalho, ceifavam muito. Enquanto que outros bem se esforçavam, bem suavam a camisa mas a produtividade era pequena e deficiente.

A aprendizagem com eficácia, verificada através dos anos, originava uma hierarquia profissional pela qual todos tinham de passar para atingir o topo, que conferia mais direitos e regalias.

Segundo o Pe Pires Martins " a «escalada» tinha a sua praxe e, só em casos especiais, sempre justificados, se não respeitava. De «novel», a começar, subia-se a «sobre-novel». Depois, a passagem a «corte» e à soldada, conforme o trabalho produzido o ia justificando, e, por fim, subida ao último escalão geral - «camarada», pagando-se, no primeiro ano a «patente», ou, se o jovem em causa assim o preferisse, ficava-se pelos «meios interesses» - que correspondiam a metade do ganho ou importância registada entre a «soldada» e a verba atribuída aos camaradas."(1).

Também fazia parte da iniciação pregar algumas "partidas" aos moços. Uma das mais características era mandá-los a determinado local buscar uma pedra para afiar a foice, que não necessitava de ser afiada. Quase sempre os rapazes caíam no logro e lá vinham eles, durante uma longa caminhada, com uma pesada pedra embrulhada ou dentro de um saco e que transportavam às costas até ao local do acampamento. Surgia depois a risada de gozo dos companheiros que fazia o moço compreender e apreender o significado do seu comportamento. Para o próximo ano já estaria, com orgulho, do outro lado, integrado no grupo e seria o seu tempo de rir.

Os moços ou "muchachos" no primeiro ano de ceifa encarregavam-se de ir buscar água às barricas para distribuir pelos ceifeiros, ajudavam o manteeiro nas operações ligadas à produção e distribuição da alimentação, iam ao monte sempre que necessário e ceifavam quando tinham tempo disponível.

A partir do segundo ano os rapazes apenas ceifavam e com o passar dos anos iam crescendo fisicamente e assimilando e interiorizando conhecimentos até se tornarem camaradas. Se aprendiam facilmente a arte de ceifar e se faziam um bom e correcto mantulho, o manageiro, ao fim de quatro ou do quinto ano, dava-os prontos para a função e classificava-os como camaradas.

Uma vez no local de trabalho era necessário dispor os ceifeiros no terreno de modo a tirar o máximo proveito do grupo e das potencialidades de cada um.

Até ao Santo António ceifavam-se favas, grão de bico, cevada e aveia que não exigiam grande perícia nem grande esforço.

Após este primeiro dia de folga, iniciava-se o corte das grandes searas de trigo. Aqui o trabalho era bem mais duro e exigia o cumprimento exacto de um conjunto de regras, sempre executadas sob a orientação directa do manageiro. Para que a empreitada contratada fosse finalizada com êxito no menor tempo possível, ele tinha a árdua tarefa de planear e organizar as tarefas de cada dia de trabalho e de motivar e controlar os seus subordinados. Teria de saber liderar e de adaptar a sua liderança a cada um dos liderados e à situação onde se desenrolava a actividade.

O manageiro, tendo em conta a posição do cereal e a posição do sol, distribuía os seus homens, de acordo com as suas categorias, por uma frente rectilínea, de cerca de cinquenta metros, ficando cada um com um espaço de cerca de dois metros:

" ... O "camarada" alinhava no "corte", sob o comando do "manageiro", e nos lugares previamente estabelecidos, contando com os mais novos, que se intercalavam com os homens, procurando um equilíbrio que pudesse garantir o avanço uniforme da linha da "frente", sem exigir a ninguém um esforço desproporcionado. E tudo isto com regras há muito seguidas - era preciso levar as "hombreadas" ou "pancadas", ao jeito, nunca descendo e, naturalmente, nunca de rosto para o sol, estudando os "talhões", de modo a tornar o trabalho o mais possível eficaz e o menos possível oneroso. Só quando o pão (trigo, aveia ou cevada) acamava, a estratégia habitual se alterava, já que a foice só se lhe metia do lado contrário àquele para onde caía"(2).

Para as pontas - direita e esquerda - eram escolhidos dois ceifeiros eficientes e responsáveis que soubessem bem da arte - também chamados os sotas - que às ordens do chefe adiantavam ou retardavam a sua ponta de modo a alinhar todo o pessoal de corte. Eram estes homens que iniciavam o trabalho em cada folha.

O manageiro tinha de manter a ordem e uma cerrada vigilância sobre os seus homens de modo a evitar que um ou outro "aldrabasse" o trabalho ou se "armasse" em forte, ceifando em despique, em ritmo mais acelerado, de modo a dar nas vistas e ainda, quando necessário, despertar a atenção do grupo para que o serviço não perdesse ritmo. Dos despiques resultavam gavelas mal feitas, espigas pelo chão e restolho irregular que eram suficientes para classificar os ceifeiros de "aldrabões".A maior ou menor rapidez do trabalho e a finalização da ceifa de cada folha também estava relacionado com a produtividade da seara. Uma seara de trigo de vinte sementes - em princípio mais "forte"- levava muito mais tempo a ceifar do que uma com trigo de quinze sementes cujo trabalho "sordia" muito mais.

À medida que iam operando, segundo Leite de Vasconcelos(3) e os dados por mim recolhidos, os camaradas com a mão esquerda, com todos os dedos protegidos por canudos, excepto o polegar que ficava livre, agarravam no cereal, ao tempo que a direita ceifava com a ajuda do seu principal instrumento de trabalho: a foice.

Da quantidade apanhada pela mão (mancheia) tiravam duas ou três espigas que atavam às outras, formando a "gavela". Ao feixe assim constituído dava-se o nome de "mantulho". O conjunto de "mantulhos" que eram atados, por um atador, com o próprio cereal, dava origem aos "molhos". Com um número entre dez e quinze "molhos" formava-se um "relheiro". O conjunto de "molhos" reunidos, próximo da eira, originavam uma "meda" ou "frascal".

Nos primeiros anos de liderança o manageiro ainda ceifava, mas depois passava só a dirigir. Muitas vezes, o manageiro ia atrás da linha de corte para ajudar a atar os "molhos" e para verificar a qualidade da ceifa realizada pela companha. Liderava com base num poder funcional que lhe advinha, especialmente, dos liderados.

(CONTINUA)

Autor deste artigo: Carlos Lopes Bento


Notas

(1)-MARTINS, Anacleto Pires, A Ceifa e a sua Praxe. Um "Torneio" Singular para os "Ratinhos" da Beira .Castelo Branco, 1980, p.p.4-5.
(2)-Idem, ibid. p.6.
(3)-LEITE DE VASCONCELOS, José, Etnografia Portuguesa, Lisboa, I. N., 1982, Vol. V, p.p. 560.
publicado por João Manuel Maia Alves às 16:05
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