Segunda-feira, 21 de Março de 2005

Antroponímia Mourisquense (1)

Antroponímia Mourisquense entre 1860 e 1910*

Na sequência do que escreveu Augusto Maia Alves, no nosso Blogue, em 15.8.2004, sobre a demografia, antroponímia e toponímia de Mouriscas, iremos retomar e abordar, neste e em próximos artigos, tão interessante temática e procurar saber, em relação a cada sexo, quais os nomes, sobrenomes e apelidos que foram dados e usaram os nossos ascendentes próximos(pais, avós, bisavós, ... ), conhecer a sua razão de ser e desvendar o significado de alguns deles, e, ainda, esclarecer sobre a distribuição dos neonatas por anos e lugares da freguesia.

Serão os nomes próprios, os sobrenomes e os apelidos dos nossos bisavós, avós e pais os mesmos em relação aos nossos, aos dos nossos filhos e netos? Ou serão diferentes? Que factores estarão na base das diferenças e das semelhanças? Quais os nomes próprios e apelidos mais e menos habituais? Que alcunhas deram origem a apelidos? No período em análise quantas crianças nasceram por ano? Por que lugares se distribuía, então, a população de Mouriscas? Terão aparecido novos casais?

As respostas, por vezes, surpreendentes a estas questões tê-las-á ao longo dos textos que se seguem.

Para José Leite de Vasconcelos(1) a antroponímia ou seja o estudo dos nomes - próprios, sobrenomes e apelidos-, usados por cada um dos indivíduos de um povo, sociedade ou grupo social, procura conhecer, entre outros factos, a sua proveniência, alterações temporais e extinção.

Segundo este autor o nome de cada pessoa, de cada um de nós, é constituído por três elementos a saber:

- Nome próprio, que é o nome pessoal ou individual;
- Sobrenome, que nem sempre existe; e
- Apelido, um ou mais, que também pode estar ausente:

DOS NOMES

Os nomes pessoais atribuídos às pessoas têm, geralmente, origens em expressões da língua comum- substantivos, adjectivos e particípios- e, no seu início estiveram ligados, entre outros:

- a coisas e a fenómenos da Natureza;
- ao tempo e sua cronologia;
- à geografia;
- a qualidades físicas e morais da pessoa humana;
- a circunstâncias, necessidades e ocupações da vida quotidiana;
- à religião e à magia;
- à guerra;
- ao poder, seja ele de que tipo for/política;
- a estados socio-culturais, como razões de família e amizade (2).

Eles constituem signos linguísticos e a sua escolha teve como base factores de natureza muito diversa já referenciados, uns relacionados com a realidade eco-geográfica e social, outros com o domínio do sagrado(3).

A origem da maioria dos nomes actuais e das gerações passadas mais próximas vem de muito longe, remontado muitos a épocas longínquas. Têm origem ibérica, grega, latina, greco-latina, germânica, hebraica.

Muitos estão ligados a manifestações de sentimentos religiosos, de fé, de esperança e de afecto e à ideia de satisfação derivada da entrada no seio da Igreja e a nome dos seus santos. Contudo, são vários os nomes de origem obscura.

Temos assim nomes provenientes da Religião, tanto da calendário litúrgico como da Bíblia, da Literatura, da Mitologia, da Lenda, da História, ... .Uns são antigos, muitos dos quais chegaram aos nossos dias; outros são de introdução moderna.

Só por volta do século III os nomes começaram-se a dar-se no acto do baptismo dos cristãos.

A família, a par da religião, tem um enorme peso na escolha dos nomes próprios. É de tradição dar-se ao recém-nascido o nome do pai ou da mãe, dos avós paternos ou maternos, de parentes como irmãos ou irmãs, tios ou tias, ... , dos padrinhos ou madrinhas, que podiam ser uma santa ou santo, dos amigos ou amigas, ... .

O nome próprio, em tempos remotos, era avulso ou seja sem sobrenome ou apelido algum. No entanto, a partir da Idade Média, o nome individual passou a estar acompanhado de sobrenome ou apelido ou de ambos. Em qualquer dos casos há que distinguir entre:

- O nome individual simples, como Maria
- O nome individual composto, como Afonso Henriques, Maria de Jesus.

Até 1911, às crianças era dado, no acto do baptismo, apenas o nome próprio. Nas aldeias era costume encontrarem-se pessoas, sobretudo, mulheres, que não tinham mais que um nome, seguido, às vezes de um complemento que designava o pai ou o marido

A atribuição do nome tinha como base os usos e costumes e as normas ditadas pela Igreja, passando a partir de daquela data, a ser regulado pelo Código do Registo Civil(4), que, na essência, não alterou os procedimentos anteriores.

A partir de então estabelece-se uma nítida distinção entre:

- nome completo;

- nome próprio, que deverá ser escolhido, não só d´entre os nomes que se encontram nos calendários como também «d´entre os que usaram pessoas conhecidas na história, e que não deverá confundir-se com um nome de família(=apelido), nem com os das coisas, qualidades, animais ou análogas»;

- nome de família, que é o apelido ou apelidos.

No que respeita ao caso concreto da freguesia de Mouriscas a Listagem que se segue fornece-nos os nomes simples dados aos mourisquenses entre 1859 e 1911, mostrando-nos ainda os que eram mais comuns.

SEXO MASCULINO

ABEL(6 vezes); ABÍLIO(19 vezes); ADELINO(7 vezes); ADRIANO(3vezes); ADRIÃO( 3vezes); AFONSO(4 vezes); AGOSTINHO(15 vezes); AIROSO(1 vez); ALBERTINO(1 vezes); ALBERTO(1 vezes); ALBINO*(5 vezes); ALEXANDRE(5 vezes); ALFREDO(8 vezes); ÁLVARO(2 vezes); AMADEU(1 vez); AMADOR(1 vez); AMÉRICO(1 vez); AMÍLCAR(1 vez); ANACLETO(1 vez); ANDRÉ(2 vezes); ANGELO(4 vezes); ANÍBAL(1 vez); ANSEMO(2 vezes); ANTERO(1 vez); ANTÓNIO*(225 vezes); APOLINÁRIO(3 vezes); ARMINDO*(1 vez); ARTUR(6 vezes); AUGUSTO*(56 vezes); AURÉLIO(2 vezes); BASÍLIO(1 vez) BENEVENUTO(2 vezes); BENJAMIM(6 vezes); BENTO(2 vezes); BENVINDO*(2 vezes); BENARDINO(1 vez); BERNARDO(5 vezes; BOAVENTURA(4 vezes); BONIFÁCIO(4 vezes); BRAZ(1 vez); CARLOS(2 vezes); CASIMIRO(5 vezes); CELESTINO*(1 vez); CESÁRIO(1 vez); CONSTANTINO (1 vez); CRISPIM(1 vez); CUSTÓDIO(1 vez); DANIEL(15 vezes); DAVID(1 vez); DEOLINDO*(1 vez); DIAMANTINO*(6 vezes); DIOGO(1 vezes); DOMINGOS(11 vezes); DUARTE(1 vez); EDUARDO(6 vezes); ELIAS(6 vezes); EMÍDIO(2 vezes); EMÍLIO(2 vezes); EPIFÂNIO(1 vez); ERNESTO(1 vez); ESEQUIEL(2 vezes); ESTEVÃO(1 vez); EUGÉNIO(1 vez); EUSTÁQUIO(1 vez); EVARISTO(2 vezes); ESEQUIEL(2 vezes); FAUSTO(1 vez); FELECIANO(3 vezes); FELICÍSSIMO(4 vezes); FELISARDO(1 vez); FELISBELO(1 vez); FELISBERTO(1 vez); FELIX(2 vezes); FERMINO/FIRMINO(4 vezes); FERNANDO(1 vez); FIEL(1 vez); FIRME(1 vez); FLORÊNCIO(1 vez); FLORIDO(2 vezes); FORTUNATO(1 vez); FRANCISCO(215 vezes); GABRIEL(1 vezes); GERMANO(1 vez); GRACINDO(1 vez); GREGÓRIO(1 vez); GUALDINO(1 vezes); GUILHERME(1 vezes); HENRIQUE(22 vezes); HERCULANO(1 vez); HERMENEGILDO(5 vezes); HIGINO(1 vezes); HONORATO(1 vez); INÁCIO(2 vezes); IZEQUIEL(1 vez); IZODORO(1 vez); IZIDRO(8 vezes); JACINTO*(19 vezes); JACOB(1 vez); JERÓNIMO(1 vez); JESOVINO/JESUVINO*(7 vezes); JESUÉ/JOSUÉ(15 vezes); JESUS(1 vez); JOÃO(187 vezes); JOAQUIM*(78 vezes; JOSÉ(228 vezes); JÚLIO*(3 vezes); JUSTO(2 vezes); LÁZARO(1 vez); LEÃO(1 vez); LEONEL/LIONEL(5 vezes); LEOPOLDINO*(1 vez); LOURENÇO(2 vezes); LUCAS(3 vezes); LUIZ(119 vezes) ; MANOEL/MANUEL(268 vezes); MARCELIANO*(1 vez); MARCOLINO(1 vez); MARIANO*(1 vez; MÁRIO(1 vez); MARTINHO*(14 vezes; MATEUS(5 vezes); MATIAS(10 vezes); MÁXIMO(1 vez); MIGUEL(6 vezes); MOISÉS(2 vezes); NARCIZO(4 vezes); NORBERTO(1 vez); PAULINO*(1 vez); PEDRO(2 vezes); PHILOROMO(1 vez); PRIMITIVO(1 vez); PRIMO(2 vezes); QUIRINO(1 vez; RAFAEL(4 vezes); RAMIRO(5 vezes); RAUL(1 vez;) RICARDO(4 vezes); ROMEU(1 vez); ROQUE(1 vez); ROSENDO(2 vezes); SALUSTINIANO(3 vezes); SAMUEL(2 vezes); SEBASTIÃO(14 vezes); SECUNDINO(1 vez); SERAFIM(1 vez; SEVERINO(22 vezes); SILVÉRIO(32 vezes); SILVESTRE(1 vez); SIMÃO(5 vezes); SIMPLÍCIO(1 vez); TEÓFILO(1 vez); TOMÁS(1 vez); TIAGO(3 vezes); TOBIAS(1 vez); TOMÉ(3 vezes); ULISSES(1 vez); VALÊNCIO(1 vez); VALENTIM(1 vez); VENÂNCIO(1 vez); VENTURA(2 vezes); VERÍSSIMO(1 vez); VICENTE(25 vezes ; VIRGÍLIO(1 vez); VITORINO(8 vezes); ZACARIAS(7 vezes); ZEFERINO(1 vez).

De realçar os 5 nomes, então mais usuais, com os seguintes registos:

1º- Manuel 268; 2º- José 228; 3º- António 225; 4º- Francisco 215; 5º- João 187.

E quanto ao sexo feminino, quais os nomes mais usuais? É o que veremos no próximo artigo.

(1)- Este estudioso português, grande etnólogo do século passado e o primeiro a abordar, sistematicamente, a problemática ligada ao NOMES das pessoas, deixou-nos uma preciosa obra que intitulou ANTROPONÍMIA PORTUGUESA. TRATADO COMPARATIVO DA ORIGEM, SIGNIFICAÇÃO, CLASSIFICAÇÃO, E VIDA DO CONJUNTO DOS NOMES PRÓPRIOS, SOBRENOMES, E APELIDOS, USADOS POR NÓS DESDE A IDADE MÁDIA ATÉ HOJE. Foi publicada Pela Imprensa Nacional, em 1928.
(2)- Op. cit. p. 23 e 85.
(3)- Idem, Ibid., p. 23 e segts.. O autor indica razões de ordem religiosa, de devoção particular, histórica, de família ou amizade, políticas, do acaso, superstição, fantasia, moda, patriotismo.
(4)- Aprovado pelo Decreto com força de Lei, datado de 18.2.1911. Ver Leite de Vasconcelhos, op, cit., p.98.
*. Trabalho assente em dados informáticos preparados por Augusto Maia Alves e João Maia Alves.

(CONTINUA)

Este texto é da autoria e da responsabilidade de Carlos Bento
publicado por João Manuel Maia Alves às 17:00
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