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dezembro 24, 2011 |
Festas de verão
O texto que se segue foi publicado com o programa das festas de verão de 1964. Manteve-se a ortografia em que foi escrito.
Um pouco de história e alguns dados estatísticos
As Festas de Verão foram criadas por iniciativa da Junta de Freguesia no ano de 1946.
A sua finalidade era não apenas conseguir fundos para os diversos melhoramentos de Mouriscas, mas também proporcionar a todos os mourisquenses, especialmente os ausentes em Lisboa e outros pontos do País, uma oportunidade para se encontrarem, conhecerem e conviverem num verdadeiro espírito de fraternidade, e ainda fomentar entre todos o amor à terra em que nasceram.
Apenas em 1961 estas festas foram interrompidas por se atravessar nessa altura o período mais agudo da guerra em Angola e ainda em memória do Sr. Professor Matias Lopes Raposo, então Presidente da Junta de Freguesia, e falecido do naquele mesmo ano.
À frente das diversas comissões das festas, todos os anos, modificadas com elementos novos, e sempre em íntima e perfeita colaboração com o Pároco da Freguesia, têm estado sempre homens do maior prestígio na nossa terra. Basta lembrar os nomes do Prof. Matias Lopes Raposo, Jesuvino Ferro, Dr. João Gualberto Santana Mata e Francisco Lourenço Grossinho, homens cuja competência, honestidade e interesse pelas coisas de Mouriscas, ninguém, com justiça, pode pôr em dúvida.
Os saldos conseguidos até hoje nas Festas de Verão o somam a importância deveras considerável de 225.759$50.
Até 1954 estes saldos, no valor de 119.072$80 foram aplicados em diversas obras da freguesia como Séde da Junta de Freguesia, Capelas do Cemitério, Capela do Espírito Santo, vários caminhos, fontes, pontes, etc. etc.
Depois de 1954 os saldos no valor de 106.686$70 foram integralmente destinados á construção da Nova Igreja Paroquial.
Estes saldos só por si, que outros motivos não houvesse, justificariam plenamente a continuação destas festas e todos os sacrifícios e algumas incompreensões que elas têm custado.
Não pensam assim todos os bons Mourisquenses?
Publicado por santric em 09:13 AM
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novembro 25, 2011 |
Mouriscas e as suas festas
A comissão das festas de verão de 1964 elaborou uma brochura que inclui, além do programa das festividades, interessantes artigos e anúncios que se leem com imenso prazer. O texto que se segue é o do primeiro artigo, transcrito com manutenção da ortografia em que foi escrito.
MOURISCAS e as suas Festas
As Festas são sempre uma manifestação da vitalidade e do sentido social e comunitário das populações. É nas Festas que todos se encontram para, juntos, afirmarem os seus sentimentos religiosos, comemorarem qualquer acontecimento de relevo na vida local ou nacional ou simplesmente procurarem um pouco de divertimento e evasão no meio da rotina fatigante dos trabalhos do dia a dia. As Festas são, por isso, não apenas úteis, mas também necessárias.
Algumas vêm de longe. A sua origem perde-se na bruma dos tempos e chegaram até nós através de tradições velhinhas e venerandas, bem arreigadas na alma do nosso povo. Outras são de recente instituição. Surgiram em obediência a novas exigências sociais e a novas formas de diversão. Umas têm um sentido acentuadamente religioso; outras, um cunho predominantemente profano. De entre as primeiras distinguimos em Mouriscas a Festa de São Sebastião, Patrono da Paróquia, que se realiza no dia 20 de Janeiro na Igreja Paroquial; a de Nossa Senhora dos Matos que têm lugar no dia 15 de Agosto na histórica capelinha do mesmo nome e a do Divino Espirito Santo na capela que lhe é dedicada, num dos Domingos do mês de Setembro.
Das segundas citaremos apenas as chamadas Festas de Verão, criadas por iniciativa da Junta de Freguesia e já com uma tradição de 18 anos. É destas que hoje lhes apresentamos o Programa referente ao ano de 1964.
As primeiras devem conservar quanto possível, a meu ver, o seu cunho
tradicional e não devem ser profanadas por programações que lhe desvirtuem o
seu carácter essencialmente religioso.
Estas últimas, sim, são susceptíveis de alteração, actualização e modernização dos seus programas, segundo as possibilidades das diversas Comissões. É neste sentido temos que fazer justiça a todas as Comissões que nos precederam à frente das quais têm estado sempre os nomes de maior prestígio da nossa terra, que se não têm poupado a esforços e trabalhos para, dentro das limitadas possibilidades do nosso meio, fazerem das nossas festas, sem dúvida, umas das melhores a de maior interesse da Região.
Do trabalho destas Comissões, melhor do que nós, falarão alguns dados estatísticos que no decorrer desta publicação apresentaremos.
Quanto a nós, só nos compete continuar a sua Obra. melhorando quanto possível os programas, mas mantendo o espirito que presidiu à sua criação e a finalidade benemérita que sempre as tem caracterizado a bem de Mouriscas.
A Comissão das Festas de Verão de 1964
Publicado por santric em 07:41 AM
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outubro 29, 2011 |
Mestres de lagares
Este artigo foi publicado neste blogue em 23 de setembro de 2004. Como muita gente não o leu e dada a época da apanha da azeitona que atravessamos, é de novo publicado.
Mouriscas foi terra conhecida em muitas zonas do país por muita coisa. Era terra de ferroviários, de oficinas de espartaria e de pirotecnia, de muitas pessoas com curso superior. Era terra para onde vinha estudar muita gente de fora. Era também uma localidade donde saíam muitos mestres de lagares de azeite.
Quem mandava a azeitona para um lagar esperava que não demorasse a ser moída, para não apodrecer, esperava receber azeite de qualidade e esperava uma boa funda, isto é uma boa quantidade de azeite por medida de azeitona. Esperava, portanto, que o lagar fosse dirigido por alguém competente que assegurasse os desejos dos clientes. À pessoa que dirigia um lagar de azeite dava-se (e dá-se) a designação de mestre.
O mestre do lagar dirigia as respetivas operações. Além disso, tinha tarefas próprias. O líquido que saía da prensa resultante de azeitona moída dum cliente era encaminhado para uma talha chamado tarefa. O mestre deixava o líquido assentar. A água-ruça ou almofeira ficava no fundo. Era o mestre que devia deixar sair a água-ruça. Um mestre incompetente podia deixar sair também azeite ou não deixar sair toda a água-ruça.
Um mestre de lagar tinha de ser um indivíduo competente ou a reputação dum lagar ia por água abaixo. Os bons mestres permaneciam muito tempo num lagar. Por vezes, quando as pessoas pensavam num certo lagar associavam-no logo ao seu mestre.
Mouriscas tinha muitos lagares em funcionamento. Também tinha pessoas mais do que suficientes para serem competentes mestres dos seus lagares. Por isso, muitos mourisquenses trabalhavam nessas funções noutras localidades. Não eram dois ou três que trabalhavam fora. Eram realmente muitos.
De Mouriscas saíram muitos homens para trabalhar como mestres de lagares de azeite em terras muito diferentes, como as zonas de Torres Vedras, do Douro, da Guarda, das Terras de Basto e do Alentejo.
Com a naturalidade com que se aceita o que tem de ser, muitos mourisquenses deixavam a família anualmente para trabalhar como mestres de lagares de azeite, regressando, acabada a safra, com algum dinheiro economizado, “de forro”, como se dizia muitas vezes. Estes homens levaram o nome de Mouriscas a muitas terras do país. Como resultado, nalgumas terras Mouriscas era vista como terra de mestres de lagares de azeite.
Muitos mestres de lagares foram figuras populares nas terras onde trabalharam. Um deles foi Francisco Pires Esparteiro. Todos os anos, este homem interrompia o seu trabalho de sapateiro para trabalhar como mestre dum lagar de Mouriscas. Um pouco antes de fechar o lagar de Mouriscas, dirigia-se ao Pinhão, linda vila sobre o Rio Douro, para ser mestre dum lagar local. Na região do Douro a azeitona amadurece mais tarde que no Sul. O nosso homem permanecia no Pinhão até ao fim da safra, voltando a casa já perto da Páscoa. Era conhecidíssimo e estimadíssimo no Pinhão.
Um bom mestre de lagar diria que simplesmente fazia o que precisava de ser feito. Na verdade, um homem precisava de gostar muito do ofício para ser um bom mestre de lagar.
Mestres de lagares de azeite Mouriscas teve muitos e bons. Muitos exerceram as suas funções em Mouriscas, muitos outros trabalharam fora da sua terra. Alguns trabalharam dentro e fora de Mouriscas. Todos merecem uma homenagem, recordando-os e reconhecendo o importante papel que tiveram na produção de tão saudável alimento como é o azeite e na divulgação do nome de Mouriscas.
Publicado por santric em 07:18 AM
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setembro 13, 2011 |
Azeite para todos
Este artigo foi publicado neste blogue em 15 de setembro de 2004. É publicado de novo pelo interesse que possa ter para muitos que não o leram.
Agora que se aproxima a época da apanha da azeitona é interessante recordar um costume que em Mouriscas, e também em outras localidades, tornava possível ter azeite sem gastar dinheiro e sem possuir oliveiras. Tratava-se dum antigo costume que não levantava objeções, resultado dum consenso social implícito, algo que se tinha tornado numa norma pacificamente aceite por todos.
De acordo com esse costume, a azeitona que caía até certa data era de quem a apanhava.
Desse costume beneficiavam os mais pobres, permitindo-lhes arranjar azeite para seu consumo ou para vender. Também podiam obter algum bagaço, alimento muito apreciado para engorda dos porcos, animais até recentemente muito importantes na economia doméstica das populações rurais.
Nalgumas famílias mobilizavam-se todos os meios para apanhar a azeitona caída das árvores. Mulheres e jovens de ambos os sexos apanhavam o máximo que podiam enquanto tal era permitido.
A data limite para apanhar livremente a azeitona caída era 4 de outubro, dia da chamada da Feira da Ponte, isto é da Feira da Ponte de Sor. Para os aldeões de tempos passados as datas de realização de certos acontecimentos eram um marco ou referência frequentemente usada.
Depois da Feira da Ponte muitos proprietários caiavam de branco alguns troncos de oliveira para indicar que tinha acabado a época de qualquer um poder apanhar a azeitona caída. Também era costume colocar rama de pinheiro sobre as trepas (ramos mais perto do solo) dalgumas oliveiras. Chamava-se a isso coutar as oliveiras. A expressão era adequada já que o dicionário dá para o verbo coutar os significados, entre outros, de proibir e proibir a entrada ou acesso. Também se dizia que as oliveiras estavam guardadas.
Depois da colheita era aceite que a azeitona não apanhada pudesse ser recolhida por qualquer pessoa. Andar ao rabisco era a designação dada a essa operação. Segundo o dicionário de português da Porto Editora, andar ao rabisco significa “percorrer áreas extensas para apanhar o que ficou esquecido da colheita (espigas, uvas, castanhas, etc.)”.
Hoje ninguém se interessa em apanhar para si a azeitona das oliveiras alheias caída até certo dia ou que ficou depois da colheita. Estes interessantes costumes desapareceram por falta de praticantes. Os mais novos não sabem que existiram. Dos mais velhos muitos não se recordam. Por isso, para uns e para outros, lhes dedicamos estas linhas.
Artigo redigido com a preciosa ajuda, que se agradece, de Arnaldo Cordeiro (Espadeira) e de Emílio Costa (Patacas)
Publicado por santric em 05:05 PM
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