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outubro 20, 2009 |
Falar mourisquense (18)
(Escrito de harmonia com o Acordo Ortográfico)
Aqui vão mais exemplos do falar mourisquense. Há quanto tempo não tínhamos disso neste blogue! Agradecimentos a Otília Rosa Pascoal pelo seu contributo para a redação deste artigo.
PENSAR QUE SE BENZE MAS PARTIR O NARIZ – Esperar um bom resultado duma acção, mas acontecer o contrário. (Ela foi falar com a vizinha para fazerem as pazes. O resultado foi uma descompostura da vizinha, que lhe encheu a barriga de nomes. Pensava que se benzia mas partiu o nariz.)
LUXO – Coisa muito boa; muito bem. (Dantes lavava-se a roupa à mão num tanque; agora temos máquinas de lavar que são um luxo. Este frigorífico trabalha que é um luxo.)
SONHAR COM LADRÕES – Pensar em fantasias, sonhar com coisas pouco prováveis ou impossíveis. (Ele diz que o futuro sogro lhe vai comprar um carro do melhor que há. Deve estar a sonhar com ladrões.)
FRUTO – Coisas semeadas numa horta. (O fruto está cheio de sede. É preciso regá-lo bem.)
NÃO TER OS CINCO CELAMINS – Não funcionar bem da cabeça. (Ela não não tem os cinco celamins. Esqueceu-se de pôr açúcar nos bolos.) (O celamim é uma antiga medida de capacidade.)
É IMPORTANTE! – Exclamação usada para indicar espanto. (Ele trata mal toda a gente e ainda se queixa de ninguém gostar de falar com ele. É importante! Olhem que isto é importante! Deixou os animais toda a noite a apanhar chuva.)
BORCELO – Bocado que se partia de uma caçarola de barro ou alguidar. O remendo era feito com dois ou três gatos. (Tenho que guardar este borcelo para mandar pôr ao caldareiro quando ele por aqui passar.) (Definição e exemplo de Otília Rosa Pascoal. Borcelo é corrupão de boicelo ou boucelo, termos registados em dicionários portugueses e brasileiros.)
TECAROLA – Aperto de mão. Usado principalmente ao falar com crianças. (Estás um homem. Dá cá uma tecarola) (Sugestão de Otília Rosa Pascoal)
ESPERADIÇO – Que espera que lhe deem prendas. (Ele está farto de perguntar o que é lhe dou pelos anos. É um moço muito esperadiço.)
REPIMPA – Satisfeito ou satisfeita depois de comida ou bebida (Comemos umas azeitonas novas com pão e depois bebemos umas tigelas de café. Ficámos mesmo à repimpa.) (Sugestão de Otília Rosa Pascoal)
Palavras do texto resultantes do Acordo Ortográfico
- deem em vez de dêem
- redação em vez de redacção
Publicado por santric em 10:11 AM
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setembro 15, 2009 |
Alcínio Serras - charadista mourisquense
(Escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990)
De Mouriscas – esta terra tão especial – têm saído pessoas que se distinguiram em variados domínios. Alcínio Serras é uma delas. O charadismo é a área a que se vem há muitos anos dedicando com notável empenho.
Alcínio Dias de Matos Serras nasceu no lindo lugar das Varandas, sobranceiro ao rio Tejo, em 22 de janeiro de 1934, filho de Aurélio Dias Serras (Aurélio das Varandas) e de Maria Teresa Lopes. Pela parte da mãe, Alcínio é descendente em quinto grau de António Ferreira Santana, nascido em 1789, em Alagoa, concelho de Portalegre, e de Luísa Lopes, nascida em 1801, no Cabeço do Alconde, então freguesia de S. João, do concelho de Abrantes. Deste casal descendem os “Santanas com origem em Mouriscas”. A avó materna de Alcínio foi uma famosa parteira, conhecida no seu tempo por “Comadre Virgínia”. Assistiu ao nascimento de inúmeras crianças, que, depois, transportou ao colo à igreja para serem batizadas.
Depois da escola primária, Alcínio frequentou em Mouriscas o Colégio Infante de Sagres, onde fez o 5º ano dos liceus, e em Lisboa o liceu Pedro Nunes, onde completou o 7.º ano. Alcínio foi bancário e professor e licenciou-se em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa (ISCTE).
Alcínio Dias de Matos Serras é casado com Maria Antonieta Cadete Simão de Matos Serras, professora primária de várias gerações de mourisquenses e pai dum filho e duma filha. O filho, Alcino Serras, tem uma notável carreira de atleta de alta competição.
Às vezes ouvimos dizer que as palavras de alguém foram uma charada. Isto significa que não são fáceis de entender, que são uma espécie de mistério, que é precioso dar muita volta ao miolo para descobrir onde o orador quis chegar. Se o significado se pudesse captar sem esforço, não constituiriam uma charada. Uma charada é um jogo verbal em que, a partir dalgumas palavras não muito claras, se tem de descobrir uma solução. Um exemplo poderia ser este: Pela primeira se pode entrar; a segunda pode-se desfraldar. A solução é porta-bandeira. Este é um exemplo muito simples. De charadas, a maioria das pessoas conhece as palavras cruzadas. Há muitos outros tipos de charadas - aferéticas, protéticas, apocopadas, paragógicas, sincopadas, epentéticas, etc. É extremamente difícil decifrar muitas delas.
É trabalho de charadistas compor e decifrar charadas. Para se ser charadista é preciso muita dedicação, muito estudo e muita prática. Muita gente tem a inteligência e a base de conhecimentos suficientes para iniciar uma carreira de charadista, mas falta-lhe o interesse e a capacidade para o indispensável esforço continuado. O charadismo fica assim reservado a uma pequena minoria de “maluquinhos” no bom sentido – isto é, pessoas capazes de extrema devoção a uma causa.
Há muitos anos o Diário Popular, extinto jornal da tarde, organizou um concurso de palavras cruzadas. Alcínio estava em Lisboa e concorreu. Logo no primeiro problema apareceu uma palavra que desconhecia. Sabia que a primeira letra era um agá, mas faltavam-lhe outras. Com a paciência e a persistência própria de gente que se entrega a passatempos do género, Alcínio procurou no único dicionário de que dispunha a solução. Não a conseguiu, mas não desistiu. Conhecia a revista “O Charadista” e sabia que os charadistas se reuniam na cave do Café Palladium, nos Restauradores, aos sábados, por volta das 16 horas. Foi lá procurar auxílio. Podemos imaginar que para Alcínio deve ter sido um momento mágico o encontro com esse povo das charadas, assim como que a respeitosa entrada num santuário. Foi em 1958, há mais de meio século. Tinha Alcínio 24 anos.
No Palladium conseguiu a solução: hemeroteca, palavra que designa uma biblioteca de jornais e de revistas. Foi logo ali convidado para ser sócio dos charadistas. Assim nasceu uma paixão pelo charadismo que nunca murchou em Alcínio, que passou a ir todos os sábados ao Palladium para participar nos encontros com os outros charadistas.
A entrada de Alcínio no charadismo trouxe-lhe o novo nome de “Aldimas”. O uso de pseudónimos simplifica e democratiza o contacto entre charadistas, pairando acima de títulos profissionais ou académicos.
Desde a sua entrada no mundo do charadismo, Alcínio tem dedicado muito tempo ao assunto, não só compondo e decifrando charadas como participando em encontros anuais de charadistas e comunicando-se com colegas da arte. Em 1997 teve lugar no Sardoal um encontro de charadistas, organizado por Alcínio. Participaram dois casais brasileiros que, de propósito, vieram do Brasil, onde há muitos cultores desta atividade. A estação de televisão SIC esteve presente todo o dia e dedicou ao encontro intervenções em vários noticiários; no jornal da noite, no chamado horário nobre, procedeu a um resumo do ocorrido durante o dia.
O gosto pela língua portuguesa e o seu domínio e uma boa cultura geral são fatores indispensáveis à prática do charadismo. Por sua vez o charadismo aumenta o conhecimento da língua e a cultura geral, o que melhora a capacidade como charadista - e assim sucessivamente.
Alcínio usa na sua atividade de charadista um variado leque de obras de consulta. Algumas são especializadas. Alcínio é o autor de algumas.
Devido à prática do charadismo, Alcínio pode gabar-se duma invulgar bagagem de conhecimentos da língua e de cultura que lhe permite saber a resposta da maioria dos concursos que passam na televisão.
Quanto charadistas há em Portugal? Talvez não cheguem a 200. Referimo-nos, claro, a pessoas que se dedicam intensamente à arte e não àquelas que esporadicamente decifram uma charada. Ser charadista é difícil – exige demasiado trabalho e sacrifício para a maioria das pessoas.
Atualmente Alcínio é o coordenador da página de charadismo do jornal regional “ABARCA”, publicado no Tramagal e dedicado a vários concelhos da nossa zona.
Dizem estar cientificamente provado que o charadismo prolonga a vida das pessoas porque lhes exercita as capacidades mentais. Embora seja sempre de pôr reservas a afirmações do género, não custa aceitar que seja verdade.
Este artigo não pode terminar sem fazer referência a outros charadistas de Mouriscas: Joaquim Gonçalves Pedro (Joaquim da Aldeia), durante muitos anos barbeiro no centro de Mouriscas e que teve como charadista o pseudónimo de "Joves", Eduardo Roldão, que usou o pseudónimo de "Edmaro" e Manuel Alves Bento, que como charadista foi "Elvesto".
Pronto, leitor, se não sabia, fica a saber que em Mouriscas existe alguém que se dedica ao charadismo. O seu nome é Alcínio de Matos Serras. Muito bem, Alcínio, pela sua carreira!
Na redação deste artigo foram usadas informações recolhidas de entrevista de Alcinio de Matos Serras ao jornal “ABARCA”. Agradecimentos ao jornal "ABARCA" pela autorização de utilização da foto da entrevista. Também foram usadas informações, que se agradecem, do próprio Alcínio de Matos Serras.
= Palavras do texto resultantes do Acordo Ortográfico =
- janeiro em vez de Janeiro, porque os nomes dos meses se escreverão com
letra pequena , como já acontece com os dias da semana
- batizadas em vez de baptizadas, porque não se escreverão cês e pés não
pronunciados.
- atividade em vez de actividade, pela mesma razão.
- fatores, em vez de factores, pela mesma razão
- redação em vez de redacção, pelo mesmo motivo.
Publicado por santric em 05:38 PM
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agosto 13, 2009 |
Parabéns à Tia Joana pelos seus 105 anos de vida
(Escrito de harmonia com o Acordo Ortográfico de 1990)
Esta ilustre Senhora nasceu no já longínquo dia 4 de agosto de 1904, em Mouriscas - Abrantes, no casal de Camarrão, sendo a filha mais nova de uma família mourisquense, então constituída pelo pai, José Maria Mestre (08.10.1867-16.07.1949), carpinteiro de profissão e, depois, moleiro, pela sua mãe, Joana Dias, conhecida por Ti Joanita (02.01.1868-29.05.1959), doméstica e moleira, e pelos irmãos David Lopes Mestre (13.06.1897-2.03-1988), carpinteiro, moleiro e agricultor e Joaquina Dias (20.03.1899-07.03.1993), doméstica.

A tia Joana, à direita, com os seus irmãos David e Joaquina, em 1986
Aprendeu a ler, a escrever e a contar em casa da mestra de escola Teresa Fernandes, que morava no Casal Pita.
Depois foi aprender costura e bordados com a mestra Antónia Venância, moradora no casal do Outeiro, que enquanto solteira, se dedicou ao ensino da sua arte às jovens. Pensava ser costureira, mas pelo facto de seu pai tomar conta dos engenhos de farinação, que eram do seu tio Feliciano Lopes Mestre, o seu sonho não se concretizou.
Enquanto solteira, costumava ir aos bailes, abrilhantados apenas com gaitas de beiços e cantares, que se realizavam nas noites de domingo, em casa do ti Manuel Vargasta, sempre acompanhada da sua irmã Joaquina. Para pagamento da utilização da casa de fora utilizada para o efeito ofereciam ao seu proprietário sabão para a esfregar e petróleo e azeite para a iluminação.
Nesse tempo era costume fazer-se um arraial todos os domingos, no Largo da Cabaça, que atraia muitos jovens e adultos, que da vizinhança ali se deslocavam para conviver e se divertir.
Lembra-se do tempo de criança das festas dedicadas à Nossa Senhora dos Matos, que atraíam gente de toda a freguesia.
Casou com o mourisquense Joaquim Grilo Cadete (24.08.1912-05.02.1975), em 06.09.1932, pedreiro e mestre de obras, passando o casal a viver no casal do Surdo, perto dos pais do noivo, mudando-se, anos mais tarde, para o lugar dos Penedos, onde a “Tia Joana” viveu, mesmo depois de viúva, até há poucos anos, quando se entregou aos sobrinhos. Recorda com saudade que, no dia do seu casamento, foi transportada numa égua do sr. Luís Farinha, aliás, utilizada em quase todos os casamentos da terra.
O casal não teve filhos.
Acompanhando o marido, viveu algumas temporadas fora de Mouriscas, designadamente em Beja.
Aos 105 anos, continua com boa memória e lucidez, fazendo inveja aos idosos mais novos, e fala, com muito respeito e amor, dos seus avós paternos Manuel Lopes Mestre e Francisca Lopes e maternos Francisco Serrano (Palhinhas) e Rosária Dias e dos seus tios de ambos os lados, nomeando-os, sem dificuldade. O mesmo acontece, em relação aos sobrinhos diretos, num total de 33, e afins e seus descendentes: sobrinhos-netos, sobrinhos-bisnetos e sobrinhos-trinetos.
Neste dia memorável em que faz a bonita idade de 105 anos, uma das pessoas mais velhas da nossa freguesia de Mouriscas e do nosso concelho de Abrantes, todos os seus sobrinhos e demais familiares dão os PARABÉNS à Tia Joana e fazem votos para que continue a somar anos à sua vida, pedindo a Deus que lhe continue a dar saúde, vontade e alegria para viver.
Viver 105 anos, com saúde, paz de espírito e boa memória, é privilégio apenas dos mais afortunados. A Tia Joana deve estar feliz por isso. Também todos os seus familiares e amigos, e, com certeza, todos os mourisquenses, se sentem honrados e associam-se a mais este aniversário.
Escreveu este texto o sobrinho Carlos Bento, em 4.8.2009.
O texto foi também publicado no blogue “Mouriscas – Idosos de Ontem e de Hoje”, que tem o endereço seguinte:
http://casapretas23.blogs.sapo.pt/291.html
--- Palavras do texto resultantes da nova ortografia ---
- agosto em vez de Agosto porque os nomes dos meses, das estações do ano e dos dias da semana se escrevem com letra inicial minúscula
- domingo e domingos em vez de Domingo e Domingos pela mesma razão
- diretos em vez de directos porque o cê não se pronuncia.
Publicado por santric em 11:38 AM
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Novo blogue
O ilustre mourisquense Carlos Lopes Bento acaba de criar um novo blogue.
O blogue chama-se “Mouriscas – Idosos de Ontem e de Hoje”. Tem o endereço http://casapretas23.blogs.sapo.pt/291.html. Apresenta-se desta maneira: “Este Blogue de Carlos Lopes Bento mostra traços da vida dos idosos, de ontem e de hoje, na freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes.”
O primeiro artigo do blogue foi dedicado aos 105 anos de Joana Dias, com um texto também publicado neste blogue, por amabilidade do autor.
Desejamos longa vida a este blogue e temos muita curiosidade em saber o que Carlos Bento vai escrever sobre o tema que para o mesmo escolheu.
A lista de todas as páginas de Internet e blogues relacionados com Mouriscas e de que o administrador deste blogue tem conhecimento constam do endereço seguinte:
http://motg.no.sapo.pt/g.htm.
Publicado por santric em 11:22 AM
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agosto 12, 2009 |
Sítio dedicado a Mouriscas
“Mouriscas – Terra Grande, Terra Nossa” é o nome duma nova página na Internet.
O endereço é http://motg.no.sapo.pt
Visitem e divulguem.
Publicado por santric em 05:20 PM
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Pedido
Augusto Maia Alves tem-se dedicado à investigação da descendência de António Ferreira Sant’ Anna, seu antepassado em sexto grau. São fruto dessas investigações os artigos da série “Santanas” publicados neste blogue. Resulta também dessas pesquisas o livro “Santanas com Origem de Mouriscas".
Augusto Maia Alves gostaria de actualizar este livro, pelo que agradece quaisquer dados que possam completar ou corrigir as indicações fornecidas nos artigos saídos. Quaisquer informações, que antecipadamente agradece, podem ser enviadas ao endereço amaiaalves@hotmail.com.
Publicado por santric em 05:19 PM
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Ortografia
O leitor é convidado a visitar a página http://orto.no.sapo.pt.
É mantido pelo administrador deste blogue, mas não trata de Mouriscas. Destina-se a explicar o Acordo Ortográfico em termos simples.
Pode descarregar da página um resumo muito prático do Acordo Ortográfico.
Publicado por santric em 05:17 PM
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julho 15, 2009 |
Israel de Matos Dias – Esforço, dedicação e mérito
(Escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990)
Israel de Matos Dias nasceu na Carreira, airoso lugar de Mouriscas, em 27 de julho de 1945. Foi o mais novo dos sete filhos e filhas de Joaquim Dias Lona Júnior e de Senhorinha de Matos.
Completada a instrução primária, Israel começou a trabalhar na Farmácia Bento, em Mouriscas, Tinha então dez anos. Em tempos as farmácias preparavam muitos dos produtos que forneciam. Israel é dessa época. A farmácia de Mouriscas também proporcionava tratamentos ao domicílio. O atendimento na farmácia e os tratamentos em casa das pessoas permitiram a Israel duas coisas difíceis em terra tão dispersa: ser conhecido de todos os habitantes de Mouriscas e conhecer todos os cantos da freguesia. O convívio de Israel com a população de Mouriscas deu a Israel uma rica experiência humana que é fonte de estórias que gosta de recordar e contar. Muita gente ainda hoje se lembra do jovem Israel, enfiado na sua bata branca, ao balcão da farmácia, sempre amável e prestativo. Já então apresentava uma imagem muito profissional. Na Farmácia Bento se manteve até aos dezoito anos, idade em que ingressou no serviço militar.
Como militar esteve em Castelo Branco, Coimbra e Lisboa, donde embarcou para o que é hoje a nação da África ocidental chamada Guiné-Bissau. Prestou serviço no Hospital Militar de Bissau entre 1967 e 1969, numa altura de forte envolvimento militar de Portugal em três teatros de guerra em África. Foi em Bissau que se iniciou em odontologia.
Terminado o serviço militar, Israel abraçou a profissão de dentista, desempenhando-a no consultório de João Bordalo Pinheiro, bem no centro de Lisboa, tendo tirado uma especialização em Paris e depois outra em Lisboa. Entretanto casou, em 1974, com Maria Eugénia Grossinho, do bonito lugar do Tojal, situado perto da Carreira, onde nasceu Israel. Pouco depois, passou a ser proprietário do consultório de Bordalo Pinheiro após falecimento deste e subsequente compra à família. Ainda hoje ali atende diariamente os seus pacientes. Muitos mourisquenses têm passado por este consultório, onde o calor do acolhimento se não anula, pelo menos alivia, o medo com que, em geral, recorremos ao dentista.
Logo no começo da sua carreira de dentista Israel começou a trabalhar em Mouriscas na sua profissão aos fins de semana, não tendo mãos a medir, como se costuma dizer, tantas as pessoas que a ele recorriam. O seu espaço de trabalho ficava no centro de Mouriscas, a passos da farmácia onde tinha trabalhado ainda criança e adolescente.
Desde sempre Israel tem estado ligado à “ACATIM – Associação Comunitária de Apoio à Terceira Idade de Mouriscas”, contribuindo para a sua criação e desenvolvimento. Tem desempenhado o cargo de presidente da Assembleia Geral desta benemérita instituição.
Há uma faceta da vida de Israel menos conhecida dos mourisquenses – a sua ligação ao Sporting Clube de Portugal, clube fundado em 1906 por José Alvalade e outros, com milhares de simpatizantes em todo o mundo. Tudo começou quando um dirigente leonino, amigo de Israel, lhe pediu para atender de urgência o defesa internacional João Laranjeira, capitão da equipa de futebol do Sporting. O trabalho satisfez e já nos anos 80 Israel trata atletas de todas as modalidades e escalões graciosamente. Nunca disso fez alarde, mantendo sempre uma postura discreta, apenas movido pelo sentido de missão, de ajudar o seu clube de sempre da única forma ao seu alcance. Constantemente acorrem ao consultório de Israel atletas do Sporting. Ali se encontram com pessoas simpatizantes de outros clubes ou de nenhum clube – a todos Israel trata com atenção e eficiência.
Como reconhecimento pelos serviços prestados, o Sporting agraciou o mourisquense Israel de Matos Dias com o Prémio Stromp na categoria de Sócio do Ano em 1984. Mais tarde, Israel recebeu a Medalha de Mérito e Dedicação.
Os prémios Stromp são assim chamados em homenagem a Francisco Stromp, nascido em 21 de maio de 1892 e falecido em 1 de julho de 1930, atleta, treinador de futebol, sócio fundador e dirigente do Sporting, sendo considerado um símbolo de dedicação ao clube. É perpetuamente o sócio n.º 3. Os prémios Stromp são altamente prestigiados, havendo quem lhes chame “os Óscares do Sporting”. Como se sabe, os Óscares são atribuídos na América às estrelas de maior talento e melhor desempenho no cinema. Receber um prémio Stromp é uma honra ao alcance de muito poucos.
Os prémios Stromp são atribuídos pelo Grupo Stromp, fundado em 1962 com o objectivo de ajudar a implementar o ideal sportinguista e contribuir e colaborar com os órgãos sociais do clube na obtenção de êxitos e na defesa da imagem do Sporting. Para ingressar neste grupo e nele permanecer é necessário preencher condições bastante exigentes. Dele têm feito parte personalidades de muito relevo na sociedade portuguesa. De acordo com o sítio do Sporting na Internet, Israel faz parte do Grupo Stromp desde 1994.
Em 1988 Israel atingiu um dos seus sonhos ao conseguir a atuação das Velhas Glórias do Sporting nas Aldeias, no Campo da Casa de Povo de Mouriscas, o que se repetiria anos mais tarde.
Israel de Matos Dias é pai de Susana Dias, que, como o pai, seguiu a carreira de dentista, e de Filipe Alexandre Dias, jornalista desportivo.
Esforço, dedicação e mérito – três palavras que bem se podem aplicar à carreira de Israel de Matos Dias. Muito bem, Israel, pelo seu percurso de vida!
=== Palavras do texto que resultam do Acordo Ortográfico ===
- “maio” e “julho” em vez de “Maio” e “Julho”. Como já acontece com os dias da semana, os nomes dos meses e das estações do ano escrever-se-ão com letra pequena.
- “fins de semana” em vez de “fins-de-semana”, porque as locuções não levarão em geral hífen. “Locução” é um conjunto de palavras que exprime uma ideia, como, por exemplo, “animal de companhia” e “se bem que”.
- “atuação” em vez de “actuação”, porque o cê não se pronuncia
Publicado por santric em 09:47 AM
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junho 19, 2009 |
Casamentos à moda antiga (3)
(Artigo escrito de harmonia com as regras do Acordo Ortográfico de 1990)
O último artigo acabou na altura em que se iniciou o casamento na velha igreja de Mouriscas. Vamos ver, em imaginação, a continuação da história.
Tudo decorre relativamente depressa até o padre declarar os noivos casados. As alianças foram compradas ao ourives Mário Lopes da Rocha, homem bem-posto e bem-falante que veio do concelho de Cantanhede e em Mouriscas viverá até ao fim da vida. Como é habitual em Mouriscas, o noivo não vai usar a aliança, exceto talvez em dias “asselanados”, isto é dias festivos. Os rudes trabalhos do campo não permitem o uso de anéis.
Agora o padre vai dirigir-se aos noivos. Usando uma linguagem enérgica bem condizente com a sua potente voz, exorta os noivos a assumirem uma conduta cristã na sua vida e na educação dos filhos. Noivos e convidados recebem uma lição de catolicismo pois o padre procede a um resumo bastante completo da doutrina, pelo que esta parte da cerimónia foi a mais longa.
A certa altura o senhor vigário – é este o tratamento dado em Mouriscas nestes tempos ao pároco – diz que todas as escrituras são seladas e assinadas e o mesmo vai acontecer a esta. Então retira das mão do homem que está entre os padrinhos à direita do altar o crucifixo e dá-o a beijar aos noivos, às madrinhas e aos padrinhos, após o que o devolve ao homem encarregue de o segurar.
Esta assinatura não dispensa outras na sacristia, enquanto os convidados abandonam a igreja e se abrigam à sombra de freixos seculares.
Depois das assinaturas na sacristia e do pagamento ao padre e ao sacristão, lá vêm os noivos descendo a igreja, de braço dado, gesto não muito vulgar nesta época que ainda não chegou a meio do século XX. É no meio da porta da igreja que os noivos recebem os bons desejos de familiares e convidados. Entretanto, o sino repica festivamente. Alguns circunstantes dizem que o sacristão recebeu uma boa gorjeta para o sino tocar tanto tempo.
Só aqui a muitos anos, haverá uma saída da igreja para a estrada em frente. Noivos e acompanhantes circundam pela esquerda a igreja e o salão paroquial e vão colocar-se nas escadas que dão para um largo onde, ao domingo de manhã, umas pessoas convivem e outras vendem os seus produtos. Na foto vemos a torre da igreja, as janelas e portas do salão, que deixará de existir quando se construir uma nova igreja, e as escadas, que já devem ter visto muita história.
Foi por aqui que em 3 de fevereiro de 1907 o futuro presidente António José de Almeida fez um comício republicano e é bem possível que um assistente, em face de tanta promessa, tenha proferido a genial frase “o meu burro não ronca pela albarda, mas pela ração”, a qual durante muito tempo com frequência se ouvia em Mouriscas.
Imaginem então os noivos ao fundo da escada, ladeados por padrinhos e madrinhas, pais, outros familiares e miúdos. Atrás ficam os convidados. Agora um fotógrafo da família dos “Latoeiros”, do Carril, vai tirar uma foto com uma máquina fotográfica, uma grande caixa sobre um tripé. Da máquina cai um pano preto onde o fotógrafo enfia a cabeça e espreita para dentro a fim de tirar a melhor foto – é a tecnologia destes tempos.
Agora lá se põe em movimento o cortejo, com os noivos à frente, de braço dado. Dirige-se à casa dos noivos e tem pela frente mais de três quilómetros a pé, o que não é nada para pessoas de Mouriscas. Felizmente levantou-se um vento fresco que faz andar moinhos que se veem por perto e ao longe e muito embelezam a paisagem.
Utilidade foi a ideia que presidiu ao arranjo da casa posta que os noivos receberam dos pais. Luxo ou muito conforto estão ausentes. Daqui a poucas décadas pessoas com bem menos posses serão muito mais exigentes, mas para a mentalidade do tempo esta é uma casa que não envergonha ninguém; aliás, seria censurado ter-se gastado dinheiro a mais ou a menos do que se considera acertado. Claro está que a casa não deixa de ser passada a pente fino por alguns convidados, principalmente por algumas convidadas. Falando à moda de Mouriscas, há gente que “aprecia” tudo – “aprecia” e vai contar. Ouvem-se observações estranhas aos ouvidos de gente fora do meio, como “este é o quarto do noivo” , “olha o quarto da noiva” ou “aqui é a casa de fora”. Daqui a alguns anos alguns equipamentos deste novo lar muita gente nem saberá que existiram, como a grade, feita de tábuas estreitas e cruzadas, com ganchos para pendurar objetos como cafeteiras e pequenas panelas e a cantareira, móvel de madeira, colocada sobre um “pial” (poial) para os cântaros de água e alguns utensílios da cozinha.
Entretanto, é quase noite. Alguns convidados que não moram muito longe – pode ser a um quilómetro, já que em Mouriscas, o perto pode ser um bocado longe – alguns convidados, dizíamos nós, vão a casa e fecham as galinhas e recolhem cabras e ovelhas. Os outros dirigem-se a casa dos pais da noiva ou do noivo, conforme quem os convidou, e por ali ficam na conversa, esperando pelo jantar. E os noivos para onde vão, agora que estão casados à face das leis civis e religiosas? Cada um vai jantar em casa dos seus pais.
O jantar, como o almoço, é uma refeição alegre e abundante. Em 1951 chegará o Padre João, que só fará casamentos de manhã. Uma das razões invocadas para acabarem os casamentos à tarde foi alguns convidados apresentarem-se na igreja no estado em que alguns participam deste jantar, quer dizer alegres por causa do vinho ingerido. No fim da refeição é servido chá de doce-lima, que noutras terras se chama lúcia-lima. Ajuda à digestão e também serve de pretexto para beber um pouco de aguardente, em separado ou acrescentada ao chá. O vinho do Porto não faltará nos casamentos daqui a uns anos. De momento, não é muito apreciado e não veio a este casamento. O abafado, que é como se designa em Mouriscas a jeropiga, esse sim está presente e ajuda a engolir alguns bolos ou acompanha o chá.
O jantar acabou para alguns e está perto do fim para outros. O noivo levanta-se e dirige-se à casa dos pais da noiva, acompanhado dos dois padrinhos. Está uma noite muito escura, mas os mourisquenses desenvolveram a capacidade de em noites sem luz virarem nos sítios certos e com segurança colocarem os pés no chão.
Chegam à casa dos pais da noiva numa altura em que o pessoal regaladamente bebe o seu chá de doce-lima, com bolos, abafado e aguardente de figo, produto que, com abundância, se produz em Mouriscas. É muito macia esta aguardente, dizem alguns convidados. O abafado também recebe elogios. Noivo e padrinhos sentam-se e bebem e comem o que lhes apetece. A seguir os recém-casados são conduzidos à sua nova casa pelos dois padrinhos do noivo, após o que estes voltam a casa dos pais do noivo para recolher a família e voltarem às suas residências, distantes vários quilómetros.
No segundo dia do casamento a festa continua com alegria e muita comida. Os noivos almoçam e jantam em casas diferentes. Sucedeu que almoçaram em casa dos pais dele. Um pouco depois surgiu o homem da máquina fotográfica. Tirou uma foto que daqui a uns bons anos, já noutro século, as pessoas guardarão numa coisa ainda por inventar que se chamará computador. Daí a bocado os noivos partirão para casa dos pais dela, que, relembramos, não fica longe da sua.
Hoje é sábado. O casamento foi há quinze dias. Logo a seguir juntaram-se aos recém-casados um cão e um gato, criaturas indispensáveis num lar mourisquense. Os homens em Mouriscas em geral fazem a barba uma vez por semana, a maioria ao sábado. Familiares dos noivos não deixaram para muito tarde a visita semanal ao barbeiro, porque à noite participam num jantar em casa dos noivos. Chama-se jantar de noivado. Estão presentes os pais, uma avó ainda viva, padrinhos e madrinhas e tios e seus filhos.
Passaram algumas semanas. Hoje é o dia do pagamento do bolo. Amigos que receberam um bolo, visitam os noivos na sua casa, que observam compartimento a compartimento. Os visitantes desejam muitas felicidades aos noivos e também muita saúde. Os noivos agradecem e dizem repetidamente “a saúde é o principal”.
“São coisas que já cá encontrámos” e frases parecidas ouvem-se nestas alturas. Justificam e exprimem a esperança que se mantenham costumes como casamentos com este ritual. As coisas parecem muito estáveis. Claro que temos comboios, automóveis, telefones e outras modernices mas não se espera que alterem profundamente maneiras de viver muito enraizadas. Puro engano. Não passarão muitos anos sem tudo isto se alterar. Pessoas vivas agora vão observar mudanças que farão desaparecer muitos usos e tradições e o aparecimento de coisas novas como os casamentos à moda da cidade. Nesta altura nem sonham que isso possa acontecer. É melhor assim para não perderem a alegria que lhes vai na alma.
Autor deste artigo: João Manuel Maia Alves
= Palavras do texto resultantes do Acordo Ortográfico =
- "exceto" em vez de "excepto", porque o pê não se pronuncia
- "fevereiro" e "verão" em vez de "Fevereiro" e "Verão" porque os nomes das estações do ano e dos meses passam a escrever-se com letra pequena, como já sucede com os dias da semana
- "objetos" em vez de "objectos" porque o cê não se pronuncia
- "veem" em vez de "vêem"
Publicado por santric em 03:29 PM
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maio 31, 2009 |
Casamentos à moda antiga (2)
(Artigo escrito de harmonia com o Acordo Ortográfico de 1990)
Vamos imaginar como se poderia ter desenrolado um casamento em Mouriscas há umas décadas.
É voz corrente que os noivos têm um “bom arranjo”. Em linguagem mourisquense tal significa que os pais tem muitos bens - muitos à escala mourisquense. São terras de cultivo. Os noivos vão continuar a tradição familiar do amanho da terra, numa localidade que já conta com muita gente com empregos de colarinho branco, como se há de dizer daqui a uns anos - fatores do caminho de ferro, empregados de escritório, professores primários e pessoas com cursos superiores.
Foi construída uma casa para os noivos, não longe da casa dos pais dela, que é filha única.
Em casa dos pais dos noivos desde manhã cedo se trabalha para que tudo corra bem. O noivo foi ao barbeiro. Voltou bem escanhoado. O barbeiro esmerou-se no seu trabalho e não poupou na brilhantina e na água-de-cheiro.
A meio da manhã começam a chegar às casas dos pais os convidados. Muitos tiveram de andar muitos quilómetros a pé nesta terra com um povoamento tão disperso. Um comentário se ouve da boca de muitas donas de casa – é-lhes difícil comparecer a festas porque é preciso deixar tudo tratado e os “vivos” dão muito trabalho. Os “vivos” são os animais domésticos.
Os convidados são quase todos pessoas do campo. Muitos envergam fatos novos. Alfaiates e costureiras têm tido muito trabalho. Pais, noivos e padrinhos é obrigatório estrearem fatos novos. Muitos convidados também trajam galas novas. Aos muitos sapateiros de Mouriscas não tem faltado serviço por causa de casamentos.
A elegância desta gente é a que é de esperar da época, dos gostos pessoais e do ambiente campestre. Pessoas da cidade talvez não considerem elegantes por aí além os participantes desta festa. Os rudes trabalhos do campo também não contribuem para elegâncias – os corpos são fortes mas de aspeto algo pesado. Quase todos os homens vestem fatos a pender para o escuro, usam colete, em muitos casos com uma corrente de oiro e cobrem as cabeças com chapéus. Nas mulheres também as cores escuras imperam. Algumas ostentam cordões de oiro.
Um casamento é uma festa para a miudagem. Muitos não cabem em si de contentes pela festa e pela farpela e sapatos novos. Começam a juntar-se e a fazer traquinices ou, como é comum ouvir em Mouriscas nestes tempos, a fazer “judiarias”, o que origina um curioso comentário: moços, nem o diabo quis nada com eles.
Os convidados entretêm-se à conversa uns com os outros enquanto se servem de bolos e bebidas que cobrem longas mesas. Daí a bocado abancam para o almoço. O noivo almoça em casa dos pais entre os padrinhos, a noiva na casa que tem sido a sua, isto é, em casa dos pais, entre as suas duas madrinhas.
Alguns dos convidados já assistiram a casamentos em Lisboa e ficaram muito mal impressionados. Na sua opinião, os casamentos de gente fina não têm graça nenhuma com o que chamam copo-de-água, onde comem em pé e à mão umas coisas sem sabor nenhum, ficando no fim todos cheios de fome. Além disso, havia mulheres todas pintadas e - vergonha das vergonhas – a fumar como homens. As pessoas que vêm a este casamento não querem nada parecido. Esperam um casamento bem à moda de Mouriscas, com muito comer e alegria.
Cozinheiras especializadas em casamentos foram contratadas. Não vai faltar comida em abundância. Esta gente, quase vegetariana, nestes dois dias de festa vai consumir muita carne. Muito vinho e muita fruta, principalmente melão e melancia, não faltarão.
Acabado o alegre e abundante almoço, forma-se um cortejo, que se vai dirigir à casa dos pais da noiva, a dois quilómetros de distância, por caminhos poeirentos. O noivo vai à frente, entre os dois padrinhos. A mãe ficou em casa, cuidando das operações domésticas.
À porta da casa dos pais da noiva, muito senhor do seu papel, está o dono da casa, fazendo um esforço para conter tanta alegria. Viva lá, compadre! diz para o pai do noivo. Um casamento dá origem em Mouriscas a uma complexa rede de compadres e comadres. Os pais e avós de cada um dos noivos vão tornar-se compadres dos pais e avôs do outro e dos padrinhos e madrinhas. Também os casais de padrinhos e madrinhas se tornam compadres e comadres entre si.
Os convidados do noivo entram brevemente em casa dos pais da noiva. Há muita alegria e troca de cumprimentos e comem-se mais uns bolos e engolem-se mais umas bebidas.
Agora forma-se um cortejo conjunto, que se dirige à igreja. À frente vai a noiva, ladeada pelas madrinhas, a seguir o noivo, entre os padrinhos. A noiva veste um vestido branco. Na mão leva um ramo de flores. O cortejo terá de percorrer uns três quilómetros, com algumas subidas acentuadas, até atingir a igreja. Atrás, enchendo o caminho de lado a lado, vão os convidados, com muitas mulheres separadas dos maridos. A caminho da igreja as pessoas falam do que veem e do que lhes interessa mais – aquela horta bem cuidada, as colheitas do ano, etc.
Ao fim de longo caminhar nesta tarde quente, lá chegam à igreja, um pouco atrasados, o que não deixa satisfeito o padre, que tem outros serviços marcados para o resto do dia.
Os noivos ficam lado a lado em frente do altar, ladeados pelas duas madrinhas. O sacristão pede um voluntário. Este e os padrinhos dirigem-se à sacristia. Passados alguns instantes, surgem os três, vestindo opas (capas sem manga) encarnadas. Vão colocar-se do lado direito do altar, os padrinhos segurando castiçais com velas acesas e o terceiro homem, no meio, empunhando um grande crucifixo. Quase todos sentem a solenidade do momento. Imagens de santos, que parecem pessoas vivas a olhar para os assistentes, adensam o ambiente.
Passados uns momentos surge o padre, um homem de aspecto maciço nos seus sessenta anos bem conservados. Enverga uma curta capa branca por cima de vestes negras. O sacristão veste uma opa vermelha. Virado para os assistentes e com voz forte o pároco diz, ao mesmo tempo que se benze, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Começou a cerimónia.
Autor do artigo: João Manuel Maia Alves
= Palavras do texto com a ortografia alterada por causa do Acordo Ortográfico =
- Há de em vez de há-de
- Fatores em vez de factores porque o cê não se pronuncia
- Aspeto em vez de aspecto porque o cê não é pronunciado
- Veem em vez de vêem.
Publicado por santric em 10:14 AM
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