Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
Chuva de estrelas nas festas do Espírito Santo

O que se segue, numa cor diferente, é uma transcrição da brochura que a comissão das festas do Espírito Santo de 1964 elaborou.

AS FESTAS DE VERÃO e os seus Programas de Variedades

Nem sempre tem sido possível trazer às nossas Festas a atuar nos seus programas de variedades os artistas desejados. Uns, por impossibilidade de se deslocarem nas datas exigidas, outros, por se tomarem incomportáveis para nós os honorários exigidos. Apesar disso, Mouriscas teve já oportunidade de ver e ouvir, através dos Programas, alguns dos maiores artistas da Rádio, T.V. e Teatro e alguns dos melhores agrupa­mentos folclóricos do País. Eis alguns dos que nos lembramos:

Maria de Lourdes Resende
Eugénia Lima
Maria de Fátima Bravo
Anita Guerreiro
Mimi Gaspar
Simone de Oliveira
Gina Maria
Alice Amaro
Maria Candal
Marina Neves
Lina Maria
Maria Cândida
Leónia Mendes
Cidaliza do Carmo
Estela Alves
Maria Fernanda Soares
Maria Helena Silva
Maria Eduarda
Cândida Viana
Fernanda Paula
Helena Moreira Viana
Fernanda Guerra
Rui de Mascarenhas
Tristão da Silva
Luís Piçarra
Max
Tomé de Barros Queirós
Manuel Fernandes
Artur Ribeiro
Loubet Bravo
Paulo Alexandre
Carlos do Nascimento
Humberto de Castro
Hélder António
Silva Tavares
Miguel Simões
Carlos Lacerda
João Viegas
Fernando Ribeiro
Vitorino Matono
Carlos Areias
Jerónimo Bragança
João Aleixo
Raul Nery
José Nunes
Júlio Gomes
Yola e Paulo
Adoración e José Luís
Pilarim Santana
Rancho “Tá-Mar” da Nazaré
Rancho Folclórico da C. P. do Cano
Rancho Folclórico do Cartaxo
Rancho Folclórico de T. Novas
Rancho Folclórico de Riachos
Rancho Infantil de Almeirim
Orquestra Típica Albicastrense.

Estes nomes pouco dirão às gerações atuais. No entanto, deles constam grandes nomes da rádio e do espetáculo, como, por exemplo:

  • Acordeonistas como Eugénia Lima e João Aleixo;
  • Cançonetistas como Maria de Lourdes Resende, Maria de Fátima Bravo, Mimi Gaspar, Maria Fernanda Soares, Tristão da Silva, Rui de Mascarenhas, Artur Ribeiro, Luís Piçarra e Paulo Alexandre;
  • Fadistas como Manuel Fernandes e Loubet Bravo;
  • Tocadores de guitarra e viola como Raul Nery e Júlio Gomes;
  • Bailarinos como Yola (espanhola que fez furor) e Paulo e
  • Apresentadores como Miguel Simões e Carlos Lacerda.

De nomes que faltam na lista recordo Joaquim Cordeiro, fadista humorístico, e a cançonetista Ilda Artur, que penso que foi acompanhada ao piano pelo compositor Nóbrega e Sousa, seu tio ao que julgo.

Alguns artistas visitaram-nos várias vezes. Foi o caso de Maria de Lourdes Resende, que foi rainha da rádio e a quem alguns chamavam a feia-bonita.  Aliás, um das suas canções aludia à sua falada feiura. Esta cançonetista cantou nas festas quatro anos seguidos.

Tristão da Silva cantou duas vezes no mesmo ano. Da primeira pouca gente o ouviu por causa de chuva intensa. Voltou, sem pedir muito dinheiro. Convidou para padrinhos dum filho que ia nascer o Dr. Santana Maia, grande animador das festas, e a esposa, D. Cremilde. Tristão da Silva cantava magnificamente, mas afligia ouvi-lo agradecer os aplausos porque sofria de forte gaguez. Nesta foto vemos Tristão da Silva e o Dr. Santana Maia.

Um dos artistas que nos visitou foi Luís Piçarra, um cantor com uma potente voz imortalizada por cantar o hino do Benfica. Numa noite de magia e encanto cantou várias peças do seu repertório e uma ária do Barbeiro de Sevilha, ópera que se interpreta em geral  com acompanhamento duma grande orquestra e num ambiente solene, bem diferente do duma festa popular. O artigo anterior deste blogue é dedicado a essa noite fabulosa.

Penso que os primeiros artistas da rádio a atuar nas festa do Es pírito Santo foram a  acordeonista Eugénia Lima e os cançonetistas Rui de Mascarenhas e Paulo Alexandre, em 1954. Nessa altura Mouriscas não tinha luz elétrica, havia muito poucos rádios, que funcionavam com baterias que se tinham de carregar no Tiago Faria. As pessoas tinham oportunidades reduzidíssimas de ouvir as grandes vedetas da rádio ou mesmo de ouvir música. Claro que também assistiam às festas mourisquenses com empregos de colarinho branco, como se diz hoje, que viviam na cidade e já ouviam rádio, mas na sua maioria os mourisquenses trabalhavam a terra ou entregavam-se a atividades artesanais, trabalhando o dia inteiro e sem eletricidade e rádios. As festas eram, assim, uma oportunidade para ouvir vedetas de que poucos tinham ouvido falar ou tinham escutado.  Os artistas traziam uma importante contribuição a festas que proporcionavam convívio e divertimento a toda a população mourisquense, duma ponta a outra da freguesia, e que atraíam inúmeros visitantes.

A presença de numerosas e talentosas estrelas da rádio conferiu alto nível artístico a muitas noites das festas do Espírito Santo, que se realizavam em Setembro. Quem teve a felicidade de assistir não esquece!

 

 

Autor: João Manuel Maia Alves 



publicado por João Manuel Maia Alves às 16:51
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Sábado, 31 de Março de 2012
Ópera nas festas do Espírito Santo

Este artigo foi publicado em 30 de janeiro de 2007 neste blogue com o título Ópera nas festas de verão. Foram introduzidas algumas pequenas alterações.

Em Mouriscas realizaram-se por volta dos anos 1950 e 1960 grandiosos festejos de fim de verão, as festas do Espírito Santo, com fabulosos espetáculos com a participação de grandes artistas. Num deles até se cantou ópera. Ópera???!!! Este não deve estar bom da cabeça, poderão comentar alguns leitores. É verdade, como vamos ver, houve uma noite das festas em que se cantou ópera.

Atuou nas festas do Espírito Santo a fina-flor dos artistas de então – cançonetistas, fadistas, tocadores de guitarra e viola, acordeonistas. Também tivemos a presença detalentosos pianistas, declamadores e dançarinos. Numa noite de 1954 ou 1955 compareceram no Largo do Espírito Santo, nas Ferrarias, três notáveis artistas – os cantores Luís Piçarra, Max e Joaquim Cordeiro. Presente estava também o locutor da rádio Miguel Simões.

Diga-se antes de continuar que este artigo é escrito totalmente a partir da memória do autor. Falhas são possíveis, mas é convicção do autor que o essencial está certo.

O elenco que nessa noite atuou em Mouriscas era de molde a proporcionar um espetáculo de sonho. Luís Piçarra e Max eram artistas com nome feito, capazes de cantar e encantar. Assim sucedeu nessa noite de verão mourisquense, com o largo a abarrotar de mourisquenses e visitantes. Deliciaram os presentes. Joaquim Cordeiro era muito divertido, dado o carácter humorístico dos versos que cantava. A partir de Uma Casa Portuguesa, de Artur Fonseca, compôs Uma Casa Bera. Paródias humorísticas construiu a partir de conhecidas canções. Quando apresentava as suas composições, fazia-o mais ou menos assim: “Vou cantar Uma Casa Bera, uma criação de Artur Fonseca, uma má-criação minha”. Joaquim Cordeiro deliciou também o público mourisquense. A certa altura disse em ar de brincadeira qualquer coisa do género: “Olha para este peitoril, oh Piçarra”. O que Piçarra cantava exigia bons pulmões.

Também Miguel Simões encantou o público com a sua forma de apresentar os artistas e com as suas anedotas. Também foi interessante ouvir como a sua carreira estava ligada à de Max.

A certa altura da atuação de Luís Piçarra, conhecido hoje de muita gente por cantar o hino do Benfica, Miguel Simões anunciou ao público mourisquense mais ou menos isto: “E agora, minhas senhoras e meus senhores, Luís Piçarra vai cantar para todos vós o Fígaro da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Seguiram-se mais ou menos cinco minutos em que Piçarra cantou em italiano esse belíssimo trecho de ópera. A maior parte dos mourisquenses e visitantes reunidos nessa noite no Largo do Espírito Santo em Mouriscas nunca tinha ouvido cantar ópera. Muitos não voltaram a ouvir. Todos devem ter gostado mesmo sem perceber os versos. Os aplausos foram fortes e prolongados.

Foi assim esta noite mágica dos festejos de fim de verão de outros tempos em Mouriscas.

Já agora um pouco sobre esse Fígaro da peça que Piçarra cantou em Mouriscas. O Barbeiro de Sevilha é uma ópera ou seja uma peça de teatro cantado e acompanhado por uma orquestra. É uma ópera cómica em que o Conde de Almaviva deseja casar com a jovem Rosina, pupila do velho Dr. Bártolo, que, por causa do seu avultado dote, também a quer desposar. O conde é ajudado pelo barbeiro Fígaro, um factótum, isto é um fura-vidas, um indivíduo que se envolve em múltiplas atividades. No trecho cantado por Piçarra, Fígaro entra em cena pela primeira vez e faz galas das suas capacidades. Aqui vai um excerto para termos uma ideia do que, nessa já longínqua noite de verão mourisquense, Piçarra cantou com a sua potente voz.

Ah, que vida bela, que grande prazer, para um barbeiro, de qualidade, de qualidade! Ah, bravo, Fígaro, bravo, bravíssimo, bravo! Lá ran lá lera, lá ran lá lá. Afortunadíssimo és na verdade! Lá ran lá lera, lá ran lá lá. Pronto a fazer tudo, de noite e de dia sempre a dar voltas movendo-se está. Melhor bocado para um barbeiro, vida mais nobre, não, não há. Lá ran lá lera, lá ran lá lá. Navalhas e pentes, bisturis e tesouras às minhas ordens tudo aqui está, são os recursos pois do ofício com a senhorinha, com o cavalheiro. Ah, que bela vida, que grande prazer, que grande prazer para um barbeiro de qualidade, de qualidade! Todos me chamam, todos me querem, mulheres, rapazes, velhos, raparigas. Traz a peruca … rápido a barba… traz as sanguessugas, rápido a carta! Fígaro, Fígaro, Fígaro! Ai de mim! Ai de mim! Que fúria! Ai de mim! Que multidão! Um de cada vez, por caridade! Fígaro! Estou aqui. Eh, Fígaro! Estou aqui. Fígaro cá, Fígaro lá, Fígaro cá, Fígaro lá, Fígaro acima, Fígaro abaixo,

Nessa noite de verão ouviram-se em Mouriscas vários estilos musicais, desde as canções humorísticas de Joaquim Cordeiro a um trecho de ópera de Luís Piçarra, passando pela linda voz madeirense de Max. Foi um serão de magia e encanto, como o foram muitas outras noites das festas de Mouriscas de há mais de meio século.

João Manuel Maia Alves



publicado por João Manuel Maia Alves às 09:43
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012
Matias Lopes Raposo - a paixão de ensinar

 

 

O Prof. Matias Lopes Raposo é uma figura que se agiganta na história de Mouriscas. Da sua ação educativa beneficiaram largamente muitos mourisquenses e não mourisquenses. Poucos naturais de Mouriscas contribuíram tanto para a melhoria de vida dos seus semelhantes. Sem ele, teria sido diferente a história da terra que o viu nascer. Por tudo o que fez por Mouriscas e pelos outros merece ser recordado.

Matias Lopes Raposo nasceu nos Engarnais Cimeiros, em 8 de novembro de 1891. Era filho de João Lopes Raposo e de Francisca Marques. Faleceu em 5 de maio de 1961. 

Em 15 de julho de 1911 concluiu na Escola de Ensino Normal de Portalegre, com a classificação de 19,5 valores, o curso de professor do ensino primário.

Matias Raposo começou a sua carreira em março de 1912, no Rossio ao Sul do Tejo, onde lecionou durante um ano. Fixa-se no ano seguinte em Mouriscas, onde iria exercer uma autêntica cruzada pela educação. Aposentou-se  no decorrer do ano letivo de 1947-48.

Em julho de 1936 foi nomeado para uma comissão colaboradora da reforma do ensino primário, tendo sido louvado em março de 1938 pela dedicação e competência de que deu provas durante os respetivos trabalhos.

Em fevereiro de 1936 foi nomeado Delegado Escolar do Concelho de Abrantes, cargo que desempenhou até junho de 1947.

Matias Lopes Raposo, um homem muito culto e excelente e exigente professor, começou ainda nos anos 30 a preparar rapazes para os concursos para empregados do correios e do caminho de ferro. Teve tanto êxito que as suas aulas se tornaram muito conhecidas e atraíram a Mouriscas rapazes de terras próximas como Belver e Alferrarede, outras menos próximas como o Gavião e outras bem afastadas como Alcains, a Sertã, Marvão ou localidades do Oeste.

A atividade atingiu grandes proporções e o Prof. Raposo, que também estava encarregado do Registo Civil e tinha de dar as suas aulas de professor do ensino primário, teve de dividir tarefas com a esposa, D. Maria Amélia Moreira, natural de Vila Fernando, perto de Elvas, a filha, D. Cremilde e o genro, Dr. João Santana Maia, médico, que tinha em Coimbra adquirido formação noutras áreas.

 

 Prof. Raposo, D. Cremilde, Dr. Santana Maia e D. Maria Amélia

 

Estes cursos foram extremamente importantes para muitos mourisquenses. Permitiu-lhes, sem terem que se deslocar para outras terras e sem terem que interromper as suas atividades normais, o acesso a uma formação que lhes abriu a oportunidade de trabalharem em estações dos comboios, como revisores ou nos escritórios da CP, com as correspondentes vantagens dum trabalho mais limpo, com melhores remunerações e com melhores possibilidades de educação dos filhos. Alguns que não tiveram nota suficiente nos exames para serem chamados para o caminho de ferro foram admitidos noutras empresas. Todos ficaram mais instruídos e subiu o nível cultural de Mouriscas.  

Sobre o que foi chamada a Universidade Ferroviária de Mouriscas, podem ler um artigo deste blogue clicando em http://motg.blogs.sapo.pt/51612.html.

A dinâmica gerada pelos curso de preparação para os exames da CP levou à criação do Colégio Infante de Sagres, uma instituição que muito prestígio deu a Mouriscas e em grande medida beneficiou muitos dos seus filhos.

No dia de 5 de Maio de 1968, sete anos decorridos sobre o seu falecimento, foi prestada uma homenagem ao Prof. Matias Raposo. Foi o seu nome dado a uma das ruas de Mouriscas, tendo feito uma alocução o presidente da Junta de Freguesia, Francisco Lourenço Grossinho. Foi inaugurado, junto ao então Colégio Infante de Sagres,  o monumento alegórico "à memória da sua pessoa e obra, erigido por subscrição pública entre os seus alunos, amigos e conterrâneos”. Neste ato foi encarregado o Professor Doutor Fernando Dias Agudo de falar pela Comissão de homenagem. Refira-se que o Professor Doutor Fernando Dias Agudo, professor catedrático de Matemática que, além de desempenhar outros altos cargos, foi Diretor da Faculdade de Ciências, da Universidade de Lisboa, guardou as melhores recordações do Prof. Raposo, de quem foi aluno na 4.ª classe, afirmando “o que então aprendi deu-me uma preparação extraordinária para a entrada no liceu”. Em nome da família falou o Dr. Carlos Alberto Raposo Santana Maia, neto do homenageado.

Na foto seguinte podemos ver o monumento ao Prof. Raposo, em frente do colégio que fundou.

 

 

Depois de um almoço de confraternização, realizou-se uma sessão solene em que usaram da palavra, pelos alunos da altura, Joaquim Augusto Martins Rodrigues e, pelos antigos, o Prof. António Marques Heitor. Encerrou a sessão o Diretor do Colégio e genro do homenageado, Dr. Santana Maia.

O Professor Doutor Fernando Dias Agudo teve a gentileza de fornecer as notas preparatórias da alocução que na altura proferiu. São essas notas que, com autorização do autor, a seguir se transcrevem em itálico.

O orador começa por referir a contribuição que Mouriscas tem dado para o desenvolvimento do país através da valorização intelectual dos seus próprios filhos, entre os quais se contam algumas dezenas com cursos superiores e muitos exercendo altos cargos nos mais variados lugares de todo o espaço português. Observando depois que os problemas educacionais se devem resolver com grande antecedência, que o ensino é campo onde os frutos se colhem muitos anos após a sementeira, realça a obra realizada pelos professores que há meio século levaram o povo de Mouriscas a antever na educação um dos maiores fatores do progresso. Presta assim uma primeira homenagem ao Professor M. Lopes Raposo, professor primário competentíssimo, mas neste aspeto associa-lhe toda a plêiade de educadores que o precederam ou que com ele colaboraram nesta obra de valorização intelectual dos habitantes de Mouriscas.

É hoje corrente falar de cursos de formação, da necessidade de preparar gente para as novas profissões que vão surgindo, para as modernas exigências da sociedade industrial; e também não constitui novidade afirmar que nos países progressivos não irá além de uns 10% a percentagem da população ativa que se ocupa nos trabalhos agrícolas. Recuando uma vez mais no tempo, o orador cita os cursos iniciados há muitos anos pelo Prof. Raposo para preparar os seus jovens conterrâneos para os Caminhos de Ferro e Correios, dando assim a oportunidade a muitos deles de uma promoção social que não conseguiriam se continuassem ligados ao setor primário. E hoje, enquanto os elementos mais válidos de muitas aldeias do país tiveram que procurar além fronteiras um melhor nível de vida (nem sempre conseguido!), os naturais de Mouriscas encontram-se na sua quase totalidade a trabalhar no espaço português nos mais variados sectores, mas contribuindo todos eles para o progresso do país em que nasceram.

Ficou assim focado um segundo aspeto pelo qual Mouriscas muito deve ao Prof. M. Lopes Raposo.

Mas avançando um pouco mais, o orador lembra que também hoje se diz e escreve por toda a parte que um país é tanto mais progressivo  mesmo materialmente!  quanto maior for o número de anos de estudo da sua população. Mas pergunta quantas freguesias rurais de Portugal possuíam há 20 anos um colégio onde os seus jovens habitantes pudessem prosseguir cinco anos de estudo além da escolaridade obrigatória? Quantos filhos e netos de trabalhadores agrícolas estariam em condições de poder tirar na sua própria terra  o curso geral dos liceus?

E ao citar esta obra extraordinária do Prof. M. Lopes Raposo, criando o Externato Infante de Sagres em Mouriscas (coadjuvado agora pelo seu genro, o Dr. Santana Maia), o orador realça novo aspeto da ação notável deste educador de eleição.

Professor distintíssimo das primeiras letras, entusiasta pelos cursos de formação, criador de um dos primeiros colégios que existiram em aldeias de Portugal, o Prof. Raposo não descurou os aspetos materiais da terra que tanto amava  e o orador terminou a sua alocução por referir a ação do homenageado com Presidente ilustre que foi da Junta de Freguesia de Mouriscas.

Por altura da sua morte, escreveu-se no jornal Nova Aliança, de Abrantes, o que se segue:

“Muita gente em Mouriscas lhe deve as asas de instrução em que se ergueu nos vários sectores da vida nacional: médicos, advogados, sacerdotes, professores, funcionários públicos, etc., iniciaram com o Prof. Raposo o desenvolvimento da sua capacidade intelectual e se revelaram capazes de prosseguir em voos intelectuais de maior importância.”

Excelente retrato dum homem de grande caráter, personalidade e determinação! Mouriscas o viu nascer e muito lhe deve. É uma figura de quem se pode orgulhar!

 

Agradecimentos ao Professor Doutor Fernando Dias Agudo pela sua preciosa ajuda para redação deste artigo. Agradecimentos também a Fernando Bento pela fotografia do monumento.



publicado por João Manuel Maia Alves às 08:58
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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012
Informação

Escrever no blogue MOURISCAS – TERRA E GENTES estava a tornar-se muitíssimo difícil e demorado por ser um pouco antigo. Além disso, a certa altura, o blogue ficou inacessível. Felizmente foi possível transferir os artigos para um novo espaço e nele continuar o blogue, com o mesmo endereço, novo aspeto e mais meios.

A transferência dos artigos nem sempre terá assegurado a mesma disposição. É possível, por exemplo, que nalguns casos tenham desaparecido os parágrafos ou espaços entre palavras. Seja como for, os conteúdos serão, com certeza, legíveis e compreensíveis.



publicado por João Manuel Maia Alves às 18:06
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
Manuel Serrano - mestre sapateiro

 

Hoje compramos calçado já pronto a usar. Noutros tempos era feito por encomenda pelos sapateiros. Como toda a gente precisa de usar botas ou sapatos, os sapateiros eram pessoas importante em qualquer comunidade. Em geral, tinham um estabelecimento e eram muito conhecidos.

Manuel Serrano foi um dos sapateiros de Mouriscas. Dele fala este artigo e também de aspetos ligados à sua arte.

Manuel Serrano nasceu em 8 de julho de 1921, no lugar de Outeiro dos Penedos, junto ao Surdo. É filho de Aurélio Serrano, conhecido por Aurélio Palhinhas, e Capitolina Lopes. Manuel Serrano é conhecido por Manuel do Aurélio.

Quando era pequeno, desejava ser pedreiro. O pai achava que ser sapateiro era uma boa ideia. O ofício de sapateiro já tinha praticantes na família. O avô materno, Manuel Serras, que, como Manuel Serrano, vivia no Outeiro dos Penedos, era sapateiro, embora sem estabelecimento e sem se dedicar totalmente ao ofício. Também o seu tio paterno e futuro sogro, Eustáquio Serrano (Eustáquio Palhinhas), era sapateiro estabelecido no Casal Pita. Foi realmente a arte de sapateiro que Manuel Serrano abraçou. Começou a sua aprendizagem aos 14 anos com o tio Eustáquio Serrano (Palhinhas), no Casal Pita, a qual continuou, ao fim de um ano, nos Engarnais Cimeiros com Joaquim Alves, conhecido por Joaquim Venâncio. Ao fim de dois anos tinha completado a sua aprendizagem. Tinha então dezasseis anos.

Só pelos vinte e três ou vinte e quatro anos, quando casou com a sua prima Zulmira Cadete, que foi conhecida tecedeira, Manuel Serrano se estabeleceu como sapateiro. Depois da conclusão da aprendizagem como sapateiro e até se estabelecer trabalhou nas oficinas doutros sapateiros, em Mouriscas e fora, e entregou-se a trabalhos do campo, como ceifas e apanha da azeitona. Era dura a vida há umas décadas.

A sua primeira oficina foi nos Engarnais Cimeiros, um pouco no interior do lugar. A certa altura decide tentar a sua sorte em Angola, onde esteve exercendo a arte de sapateiro, durante um ano aproximadamente. Voltou e, passando um certo tempo, mudou a sua oficina e a sua residência para uma casa à beira da estrada normalmente chamada dos Engarnais, num lugar que chamam do Outeiro, um pouco antes dos Engarnais Cimeiros. Aqui manteve o seu estabelecimento enquanto exerceu a arte.

Da sua sapataria podemos ver a seguir um anúncio publicado com o programa das festas de verão de 1964. 

 

 

Quando Manuel Serrano se estabeleceu, teve de criar freguesia num meio onde já havia outros oficiais do mesmo ofício. Só nos Engarnais Cimeiros havia dois. Foi criando freguesia a pouco a pouco, numa profissão em que era essencial criar e manter uma boa imagem. Uma boa reputação cria-se devagar, mas pode desfazer-se num instante. Um cliente aborrecido podia fazer correr informações desfavoráveis e a procura de serviços podia diminuir. Às vezes, o aborrecimento era devido a circunstâncias que não dependiam do sapateiro; por exemplo, o material usado podia sair de má qualidade. Tudo isto para dizer que os sapateiros tinham de criar clientela e mantê-la num meio em que havia muitos oficiais do mesmo ofício.

Manuel Serrano tinha que satisfazer várias exigências e necessidades. Havia aqueles que queriam calçado forte e feio para trabalhar. Muita gente ainda recordará as grossas botas de cabedal com umas correias que davam a volta ao pé, com rastos de pneu ou sola com fortes proteções de metal, como brocha de asa de mosca ou cardas. Outros, ou os mesmos noutras ocasiões, queriam um produto bonito, bem acabado, de luxo mesmo; materiais especiais, importados alguns, podiam ser usados para o calçado do cliente ou da cliente mais exigente, com mais gosto e disponibilidade e vontade de pagar um preço superior. Para todos Manuel Serrano tinha que encontrar uma solução que deixasse o cliente satisfeito. Em muitos casos, esperava-se de Manuel Serrano mais que um produto útil; tinha que produzir um produto que tornasse mais elegante a pessoa, uma obra de arte que outros podiam ver e admirar.     

Havia ocasiões em que estrear calçado novo era obrigatório, por exemplo quando as pessoas se casavam, casavam filhos ou eram padrinhos. Os sapatos das noivas eram forrados de pano branco, aproveitando-se o que tinha sobrado do vestido da noiva. Também era comum os estudantes estrearem calçado novo quando iam fazer exame e esperava-se que se apresentassem bem calçados.

Fazia espécie ao leigo como é que os sapateiros a partir de materiais planos faziam calçado que se adaptava à forma do pé. Devia ser preciso talento e experiência para evitar erros que não podiam ser corrigidos. Devia ser preciso gostar da arte e nela ganhar experiência. O aprendiz de sapateiro começava pelas coisas mais básicas, como preparar linhas a partir de fio e pez ou resina e coser materiais. Depois, debaixo da orientação do mestre, ia executando tarefas cada vez mais complexas, de modo a estar familiarizado com as ferramentas e os procedimentos da arte até ser capaz de, entregue a si próprio, criar a partir de materiais sem forma, sapatos ou botas com a comodidade e a elegância exigidas. Manuel Serrano sempre teve gosto por todas as tarefas da arte de sapateiro. Conhece casos de pessoas que não conseguiram aprender a arte. Manuel Serrano aliava o gosto pela arte à capacidade para aprender e executar. Sem isso não teria sido, como foi, um sapateiro de sucesso.

Quando uma pessoa precisava de calçado novo, apresentava-se no estabelecimento do mestre sapateiro, que traçava num papel o contorno do pé descalço da pessoa, usando um lápis que fazia circular à volta do pé. O sapateiro media também com uma fita métrica a grossura do pé nalguns sítios. Combinava-se os materiais, os prazos, o preço e outros detalhes e o sapateiro ficava preparado para deitar mãos à obra. Para já poderia ter de adquirir materiais numa loja da especialidade.

Houve em Mouriscas, no Casal da Igreja, uma loja que vendia sola e cabedal. Pertenceu a um homem conhecido por José Francisquito, que passou o negócio ao genro, Zeferino Grossinho, mais conhecido por Severino Pereira. Os sapateiros de Mouriscas compravam material neste estabelecimento e também nos dos mourisquenses Manuel de Oliveira, estabelecido em Alferrarede, e Joaquim Serras, por alcunha Joaquim Fura, com loja no Sardoal, onde era conhecido por Joaquim da Sola.

De posse de dados sobre o pé, o mestre sapateiro procurava na sua coleção de fôrmas uma semelhante em tamanho e forma ao pé da pessoa a quem se destinava o calçado. As fôrmas de sapateiro eram modelos de pé humano feitos de madeira. Havia mais fôrmas para o sexo feminino, porque as havia para sapato raso, para meio salto e para salto alto. Quando entrávamos numa oficina de sapateiro víamos muitas vezes fôrmas parcialmente “calçadas” com uns sapatos novos. A visita tinha os seus encantos. Havia aquelas ferramentas do ofício, às vezes uma máquina de costura de aspeto estranho, muitas fôrmas em prateleiras e material acabado cheio de brilho e perfeição, verdadeiras obras de arte.

Manuel Serrano ensinou a arte a outros e teve outros sapateiros a trabalhar consigo. Sempre se deu bem com os outros sapateiros.

Não foi só em Mouriscas que Manuel Serrano teve clientes. Havia um sapateiro de Mouriscas que tinha clientes em Vale do Arco, no concelho de Ponte de Sor. Quando mudou de atividade, Manuel Serrano passou a deslocar-se à localidade para aceitar e entregar encomendas. Também teve clientes noutras localidades.

Às vezes o sapateiro prestava serviço ao domicílio. Também Manuel Serrano algumas vezes foi trabalhar a casa do cliente. Aí se deslocava com as necessárias ferramentas e fazia o seu trabalho, comendo com os donos da casa.

A profissão entrou em declínio quando aí pelo fim dos anos 60 os sapatos feitos por medida passaram a ficar muito mais caros que os oferecidos já feitos. Nessa altura, Manuel Serrano dedicou-se ao fabrico de seiras e capachos na fábrica local. Outros sapateiros continuaram, com ou sem estabelecimento, a consertar calçado.

A profissão de sapateiro é uma daquelas de que guardamos boas recordações. Desempenhavam uma função útil e proporcionavam-nos algumas alegrias. Qual foi o jovenzito ou a jovenzita que não se sentiu feliz e com vaidade ao estrear uns sapatinhos novos feitos pelo mestre sapateiro? Será que ao longo da vida não se repetiam de certo modo esses momentos de alegria infantil ao estrear calçado novo? Por isso, merecem ser recordados e homenageados os sapateiros de antigamente. Merecem a nossa gratidão!

 

Agradecimentos a Manuel Serrano pelas informações fornecidas para redação deste artigo.



publicado por João Manuel Maia Alves às 14:53
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Sábado, 24 de Dezembro de 2011
Festas de verão

O texto que se segue foi publicado com o programa das festas de verão de 1964. Manteve-se a ortografia em que foi escrito.

Um pouco de história e alguns dados estatísticos

As Festas de Verão foram criadas por iniciativa da Junta de Freguesia no ano de 1946.

A sua finalidade era não apenas conseguir fundos para os diversos melhoramentos de Mouriscas, mas também proporcionar a todos os mourisquenses, especialmente os ausentes em Lisboa e outros pontos do País, uma oportunidade para se encontrarem, conhecerem e conviverem num verdadeiro espírito de fraternidade, e ainda fomentar entre todos o amor à terra em que nasceram.

Apenas em 1961 estas festas foram interrompidas por se atravessar nessa altura o período mais agudo da guerra em Angola e ainda em memória do Sr. Professor Matias Lopes Raposo, então Presidente da Junta de Freguesia, e falecido do naquele mesmo ano.

À frente das diversas comissões das festas, todos os anos, modificadas com elementos novos, e sempre em íntima e perfeita colaboração com o Pároco da Freguesia, têm estado sempre homens do maior prestígio na nossa terra. Basta lembrar os nomes do Prof. Matias Lopes Raposo, Jesuvino Ferro, Dr. João Gualberto Santana Mata e Francisco Lourenço Grossinho, homens cuja competência, honestidade e interesse pelas coisas de Mouriscas, ninguém, com justiça, pode pôr em dúvida.

Os saldos conseguidos até hoje nas Festas de Verão o somam a importância deveras considerável de 225.759$50.

Até 1954 estes saldos, no valor de 119.072$80 foram aplicados em diversas obras da freguesia como Séde da Junta de Freguesia, Capelas do Cemitério, Capela do Espírito Santo, vários caminhos, fontes, pontes, etc. etc.

Depois de 1954 os saldos no valor de 106.686$70 foram integralmente destinados á construção da Nova Igreja Paroquial.

Estes saldos só por si, que outros motivos não houvesse, justificariam plenamente a continuação destas festas e todos os sacrifícios e algumas incompreensões que elas têm custado.

Não pensam assim todos os bons Mourisquenses?



publicado por João Manuel Maia Alves às 09:13
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011
Mouriscas e as suas festas

A comissão das festas de verão de 1964 elaborou uma brochura que inclui, além do programa das festividades, interessantes artigos e anúncios que se leem com imenso prazer. O texto que se segue é o do primeiro artigo, transcrito com manutenção da ortografia em que foi escrito.

MOURISCAS e as suas Festas

As Festas são sempre uma manifestação da vitalidade e do sentido social e comunitário das populações. É nas Festas que todos se encontram para, juntos, afirmarem os seus sentimentos religiosos, comemorarem qualquer acontecimento de relevo na vida local ou nacional ou simplesmente procurarem um pouco de divertimento e evasão no meio da rotina fatigante dos trabalhos do dia a dia. As Festas são, por isso, não apenas úteis, mas também necessárias.Algumas vêm de longe. A sua origem perde-se na bruma dos tempos e chegaram até nós através de tradições velhinhas e venerandas, bem arreigadas na alma do nosso povo. Outras são de recente instituição. Surgiram em obediência a novas exigências sociais e a novas formas de diversão. Umas têm um sentido acentuadamente religioso; outras, um cunho predominantemente profano. De entre as primeiras distinguimos em Mouriscas a Festa de São Sebastião, Patrono da Paróquia, que se realiza no dia 20 de Janeiro na Igreja Paroquial; a de Nossa Senhora dos Matos que têm lugar no dia 15 de Agosto na histórica capelinha do mesmo nome e a do Divino Espirito Santo na capela que lhe é dedicada, num dos Domingos do mês de Setembro.Das segundas citaremos apenas as chamadas Festas de Verão, criadas por iniciativa da Junta de Freguesia e já com uma tradição de 18 anos. É destas que hoje lhes apresentamos o Programa referente ao ano de 1964.As primeiras devem conservar quanto possível, a meu ver, o seu cunhotradicional e não devem ser profanadas por programações que lhe desvirtuem oseu carácter essencialmente religioso.Estas últimas, sim, são susceptíveis de alteração, actualização e modernização dos seus programas, segundo as possibilidades das diversas Comissões. É neste sentido temos que fazer justiça a todas as Comissões que nos precederam à frente das quais têm estado sempre os nomes de maior prestígio da nossa terra, que se não têm poupado a esforços e trabalhos para, dentro das limitadas possibilidades do nosso meio, fazerem das nossas festas, sem dúvida, umas das melhores a de maior interesse da Região.Do trabalho destas Comissões, melhor do que nós, falarão alguns dados estatísticos que no decorrer desta publicação apresentaremos.Quanto a nós, só nos compete continuar a sua Obra. melhorando quanto possível os programas, mas mantendo o espirito que presidiu à sua criação e a finalidade benemérita que sempre as tem caracterizado a bem de Mouriscas.

A Comissão das Festas de Verão de 1964


publicado por João Manuel Maia Alves às 07:41
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Sábado, 29 de Outubro de 2011
Mestres de lagares

Este artigo foi publicado neste blogue em 23 de setembro de 2004. Como muita gente não o leu e dada a época da apanha da azeitona que atravessamos, é de novo publicado. Mouriscas foi terra conhecida em muitas zonas do país por muita coisa. Era terra de ferroviários, de oficinas de espartaria e de pirotecnia, de muitas pessoas com curso superior. Era terra para onde vinha estudar muita gente de fora. Era também uma localidade donde saíam muitos mestres de lagares de azeite.Quem mandava a azeitona para um lagar esperava que não demorasse a ser moída, para não apodrecer, esperava receber azeite de qualidade e esperava uma boa funda, isto é uma boa quantidade de azeite por medida de azeitona. Esperava, portanto, que o lagar fosse dirigido por alguém competente que assegurasse os desejos dos clientes. À pessoa que dirigia um lagar de azeite dava-se (e dá-se) a designação de mestre.O mestre do lagar dirigia as respetivas operações. Além disso, tinha tarefas próprias. O líquido que saía da prensa resultante de azeitona moída dum cliente era encaminhado para uma talha chamado tarefa. O mestre deixava o líquido assentar. A água-ruça ou almofeira ficava no fundo. Era o mestre que devia deixar sair a água-ruça. Um mestre incompetente podia deixar sair também azeite ou não deixar sair toda a água-ruça.Um mestre de lagar tinha de ser um indivíduo competente ou a reputação dum lagar ia por água abaixo. Os bons mestres permaneciam muito tempo num lagar. Por vezes, quando as pessoas pensavam num certo lagar associavam-no logo ao seu mestre.Mouriscas tinha muitos lagares em funcionamento. Também tinha pessoas mais do que suficientes para serem competentes mestres dos seus lagares. Por isso, muitos mourisquenses trabalhavam nessas funções noutras localidades. Não eram dois ou três que trabalhavam fora. Eram realmente muitos.De Mouriscas saíram muitos homens para trabalhar como mestres de lagares de azeite em terras muito diferentes, como as zonas de Torres Vedras, do Douro, da Guarda, das Terras de Basto e do Alentejo.Com a naturalidade com que se aceita o que tem de ser, muitos mourisquenses deixavam a família anualmente para trabalhar como mestres de lagares de azeite, regressando, acabada a safra, com algum dinheiro economizado, “de forro”, como se dizia muitas vezes. Estes homens levaram o nome de Mouriscas a muitas terras do país. Como resultado, nalgumas terras Mouriscas era vista como terra de mestres de lagares de azeite.Muitos mestres de lagares foram figuras populares nas terras onde trabalharam. Um deles foi Francisco Pires Esparteiro. Todos os anos, este homem interrompia o seu trabalho de sapateiro para trabalhar como mestre dum lagar de Mouriscas. Um pouco antes de fechar o lagar de Mouriscas, dirigia-se ao Pinhão, linda vila sobre o Rio Douro, para ser mestre dum lagar local. Na região do Douro a azeitona amadurece mais tarde que no Sul. O nosso homem permanecia no Pinhão até ao fim da safra, voltando a casa já perto da Páscoa. Era conhecidíssimo e estimadíssimo no Pinhão.Um bom mestre de lagar diria que simplesmente fazia o que precisava de ser feito. Na verdade, um homem precisava de gostar muito do ofício para ser um bom mestre de lagar.Mestres de lagares de azeite Mouriscas teve muitos e bons. Muitos exerceram as suas funções em Mouriscas, muitos outros trabalharam fora da sua terra. Alguns trabalharam dentro e fora de Mouriscas. Todos merecem uma homenagem, recordando-os e reconhecendo o importante papel que tiveram na produção de tão saudável alimento como é o azeite e na divulgação do nome de Mouriscas.



publicado por João Manuel Maia Alves às 07:18
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2011
Azeite para todos

Este artigo foi publicado neste blogue em 15 de setembro de 2004. É publicado de novo pelo interesse que possa ter para muitos que não o leram.

Agora que se aproxima a época da apanha da azeitona é interessante recordar um costume que em Mouriscas, e também em outras localidades, tornava possível ter azeite sem gastar dinheiro e sem possuir oliveiras. Tratava-se dum antigo costume que não levantava objeções, resultado dum consenso social implícito, algo que se tinha tornado numa norma pacificamente aceite por todos.De acordo com esse costume, a azeitona que caía até certa data era de quem a apanhava.Desse costume beneficiavam os mais pobres, permitindo-lhes arranjar azeite para seu consumo ou para vender. Também podiam obter algum bagaço, alimento muito apreciado para engorda dos porcos, animais até recentemente muito importantes na economia doméstica das populações rurais.Nalgumas famílias mobilizavam-se todos os meios para apanhar a azeitona caída das árvores. Mulheres e jovens de ambos os sexos apanhavam o máximo que podiam enquanto tal era permitido.A data limite para apanhar livremente a azeitona caída era 4 de outubro, dia da chamada da Feira da Ponte, isto é da Feira da Ponte de Sor. Para os aldeões de tempos passados as datas de realização de certos acontecimentos eram um marco ou referência frequentemente usada.Depois da Feira da Ponte muitos proprietários caiavam de branco alguns troncos de oliveira para indicar que tinha acabado a época de qualquer um poder apanhar a azeitona caída. Também era costume colocar rama de pinheiro sobre as trepas (ramos mais perto do solo) dalgumas oliveiras. Chamava-se a isso coutar as oliveiras. A expressão era adequada já que o dicionário dá para o verbo coutar os significados, entre outros, de proibir e proibir a entrada ou acesso. Também se dizia que as oliveiras estavam guardadas.Depois da colheita era aceite que a azeitona não apanhada pudesse ser recolhida por qualquer pessoa. Andar ao rabisco era a designação dada a essa operação. Segundo o dicionário de português da Porto Editora, andar ao rabisco significa “percorrer áreas extensas para apanhar o que ficou esquecido da colheita (espigas, uvas, castanhas, etc.)”.Hoje ninguém se interessa em apanhar para si a azeitona das oliveiras alheias caída até certo dia ou que ficou depois da colheita. Estes interessantes costumes desapareceram por falta de praticantes. Os mais novos não sabem que existiram. Dos mais velhos muitos não se recordam. Por isso, para uns e para outros, lhes dedicamos estas linhas.Artigo redigido com a preciosa ajuda, que se agradece, de Arnaldo Cordeiro (Espadeira) e de Emílio Costa (Patacas)



publicado por João Manuel Maia Alves às 17:05
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2011
Entrevista com o Dr. João Santana Maia

Em 11 de setembro de 1977 Mouriscas prestou uma merecida e sincera homenagem ao Dr. João Santana Maia. No mês seguinte, o jornal O MOURISQUENSE, que então se publicava, inseriu nas suas páginas uma entrevista com o homenageado. Vale a pena ler essa entrevista, abaixo transcrita com adaptação à nova ortografia, pelo que revela da história dum homem, duma época, da "Universidade Ferroviária de Mouriscas", do Colégio Infante de Sagres e de Mouriscas. Esta entrevista deve ser preservada para memória futura, pelo que será também incluída na página Mouriscas – Terra Grande, Terra Nossa, em </font>http://motg.no.sapo.pt/002.htm.

MOURISCAS ESTEVE EM FESTA na homenagem ao seu médico DR. JOÃO SANTANA MAIA

Homenagem_o_Dr. S_Maia_1.jpg

O dia 11 de setembro de 1977 é uma data que vai ficar nas recordações das gerações Mourisquenses presentes e futuras. Não uma data como qualquer outra. Uma data que faz recordar a vida, o espírito e o contributo dado ao seu nível cultural, prestado por um homem chamado João Santana Maia.

Homenagear um homem como João Santana Maia é seguir a sua verticalidade e os seus exemplos avançados como Mourisquense. É acima de tudo empenharmo-nos na continuação dos ensinamentos e obras por si legados.

Em homenagem ao Mourisquense Dr. João Santana Maia passamos a transcrever parte de uma entrevista concedida pelo próprio:

— Quais as dificuldades sentidas pelo Sr. Dr. durante a sua vida de estudante, nomeadamente aquando da frequência do ensino superior?

— Bem. Quanto a dificuldades devo dizer que as dificuldades que senti não foram dificuldades quanto a estudo mas dificuldades quanto às condições da família para eu me manter em Coimbra. Até posso acrescentar que no meu 7.º ano, não havendo recursos da parte da minha família para estudar em Coimbra eu fiquei em Mouriscas a trabalhar todo o ano ao lado do meu pai, em serviços agrícolas. Ele era um pequeno proprietário. Sem uma explicação de ninguém consegui tirar o 7.º nesse ano. No princípio do ano seguinte convenci o meu pai a arranjar uns patacos para comprar os livros que eu entendia que me faziam falta. No fim do ano eu, julgando-me habilitado a fazer o 7.º ano, mais uma vez convenci o meu pai, apesar dos seus magros recursos económicos, a ir a Coimbra fazer exames. Fui. E a verdade é que cheguei a casa aprovado no 7.º ano com 17 valores. É certo que a minha família sentia grandes dificuldades mas lembro-me muito bem que nesse Verão o meu tio, Padre Martinho Lopes Maia, então residente em Elvas, veio cá e ouvi-lhe dizer a meu pai (eu ouvi-lhe esta conversa): «Oh! Severino, porque meu pai chamava-se Severino, o João deu-nos uma lição de tal envergadura que para o João não pode faltar dinheiro. E assim foi. No ano seguinte, enfim, com muitas dificuldades, com a colaboração de meu pai e desse meu tio que estava então a pagar o curso de Direito a meu irmão António que está em Ponte de Sor, com a colaboração do meu irmão que está em Abrantes, o Dr. Manuel, fui para Coimbra. Mas fui para Coimbra, sempre no meio de grandes dificuldades.Foi por isso e, então em conselho de família, resolveram, para que o sacrifício não se arrastasse por muitos anos, eu ser matriculado nos preparatórios da Escola Naval (que era um ano) e no ano seguinte admitiam a hipótese de entrar na Escola Naval. E assim foi: eu matriculei-me nos preparatórios da Escola Naval e como esses preparatórios eram de três cadeiras, Física Geral, Desenho Rigoroso e Álgebra Superior, eu entendi que isso era pouco e matriculei-me em mais três cadeiras, ou seja, Desenho Topográfico, Geometria Descritiva e Química Geral, mais três do que as precisas para concorrer à Naval. No ano seguinte lá vou eu concorrer à Naval, mas calhei a concorrer num ano em que havia 36 correntes para 8 vagas. Caso é que a 1.ª prova a sermos submetidos era a inspeção física e, como toda a gente sabe, uma mentira de um médico custa muito a destruir, a verdade é que naquela inspeção física apenas passaram 8. Soube mais tarde, por intermédio do capitão-de-mar-e-guerra Joaquim Marques Esparteiro (1), que era já oficial da Armada, particularmente, que os médicos tinham posto no exame médico que me fizeram que eu tinha o coração descido. Felizmente tenho tido bastante saúde com o trabalho que tenho tido e o coração sempre foi normal. Não tinha nada! O que era preciso era eliminar-me, porque não tinha as cunhas necessárias Bem, aborrecido com isto tudo e sabendo as dificuldades que a família atravessava para eu continuar em Coimbra, eu lembro-me bem que ainda perguntei ao Dr. Francisco Agudo (2), que nesse ano tinha concluído a sua licenciatura em matemática, como é que os liceus estavam quanto a professores de Matemática e Físico-Química. Porque eu gostaria muito de tirar um desses cursos. Em 1.º lugar matemática, em 2.º físico-química.Como os liceus nesse tempo era muito poucos no país, os liceus estavam superlotados e havia muitos professores a espera de vaga. E então o Dr. Francisco Agudo aconselhou-me a que não seguisse a carreira do magistério secundário. E foi nessas condições que eu disse: Bem ir agora concorrer â escota de guerra pode-me suceder o mesmo, ir para o magistério secundário não. Porque depois não tenho vaga. Ir para o curso de engenharia, nesse tempo o curso de engenharia era meramente honorífico. Nessa altura nós não tínhamos fábricas e empresas no país que recebessem engenheiros. Bem, vou tirar o curso de Medicina, não porque esteja descontente com o meu curso, pelo contrário, eu gosto do meu curso, mas em boa verdade eu tenho de dizer que o curso que gostaria de ter tirado era o curso de matemática.

— Quais os motivos que o levaram a fixar-se em Mouriscas, quando se diz que teve outras ofertas, como, por exemplo, assistente (3) da Faculdade de Medicina de Coimbra?

— Bem. Tive várias ofertas. Logo que me formei se eu quisesse teria ficado assistente da faculdade de Medicina de Coimbra. Mas nunca gostei de andar vergado ao pé de ninguém, devo dizer, gostei sempre de andar de espinha erguida e eu via nesse tempo que os assistentes quando o professor catedrático ia a entrar para o seu carro particular o assistente tinha que se descobrir, tirar o chapéu, abrir a porta ao professor e então o professor entrava. Quero dizer naquela altura o assistente era assim uma espécie de lacaio do professor. Ora eu nunca gostei de situações dessa natureza. Eu gostei sempre de ser uma pessoa independente, ter a minha capacidade de decisão e nunca estar assim nessa situação de servilismo. E por essa razão não aceitei. Devo dizer também que uns dias antes de me formar, eu formei-me no dia 10-11-1932, recebi uma carta em Coimbra do então presidente da Câmara de Abrantes, Henrique Augusto da Silva Martins, a oferecer-me o partido (4) de Rio de Moinhos que estava vago na altura. Devo dizer que, como andava embrulhado com o último exame que tinha de fazer, não cheguei a responder ao Presidente da Câmara. Mas a verdade é que quando eu vinha a caminho de Mouriscas, no dia 13-11-1932 e estava na estação de Abrantes uma deputação da Câmara Municipal de Abrantes constituída, lembro-me muito bem, por França Machado, Josué Gonçalves e João Alves Ferreira, a instarem novamente comigo para ir como médico, para Rio de Moinhos. Eu simplesmente lhes disse: Agradeço a oferta mas já de há tempos resolvi fixar-me na minha terra e é para a minha terra que eu vou. E foi assim que a coisa acabou. E vim para Mouriscas e depois é claro... O que se seguiu enfim posso dizer mais adiante.

— Alguma vez pensou dedicar-se ao ensino quando da sua fixação cá?

— Sobre isso eu vou dizer que sempre gostei do ensino mesmo em estudante. Não só por gostar de ensinar mas para conseguir uns patacos para gastar durante as férias grandes. Eu juntava-me com outra estudantada daqui e ia para as festas do Sardoal, dos Valhascos e para a de Alvega que nesse tempo era festa de grande monta aqui no nosso meio. Isso implicava, é claro, com uns tostões que se tinha de gastar. Era o que fazia durante o ano não só para gastar, mas também para amealhar uns patacos para gastar nas férias grandes. A verdade é que durante a maior parte do tempo de estudante eu tive sempre explicandos, porque de facto gostava de explicar. Quando vim para Mouriscas eu não sabia como é que a vida se ia processar, eu não pensava no ensino. Eu vim para Mouriscas apenas com intenção de aqui praticar Medicina. Mas, é claro, vim a namorar a minha mulher e, é claro, vim a casar com ela. O meu sogro nessa altura já costumava ter uns alunos do 3.º ano do liceu e já dava umas explicações para o caminho de ferro aqui das Mouriscas. Em dada altura começou a aparecer mais pretendentes especialmente ao ensino para o caminho de ferro. O meu sogro, lembro-me muito bem, a nenhum disse que não e lá começou ele a explicar aquilo tudo. A matemática, a geografia, o Português, explicava isso tudo. Mas, como meu sogro estivesse assoberbado com serviço, eu fui e tomei conta dos rapazes, dos explicandos dessa ocasião para lhes dar a matemática que era precisa para o caminho de ferro, que é mais ou menos o equivalente à aritmética do então 1.º e 2.º ano do liceu. Mas devo dizer, nunca o meu sogro me puxou para o auxiliar nesse serviço mas eu, por entender que gostava de praticar esse serviço e porque me sobejava algum tempo da clínica, auxiliava-o. Lá começámos a trabalhar e então as coisas seguiram tal incremento que a frequência para o caminho de ferro chegou a ser muito grande aqui em Mouriscas. Passaram-nos aqui rapazes de todo o País, desde Lousado até São Bartolomeu de Messines. Geralmente a habilitação para o caminho de ferro fazia-se em três meses. E então uns iam entrando, outros iam saindo. Enfim passaram aqui muitos centos de rapazes que a maior parte hoje são chefes e até alguns já reformados não só da freguesia mas também da maior parte do País.Por exemplo aqui desta zona de Belver, zona do Vale dos Prazeres, da Beira Baixa. Chegaram a vir rapazes da Guarda, tivemos alunos dos arredores de Coimbra, etc.. E agora é interessante porque é que o curso se tornou conhecido e vinham aqui ter alunos de todos os lados. Ora sucedia que em muitas terras havia um ou outro rapaz que pretendia concorrer a fator dos caminhos de ferro. Então lá arranjava qualquer ferroviário conhecido ou recomendar o júri que ia examinar esse rapaz. O curso tomou tal proporção, tornou-se de tal maneira conhecido no Pais que o júri que examinava esses rapazes tinha tanta confiança nos rapazes que eram habilitados aqui, a ponto de a escola aqui passar a ser conhecida no meio ferroviário como a Universidade Ferroviária de Mouriscas. De maneira que qualquer ponto do país que queria uma recomendação para passar nesse exame de admissão aos caminhos de ferro vinha a Mouriscas. Eu posso-me interessar mas é conveniente ir a Mouriscas tirar a aprendizagem. Pois apareciam rapazes de todo o País. Pois até devo dizer que a certa altura os caminhos de ferro fecharam os concursos e ficaram-nos aqui muitos rapazes, digamos represados.Então pediram-me a mim e ao meu sogro para os levarmos até ao 3.° ano, para não perderem alguns conhecimentos que já tinham do 1.º ciclo dos liceus. E nós acedemos. Mesmo os rapazes que tinham pedido para o 3° ano dos liceus no outro ano pediram-nos para os levar até ao 6.° ano dos liceus. Nesse tempo os ciclos do liceu eram 3.º, 6.º e 7.°, e então lá seguimos com uma levada de rapazes até ao 6.° ano. É claro que o curso dos caminhos de ferro já estava muito conhecido em todo o País, através desses rapazes que aqui estavam doutras terras. Ficou a ser conhecido em muitas partes do País que aqui também se habilitava até ao 6.º ano. E foi assim que vieram para aqui rapazes para o liceu também, praticamente de todo o País. E foi assim que nasceu o colégio.

— Acha que o ensino a que se dedicou, no tão conceituado Colégio Infante de Sagres, o impossibilitou de progredir ainda mais tempo no Campo da Medicina?

— Aí por 1938 o colégio já dava um bocado de trabalho é certo, mas até nem sequer legalizado estava. Foi legalizado em 1948. Isto funcionava como um curso meramente particular e então por volta de 1938 eu pensei em especializar-me em Oftalmologia, ou seja, doenças, dos olhos. E para tal eu tencionava ir aí umas duas ou três vezes por semana a Lisboa indo e regressando no mesmo dia a Mouriscas. Para depois quando conseguisse a especialidade abrir consultório em Abrantes. Com dois ou três dias por semana conforme o necessário e o resto dedicava-o a Mouriscas, mas mantendo a minha residência em Mouriscas. Mas a verdade, é esta. Em 1939 rebentou a guerra — a 2.ª Guerra Mundial — e então começou a haver dificuldades nos transportes, daqui para Lisboa e ida e volta. Os comboios começaram a deixar de ter horários e as locomotivas que eram acionadas a carvão começaram a andar a lenha (comboios muito mais morosos). Automóvel, nem pensar nisso, porque começou a não haver gasolina e os automóveis eram movidos a gás pobre (gasogénio). De maneira que um indivíduo que daqui saía para Lisboa de comboio ou automóvel nunca sabia quando lá chegava ou quando podia voltar a casa.Nessas condições pus a ideia de parte quando a guerra rebentou, perante as dificuldades que tinha em ir a Lisboa para que quando a guerra acabasse e os transportes melhorassem eu realmente frequentar em Lisboa o Instituto Gama Pinto, de mais nomeada, em olhos, que tínhamos e ainda continuamos a ter, para depois de ter essa especialidade poder consultar em Abrantes. Nunca deixando Mouriscas e aqui mantendo a residência oficial. Eu tencionava ser clínico geral em Mouriscas e especialista dos olhos em Abrantes. Entretanto a guerra decorre de 1939-45, e é precisamente durante esse período que o colégio tomou grande incremento e então a verdade é que quando a guerra acabou - 1945 - já o colégio me absorvia tanto tempo que eu cheguei à conclusão, que ou o colégio ou especialista de olhos. Para os dois não tinha tempo para isso e então optei pelo ensino e pelo desenvolvimento do colégio. Até devo dizer, que é interessante, que antes de encetar as minhas idas a Lisboa (1938) que até comprei livros muito bons de Oftalmologia, estudei-os para não ter que aprender tudo em Lisboa. Quando chegasse a Lisboa já saber em teoria muito dessas doenças. Aliás, que bastante proveito tenho tirado disso, pois tenho tratado muitos doentes de olhos baseando-me nesse estudo que fiz nessa altura e que se não o tivesse feito ser-me-ia impossível tratar algumas doenças de olhos.

— Como encarou aquela que o povo achou tão merecida festa ao seu médico?

— Bem a esse respeito eu entendo que a freguesia nada me devia, porque o que fiz pela freguesia como Mourisquense que sou, eu tomo-o não como um devaneio, mas sim como uma obrigação. E acho que é isso que compete fazer a todos os Mourisquenses — trabalhar para bem da nossa terra.

Em boa verdade eu entendia que a freguesia nada me devia e que se entendesse, repito, que a freguesia alguma coisa me devia eu quero esclarecer que a festa que a freguesia me fez pagou, ou pagaria, com grande vantagem, com grande superavit, todo o esforço que eu fiz por ela. A maneira como eu encarei a festa devo dizer que excedeu toda a minha expectativa e fiquei profundamente sensibilizado e que realmente essa festa me marcou para o resto da minha vida.

Homenagem_Dr._ S_Maia.jpg

Foto da homenagem ao Dr. Santana Maia

— Não acha o sr. Doutor que houve esquecimento por parte da Comissão Organizadora da festa de homenagem no tocante à informação da realização da dita festa, já que muitos dos seus ex-alunos espalhados pelo país com toda a certeza estavam vivamente interessados em nela participarem?

— Bem. Eu estou convencido que muitos alunos teriam aparecido, é claro, não todos evidentemente mas uma grande parte dos alunos que por aqui passaram, embora não sendo de Mouriscas e até muitos de Mouriscas ficaram com pena de não serem informados. Houve certamente portanto aí um tanto ou quanto falta de publicidade o que me leva a tirar esta conclusão, em grande parte depois da festa, é o facto de ter estado a receber muitas cartas de amigos, de alunos, de conterrâneos. Lastimando uns por não poderem, por motivo de saúde, por qualquer motivo particular alegando como motivo, o facto de não terem vindo, o facto de não terem conhecimento da festa a tempo de poderem vir. De maneira que a festa contaria com mais umas boas pessoas se de facto tem havido urna publicidade à altura. Ainda no dia anterior ao da festa, no Placar do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, estava afixada a festa para dia seguinte. E eu soube isso por um aluno que aqui esteve, um aluno das Galveias. Apenas no dia antes tinha tido conhecimento da festa e que o teve através do Placar do Hospital. Que não podia vir porque tinha exame na 2.ª'-feira, dia 12-9-77, lastimando não poder estar presente.Pois realmente toda a festa revestiu uma beleza que não se pode descrever, ou para mim é impossível descrever, pena foi que tivesse falhado uma pequena coi-sa mas de grande interesse, que foi a questão da aparelhagem sonora, as condições acústicas eram muito más. A aparelhagem sonora não estava na altura a satisfazer as necessidades de momento ou teria sofrido qualquer avaria (a verdade é que foi uma lacuna muito grande que houve na festa), de forma que toda a gente estivesse informada e ouvisse os discursos, alguns deles bastantes brilhantes que se proferiram ali no largo da Igreja. Mas enfim, já não há remédio.

— No programa elaborado pela comissão organizadora escrevia-se que «prováveis lucros da festa seriam distribuídos conforme desejo do homenageado». Se por acaso esses lucros existirem já pensou onde empregá-los?

— Eu já pensei nesse assunto e sobre o mesmo o que pensei de momento até já disso Informei o Presidente da Junta, que, se houver saldo, esse saldo seja entregue à Junta de Freguesia para ela o administrar e gastar onde entender que o deve fazer. No entanto quero manifestar um desejo, não uma imposição à Junta. Se houver saldo, gostaria que fosse gasto num parque infantil no terreno que pertence atualmente à Câmara Municipal de Abrantes que fica a Norte da Igreja. Esse terreno está desaproveitado, por isso, fazer aí um pequeno parque infantil — uns baloiços, uns escorregas, enfim umas coisas. Depois, admitindo que o saldo que sobejava desse parque, povoar o jardim que está em frente da Igreja, que também é propriedade da Câmara, com uns bancos, não de madeira, mas bancos de pedra. De vez em quando as pessoas mais idosas vão ali passear e desejam repousar. E, ainda, admitindo por hipótese que de tudo isto venha a sobejar algum dinheiro, que a Junta iluminasse convenientemente o jardim que se encontra em frente. Eu sei muito bem que essa iluminação ficou a cargo da Câmara Municipal de Abrantes quando a Comissão Fabriqueira da Igreja deu o terreno, à Câmara, para não pagar escritura evitando essa despesa, com a obrigação de a Câmara fazer a respetiva iluminação. O ajardinamento foi feito mas a iluminação é que a Camará nunca fez e naturalmente nem vem a fazer. Em terceira hipótese fazer a eletrificação do jardim que a expensas da Câmara nunca teremos o jardim iluminado.

— Pensa continuar como sempre fez ao povo de Mouriscas?

— Quando eu falei na festa tive ocasião de dizer que nada mais tinha para oferecer à freguesia senão o resto da minha vida e então é isso que tenciono fazer. Suponho que nesta expressão tão rápida fica dada a resposta à pergunta.

Notas:

(1) Na verdade, Joaquim Marques Esparteiro atingiu o posto de contra-almirante, cargo a que corresponde normalmente a designação e o tratamento de almirante.

(2) Francisco Dias Agudo, nascido nos Engarnais Cimeiros, foi reitor do Liceu Gil Vicente e do Liceu Pedro Nunes. Foi autor de livros de matemática para o ensino secundário. Teve um papel importante no ensino da matemática em Portugal.

(3) Assistente é no ensino superior um docente adjunto do professor catedrático, encarregado das aulas práticas ou teórico-práticas (Fonte: Porto Editora)

(4) Partido é um termo antiquado que designa a área onde o médico, remunerado pelo município, tem obrigação de prestar assistência e também a remuneração recebida por essa assistência (Fonte: Porto Editora)



publicado por João Manuel Maia Alves às 14:14
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