Quarta-feira, 6 de Abril de 2005

Ceifeiros mourisquenses no Alentejo (1)

Este artigo e os que se lhe seguem com o mesmo título constituem uma conferência proferida em 16 de Agosto de 1996, a convite da Presidente da Junta de Freguesia, e integrada no Programa da VIIª Feira Mostra de Mouriscas.

AS COMPANHAS DE CEIFEIROS DE MOURISCAS NO ALTO ALENTEJO

Uma forma de organização social extinta

R E S U M O

Alguns dados sobre uma abordagem antropo-sociológica relativa às companhas de ceifeiros que, anualmente, e desde o século passado, de Mouriscas e terras vizinhas, se dirigiam, sob a direcção de manageiros, para Espanha e terras do Alto Alentejo, através da qual se procura conhecer, sistematicamente, as estruturas e funções duma forma organizativa extinta, os constrangimentos ecológicos, o dia-a-dia dos ceifeiros, a hierarquia e responsabilidades das diversas categorias e o relacionamento interpessoal com gente da terra e a importância destes migrantes temporários no processo de difusão cultural.

Os dados que serviram de base a este resumido trabalho fazem parte de uma recolha iniciada em 1987, mas pouco depois interrompida, por razões de natureza académica. Utilizaram-se como técnicas de investigação entrevistas informais, histórias de vida e alguma bibliografia, que está longe de ser completa.

1- A situação geográfica e sócio-económica

A freguesia de Mouriscas, situada no alto Ribatejo, na margem direita do rio Tejo, raiana com a Beira Baixa e com o Alto Alentejo, pela pobreza dos seus solos, muito movimentados e na maioria esqueléticos, pela secura do seu clima, pela proliferação do minifúndio quase sempre murado, foi sempre madrasta para as suas gentes que, inseridas numa economia agrícola de auto-subsistência, viveram, permanentemente, com enormes dificuldades.

A economia, até à década de 60 deste século, tinha como base principal um sector primário voltado, essencialmente, para a olivicultura, as culturas de cereais (milho, trigo, cevada, aveia e algum centeio), a pequena horticultura associada a algumas árvores de fruto e vinha, a criação de animais domésticos e a exploração florestal, especialmente, de pinheiros e matos diversos.

A par da agricultura e da criação de gado - caprino, muar, bovino e asinino- existiam várias artes, a maioria relacionadas com o mundo agro-pecuário: ferreiro, serralheiro, carpinteiro, marceneiro, ferrador, capador, tosquiador, albardeiro, correeiro, latoeiro, caldeireiro, amolador, vendedor ambulante, moleiro, padeiro, lagareiro, mestre de lagar, podador, roçador de mato, serrador, madeireiro, ervanário, carroceiro, pedreiro, sapateiro, alfaiate, tecedeira, costureira, oveira, boleira, cozinheira, benzilhoa-vidente, parteira, cabeleireira, barqueiro, sardinheira, pescador, barbeiro, ceifeiro, comerciante, empregado comercial, merceeiro, taberneiro, negociante de animais, oleiro/ceramista, esparteiro, pirotécnico, coveiro, ... .

De recordar a importância das pequenas oficinas das diversas artes na formação profissional dos jovens .

Concluída a instrução primária,- com exame da quarta classe realizado obrigatoriamente na sede do concelho ou seja em Abrantes - as alternativas colocadas aos pais, quanto ao futuro dos filhos, praticamente, ficavam limitadas à aprendizagem, na freguesia ou terras próximas, de uma arte ou ofício.

Até à fundação Colégio Infante de Sagres que teve lugar por volta de 1940, a continuação dos estudos estava fora de questão para 99% da juventude mourisquense.

Bem poucas famílias - três ou quatro - tinham possibilidades de mandar os seus filhos continuar os estudos fora da terra, visto os mais próximos estabelecimentos de ensino liceal, estarem sediados em Castelo Branco, Portalegre e Santarém. A sua localização exigia despesas - com deslocações e estadia- impossíveis de suportar para a quase totalidade dos pais.

Deste modo ou se aprendia uma arte com a ajuda de um mestre ou familiar, ou a profissão de agricultor com o pai, ou se ficava sem profissão definida, cabendo esta, geralmente, aos que possuíam pouca ou nenhuma escolaridade, sujeitando-se, por esse facto, ao exercício das tarefas mais duras e penosas ligadas ao mundo rural, como: cavador, servente, ajudante ,... .

A empresa agrícola predominante era e continua a ser a pequena e média, com realce para a primeira. Então havia excesso de trabalhadores rurais que tinham sérias dificuldades em arranjar emprego certo e continuado na freguesia. Geralmente dispunham de pequenas e modestas habitações, que abrigavam numerosos filhos- a sua única riqueza. Um ou outro possuía alguns metros quadrados de terreno em cujo amanho ocupava apenas algumas horas de trabalho por ano. Também os pequenos agricultores, para sobreviver, tinham de trabalhar, como assalariados, por conta alheia.

Não será pois de estranhar que estes trabalhadores, uma parte do ano sem actividade e a outra na incerteza de a ter, os baixos salários praticados na agricultura- recordo que, em 1945, os trabalhador rurais, mourejando de sol-a-sol, ganhavam cerca 14$00 por dia, 7$00 quando mulheres,- e muitos artesãos -pedreiros, sapateiros, carpinteiros,... -, a quem a vida não sorria, tiveram de recorrer às migrações temporárias.

Para amealharem alguns escudos e minorarem o estado permanente de penúria em que nasceram e viviam, viram-se obrigados a deixar a sua terra natal e a procurar, nas grandes empresas agrícolas alentejanas, meios de sustento para mitigar a fome do seu agregado familiar, quase sempre, constituído por numerosos filhos- conheci muitos com oito e mais.

Era uma das poucas oportunidades de juntarem algum dinheiro, nessa época, um bem tão escasso para a maioria dos mourisquenses, uma esperança nunca perdida de equilibrar o orçamento familiar sempre em débito para com as muitas lojas espalhadas pela freguesia, todas elas possuidoras do seu «Rol de Fiados».

Para os mais novos, ainda solteiros, era esperança de se tornarem "adultos" ou de amealharem, sacrificadamente, uns tostões para os preparos de um próximo casamento.

Embora as jornas diárias auferidas durante a safra também fossem de pequena monta, as
vantagens de ir à ceifa eram notórias: poupança da alimentação; utilização de vestuário velho, muitas vezes, já fora de uso; trabalho aos Sábados e aos Domingos; despesas nulas na taberna; e pagamento no final do contrato que permitia receber a soldada toda junta.

Intregraram-se, assim, muitos dos nossos conterrâneos, nas migrações anuais que os denominados ratinhos da Beira (1) faziam para as terras alentejanas e espanholas, na época das ceifas.

Fialho de Almeida, fala-nos, em termos pouco lisonjeiros, das condições sociais da gente pobre da Beira Baixa, verificadas nos primeiros anos da última década do século passado, muitas delas, pelos mesmos condicionalismos ecológicos, geográficos e culturais existentes, também afectavam os habitantes mais pobres de Mouriscas, sem dúvida a sua maioria :

"... . Salvo excepções restritas, é uma raça de miséria, avergoada de superstições e de ignorância, comendo mal, vivendo imundo, e guardando ao dinheiro dos ricos uma servilidade de escravos e de cães esfomeados.(...). É daqui o beirão trigueiro, ossoso, de olhos ardentes,(...), que mais ou menos todos temos visto descer em récuas para os trabalhos agrícolas do Alentejo (...) ou vir das ceifas de Espanha, com a casaqueta de saragoça presa por um só botão junto ao pescoço, os tamancos nos pés, o cobertor no varapau, o lenço amarrado na cabeça, o cabelo corredio e a barba rente,....".( Os Gatos, do Círculo de Leitores, 1992, Vol. IV, p.p.180-181).

Parecerá um pouco descabido eu vir aqui dissertar sobre ratinhos conhecendo-se a cuidada atenção que já mereceram por parte de poetas, etnógrafos, geógrafos, historiadores e outros cultores do saber.

Penso ser oportuno fazê-lo, por um lado para dar a conhecer às novas gerações de mourisquenses as dificuldades porque passaram muitos dos seus ascendentes recentes- trisavós, bisavós e avós e pais- e, por outro, por pensar que todas as achegas sobre tão complexa e multifacetada realidade temática, face às variantes locais de cada contexto sócio-cultural, constituirão mais um passo em frente para o conhecimento sistemático da globalidade do fenómeno que faz parte da história social de Mouriscas.

(1)-Segundo o informador António Gonçalves Pedro, já falecido, mas ainda entre os vivos em 1987, então com a idade de 93 anos, os alentejanos designavam os ceifeiros daquém Tejo de ratinhos por eles cobiçarem muito e "ratarem" o pão de trigo e o queijo, alimentos fora do alcance das classes sociais mais pobres.

(CONTINUA)

Autor deste artigo: Carlos Lopes Bento
publicado por João Manuel Maia Alves às 08:15
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